Crítica | O Dinheiro (1983)

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Escrever sobre O Dinheiro é um exercício e tanto. Obra final — e considerada “prima”, por alguns críticos e espectadores — de Robert Bresson, o filme possui uma questão técnica tão escrupulosamente trabalhada e um roteiro tão impiedoso que é preciso um esforço do público, após a cena final, para colocar todas as ideias na mesa, discuti-las, relacioná-las e na medida do possível, entendê-las.

O diretor se baseou no conto Nota Falsa, de Tolstói, para escrever o roteiro. Não era a primeira vez que Bresson adaptava algo da literatura russa tampouco era a primeira vez que trazia para o cinema uma obra difícil. A visão do diretor para o poder do dinheiro, a predestinação e talvez um enlevo espiritual de algumas personagens encaixaram-se perfeitamente na trama de Tolstói e o conto ganhou uma representação notável na tela, não exatamente fiel aos fatos, mas certamente – e mais importante – fiel ao espírito geral da obra.

Uma parte da história precisa ser isolada do filme antes de partirmos para a verdadeira trama central. O longa começa com a história do jovem Norbert, que recebe do pai (gélido de sentimentos) a sua mesada, mas por estar devendo para um amigo do Colégio, tenta ganhar um pouco mais. Diante da recusa do pai, o jovem acaba aceitando a proposta de um amigo para passar adiante uma nota falsa. Essa nota será o fio condutor dos principais acontecimentos do filme, inclusive a perversão (ou afloramento da verdadeira…?) moral de Lucien e Yvon, mas também dos proprietários do Laboratório Fotográfico.

É certo que esse início com uma personagem “aleatória” é necessário para que o verdadeiro objeto da película apareça e ganhe força na trama: o dinheiro. Mas o diretor segue, após essa apresentação, com cenas que mostram Norbert e seus amigos, cenas que dentro da história já então focada em Yvon e Lucien em segundo plano, não tinham mais razão de existir. Num certo ponto da película a mãe de Norbert aparece como mais uma peça da máquina de corrupção e suborno que é a sociedade, mas a coisa fica por aí mesmo. Por isso propus o isolamento dessa parte para que possamos falar um pouco do que o dinheiro pode despertar em vidas de pessoas aparentemente normais, segundo a proposta da obra.

Yvon e Lucien são trabalhadores. Ambos jovens e de comportamento calmo. No início, temos a indicação de que apenas um deles tem uma propensão maior à maldade, enquanto o outro é correto e honesto. Conforme o filme avança, notamos que essa postura pacífica é na verdade um protocolo de sobrevivência não obrigatório. Tanto um quanto outro rapaz entram facilmente em atividades criminosas e chegam a espantar o espectador pela oposição entre suas personas no início, desenvolvimento e final do filme.

O dinheiro corrompe? O que é preciso para que o verdadeiro comportamento de uma pessoa venha à tona? Um questionamento parecido podemos encontrar nos quadrinhos, em A Piada Mortal, uma graphic novel sobre o que acontece a alguém após um ponto de ruptura em suas vidas (Batman, Coringa, Comissário Gordon). Em O Dinheiro, temos mais ou menos o mesmo princípio. A partir da necessidade ou de estar envolvido em alguma acusação envolvendo dinheiro, as máscaras de bondade, honestidade e obediência à lei caem por terra.

A frieza dos atos e do próprio tratamento entre as personagens ajudam a construção de uma atmosfera impessoal e indiferente. A fotografia é tomada por tons neutros e frios, cores pardas para os figurinos e móveis e muitíssimo difusas para a iluminação dos espaços cênicos. Assim como não há um verdeiro motivo para a transfiguração de um trabalhador e pai de família em um psicopata (o filme certamente é um prato cheio para o pessoal da psicologia), não há perdão ou condenação infame a qualquer ato cometido. O horror que temos ao presenciar os acontecimentos parece tirar de nós toda a capacidade de julgar ou classificar o que acabamos de ver, a última e melhor parte do filme.

O término abrupto e seco não trai o trabalho do diretor que guiou o filme inteiramente pelo caminho do distanciamento. A esperança se perde. As consequências vindas de uma simples nota falsa – que acaba não sendo, afinal de contas, uma simples nota falsa – são as piores possíveis para muita gente. O Dinheiro é um filme que daria muitos textos, um para cada vez que o espectador o rever. A experiência dramática, o ritmo espantosamente preciso e o desenrolar dos fatos são coisas que certamente não se esgotam na primeira sessão. Bresson se despede do cinema não com uma obra-prima, mas com um filme poderoso, isso sem sombra de dúvidas.

O Dinheiro (L’argent) — França, Suíça, 1983
Direção: Robert Bresson
Roteiro: Robert Bresson (baseado no conto de Tolstói)
Elenco: Christian Patey, Vincent Risterucci, Caroline Lang, Sylvie Van den Elsen, Michel Briguet, Béatrice Tabourin, Didier Baussy, Marc Ernest Fourneau
Duração: 85 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.