Crítica | O Dilema

O diretor Ron Howard sempre foi um “carregador de piano”. Dê a ele um roteiro bom e ele entrega uma direção à altura. Faça-o trabalhar com um texto ruim e o trabalho de Howard será tão ineficiente quanto. Ron Howard nunca chama a atenção para si em seus filmes, mas também não coloca sua marca em trabalho algum, tornando-o extremamente dependente do nível seus roteiros. Portanto, diante do fraco texto de O Dilema, escrito por Allan Loeb, Howard mostra-se apenas burocrático na função de diretor.

O filme conta a história de Ronny (Vince Vaughn) e Nick (Kevin James), amigos desde a faculdade e parceiros em uma empresa de design de automóveis. Após firmar um acordo com uma grande montadora, os dois trabalham no projeto dos sonhos que pode garantir um contrato de longo prazo. Porém, a situação se complica quando Ronny vê a esposa de Nick com outro homem e teme que o caso impeça Nick de terminar o projeto devido ao estresse. À medida em que a importante apresentação se aproxima, Ronny se aflige com a possibilidade de a verdade vir à tona.

Verdade seja dita, as intenções do roteirista são interessantes. A sequência inicial, que traz os casais principais conversando sobre o quanto conhecem o parceiro, estabelece o tema com eficiência. “A gente muda com o passar do tempo e aí descobrimos que não conhecíamos a pessoa”, diz Beth em determinado momento. Portanto, fica a impressão que veríamos a estrutura daqueles casais se deteriorando com o decorrer da projeção e camadas dos personagens viriam a tona. Entretanto, não é o que acontece. Ao invés de mostrar a dinâmica daqueles casais e como a desconfiança os afeta, o foco principal da obra é mostrar como Ronny lida com o segredo que guarda. Algo que seria interessante caso fosse utilizado para destrinchar o personagem, mas serve apenas para humor, tornando o enredo extremamente raso. O roteiro até tenta dar algumas camadas ao protagonista, citando seu vício em apostas, mas nada é minimamente desenvolvido.

Isto posto, O Dilema é uma tentativa de fazer comédia com situações absurdas, mas que cansa pela repetição. Desta maneira, quando Ronny tenta contar o que viu para o amigo pela primeira vez, o momento até sensibiliza, porém, quando ocorre pela terceira vez, parece apenas mais do mesmo. Outro momento repetitivo é o de Ronny pedindo para Geneva ser sincera com o marido, dando espaço para ela dar discursos sobre problemas matrimoniais. Há tantos momentos desnecessários aqui que o longa poderia ter, tranquilamente, vinte minutos a menos, demonstrando a preguiça do roteiro, que ainda traz infelizes piadas homofóbicas.

Para se ter uma ideia, os momentos verdadeiramente engraçados aqui são protagonizados por um personagem praticamente inútil à trama, Zip, interpretado pelo ótimo Channing Tatum. Já o suposto ator de comédia, Kevin James, não tem graça nenhuma e é apenas esforçado em sua composição, mas também não compromete. Ao passo que Vince Vaughn carrega bem o filme, possui o carisma enorme de sempre, mas não insere camada alguma em Ronny. Por fim, as atrizes femininas, Jennifer Connelly e Winona Ryder, estão bem com o pouco desenvolvimento que o roteiro dá para suas personagens. Aliás, só para destacar, a personagem de Queen Latifah é vergonhosa aqui, seja pelo péssimo texto ou atuação.

Como dito anteriormente, diante de tanta falta de inspiração, Ron Howard está no mesmo nível. Sua fotografia é quase televisiva, recorrendo apenas a planos médios e close-ups, utilizando poucos movimentos de câmera e, quando os traz, não muda nada no sentido do filme. Não há nenhum plano emblemático aqui ou iluminação diferenciada, assim como o design de produção apenas decora os necessários. Aliás, Howard busca o vermelho para representar a culpa de seus personagens, como na cena em que Ronny e Geneva conversam em um restaurante, mas o recurso é pouco usado, falhando na tentativa de criar alguma identidade visual. Até mesmo o excelente Hans Zimmer não destaca-se aqui, tentando dar ares contemporâneos ao longa através de instrumentos como a gaita e piano, mas acaba criando uma trilha sonora apenas eficiente. Sendo assim, fica claro como a parte técnica é tão rasa quanto seus personagens.

Para piorar, após Ronny sofrer por guardar seu segredo durante toda a trama, o momento de revelação é tão anticlimático que nos resta rir. Temos aqui um filme que quase não tem graça nos momentos de humor e desperta risos na catarse. Aliás, o suposto dilema do protagonista, o de contar ou não para seu amigo o que viu, mostra-se absolutamente inútil. O clímax deixa claro como, se tivesse contado desde o início, não teria acontecido nada demais, como o próprio Nick diz. Após duas horas de projeção, percebemos que todo o enredo poderia ter sido resolvido em dez minutos, algo admitido pelos próprios personagens, resultando em uma das experiências cinematográficas mais inúteis que já tive. O verdadeiro dilema que O Dilema desperta é a sensação de tempo perdido com a obra, fazendo-nos refletir sobre como recuperá-lo.

O Dilema (The Dilemma) – EUA, 2011
Direção: Ron Howard
Roteiro: Allan Loeb
Elenco: Vince Vaughn, Kevin James, Jennifer Connelly, Winona Ryder, Channing Tatum, Queen Latifah, Amy Morton, Rance Howard, Clint Howard, Chelsie Ross, Eduardo N. Martínez
Duração: 111 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.