Crítica | O Doador de Memórias

estrelas 2Filmes não acontecem da noite para o dia. Não. Geralmente, são projetos de pelo menos uns dois anos (alguns surgem em dias! mas são raros) até virar o produto final que chega aos cinemas. Outros levam muito mais tempo, que é o caso de O Doador de Memórias, um projeto ambicioso do ator Jeff Bridges que demorou 10 anos para ser desenvolvido.

Jonas e seus amigos estão ansiosos para a cerimônia que irá acontecer dali alguns dias, onde finalmente descobrirão quais os papéis que vão representar na comunidade em que moram. Um lugar em preto e branco, literalmente, e onde a vida funciona de forma bem sistemática. Cada habitante tem sua função em específico e deve representá-la até a hora de sua partida para Alhures.

Assim como seus amigos Fiona e Asher, Jonas vive numa unidade familiar composta por um pai, mãe e irmã. Seu pai é responsável pelo berçário, enquanto sua mãe trabalha com os anciões e Lilly tem apenas oito anos. Na hora do jantar, Jonas partilha com a família que está com medo de qual será sua função. Porém, no dia da cerimônia, ele como os demais que estão presentes são surpreendidos quando a Anciã Chefe o deixa por último na hora de designar as funções. Jonas é escolhido como o Receptor de Memórias, alguém que irá ter o passado, presente e futuro de todos que vivem nessa comunidade.

Ao começar seu treinamento, Jonas descobre que irá receber as memórias para que no futuro possa orientar outros anciões sobre problemas que vierem a surgir. Nelas, aprende sobre coisas como neve, calor do sol, chuva, efeitos climáticos que não existem onde mora, pois tudo é controlado. Muita chuva faria mal as plantações, assim como um grande período de seca ou nevascas. Conforme vai recebendo as memórias, os olhos de Jonas se abrem mais e mais para um mundo que ele pensava que entendia. Com isso, passa a questionar a conduta dos moradores, o que inclui até seus pais e tenta partilhar das descobertas com Fiona, mas a menina não é como ele. Observado de perto pela Anciã Chefe, o garoto irá desvendar mistérios como Alhures, local para onde são encaminhados os idosos e as crianças como Gabe, a quem seu pai está cuidando e que não se desenvolvem da forma devida. Descoberta essa que irá mudar sua vida e a de todos de uma maneira bem repentina.

Para um projeto que levou pelo menos 10 anos, Jeff Bridges deveria ter investido um pouco mais. Tirando o belíssimo trabalho de Ed Verreaux e Ross Emery no design de produção e direção de fotografia, respectivamente, esse filme é um tanto insípido. A começar pelo elenco onde Alexander Skarsgard e Katie Holmes conseguem se encaixar perfeitamente na paisagem apresentada: sem emoção, sem interesse, sem vida. Ainda que sejam humanos. Bridges, na busca por uma voz que parecesse a de um sábio, nos passa a sensação de estar com a boca cheia de algodão, o que irrita em diversos momentos. Meryl Streep tenta muito fazer algo por seu papel e quase consegue. O sopro de salvação parte dos jovens Brenton Thwaites e Odeya Rush que atuam graciosamente e captam a atenção do espectador.

Contudo, a parte realmente falha no longa é o enredo, que deixa em aberto diversos pontos que precisavam de explicação. Para suprir tal falha, o diretor Phillip Noyce optou pelo uso de montagens em vídeo para ilustrar o que faltou em palavras. Apesar da boa saída, não funcionou tão bem. O que acabou deixando a trama mais rasa do que deveria ser.

As adaptações feitas acrescentaram um ritmo à trama que é inexistente na história original, mas, foi mantido o mesmo final do livro, o que pode não agradar a todo mundo.

O Doador de Memórias (The Giver – USA 2014)
Direção: Phillip Noyce
Roteiro: Michael Mitnick, Robert B. Weide
Elenco: Jeff Bridges, Meryl Streep, Katie Holmes, Brenton Thwaites, Odeya Rush, Alexander Skarsgard, Cameron Monaghan, Taylor Swift, Emma Tremblay
Duração: 97 min.

MELISSA ANDRADE . . . Uma pessoa curiosa que possui incontáveis pequenos conhecimentos desde literatura a filmes a reality shows a futebol alemão e está sempre disposta a aprender muito mais. Por isso sou Jornalista por experiência e vocação. Fotógrafa Profissional com muita paixão e um olhar apurado e Roteirista frustrada e uma Crítica de Cinema em ascensão.