Crítica | O Ditador (2012)

A melhor piada em O Ditador não acontece no filme. E nem mesmo em seu trailer. Ela aconteceu há meses, no tapete vermelho que precede a entrega do Oscar, quando Sacha Baron Cohen, vestido como o Almirante General Aladeen, ditador do país fictício de Wadiya, e acompanhado de uma voluptuosa mulher como guarda-costas, derrubou as “cinzas” de seu “amigo” Kin Jong-il, o então recém-falecido ditador maluco da Coréia do Norte, no fraque de Ryan Seacrest, o entrevistador (vejam aqui).

Piada de mau gosto? Com certeza. Afinal de contas, Seacrest estava apenas fazendo seu trabalho. No entanto, aquele diabinho que fica em meu ombro conseguiu sobrepujar o anjinho do outro lado e as gargalhadas correram soltas.

Sacha Baron Cohen está em sua melhor forma quando faz esse tipo de humor, que depende muito mais das reações genuínas às suas ações do que de tramas unicamente fictícias. É um humor que, na verdade, quando usado corretamente, desnuda preconceitos e desvela hipocrisias. Há os que não tenham gostado de Borat e Brüno, seus dois filmes anteriores, por achar, com toda razão, o humor cru e ofensivo. Mas não há como não reconhecer algum valor intrínseco em mostrar a vida como ela é de verdade, lá nos rincões escondidos dos Estados Unidos (especialmente) e de outros países.

No entanto, dessa vez, Sacha Baron Cohen e seu diretor Larry Charles (o mesmo de Borat e Brüno) mudaram de fórmula e tentaram um filme de comédia inteiramente de ficção, em que o ator encarna o tal ditador de Wadiya. Somos apresentados a ele em uma sucessão de imagens que demonstra o absurdo do desgoverno de Aladeen, com sua obsessão por ele mesmo (seu nome significa várias palavras em Wadiya, incluindo “positivo” e “negativo”, dentre outras sandices) e, claro, pela construção de mísseis nucleares para destruir Israel. Sir Ben Kingsley (que concorre com Nicolas Cage ao prêmio de ator que mais escolhe roteiros equivocados) vive Tamir, o braço direito e tio de Aladeen, mas que secretamente almeja o trono para permitir a repartição de seu rico país entre várias empresas petrolíferas. O plano de Tamir para se livrar de seu sobrinho acaba fazendo com que Aladeen, imberbe e sem roupas, seja largado no meio de Nova Iorque, onde ele é recolhido por Zoey (Anna Faris) uma feminista natureba que não depila as axilas e, juntamente com Nadal (Jason Mantzoukas), um físico nuclear que encontra em Little Wadiya, planeja sua volta.

A história até que funciona bem e o passo rápido do filme, com apenas 83 minutos, não deixa o roteiro esmorecer completamente. Acontece que, mesmo com o tempo limitado, o que vemos é uma sucessão de piadas pesadas com forte conotação de crítica social mas que não têm a mesma ressonância das tentativas anteriores de Cohen, talvez porque saibamos estar diante de um filme inteiramente ficcional (e não um semi-documentário) ou porque as reações às barbaridades que ouvimos Aladeen soltar a cada minuto parecem café requentado, um verdadeiro déjà vu. E o pior: se você já viu o trailer de O Ditador, então já teve acesso às melhores piadas contidas no filme, como, por exemplo, a ótima cena do helicóptero em que Aladeen e Nadal têm uma inocente conversa, mas que, aos olhos dos dois típicos turistas americanos, parece que eles estão planejando um novo 11 de setembro.

E o roteiro, co-escrito por Cohen, em muitos momentos descamba unicamente para a nojeira (como a cena da masturbação) ou para diálogos intermináveis pseudo-engraçados (como no momento da tortura de Aladeen). Faltou ao filme um componente a mais, algo que o retirasse do lugar-comum das risadas vazias de comédias pastelão. Como a película foi escrita como um semi-documentário, mas não o é, tudo parece muito forçado e, às vezes, explicado demais para o público.

E o final então? Sem estragar nada para ninguém, cabe apenas dizer que Cohen decidiu partir para território seguro, escrevendo algo que pode parecer politicamente incorreto e, portanto, em linha com o que sempre fez, mas, na verdade, é de um moralismo desconcertante, daqueles que literalmente traem o espírito não só desse filme, mas de tudo que Cohen fez antes. Considerando que o longa é para maiores (apesar de ter recebido cotação 14 anos no Brasil, foi classificado mais corretamente como “R” nos EUA), Cohen não precisava de um final “agradável” já que seu público procura e espera outra coisa bem diferente.

No final das contas, se O Ditador fosse um episódio de Da Ali G Show, onde Cohen criou Borat e Brüno, ou seja, algo com 30 minutos de duração, teria o potencial de ser algo muito interessante e engraçado. Como é um longa metragem, acaba não funcionando.

O Ditador (The Dictator, Estados Unidos, 2012)
Direção: Larry Charles
Roteiro: Sacha Baron Cohen, Alec Berg, David Mandel, Jeff Schaffer
Elenco: Sacha Baron Cohen, Anna Faris, Sir Ben Kingsley, Sayed Badreya, Michele Berg, Rocky Citron, Liam Campora, Aasif Mandvi, Rizwan Manji, Jason Mantzoukas, Megan Fox
Duração: 83 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.