Crítica | O Doutrinador

A efervescência política atual no Brasil recomendou cuidado aos produtores de O Doutrinador – adaptação homônima dos quadrinhos do brasileiro Luciano Cunha – quanto à data de seu lançamento nos cinemas nacionais. O filme do diretor Gustavo Bonafé chega inevitavelmente a reboque do momento político brasileiro, mas evita tomar partido de qualquer lado. Isso está claro em seu conteúdo, mas penso que foi acertada a decisão de adiar o lançamento para depois das eleições presidenciais a fim de prevenir qualquer tentativa de se fazer palanque sobre ele. O alvo da crítica de O Doutrinador é essencialmente a corrupção estrutural no país e seus efeitos deletérios sobre as condições de vida da população. O discurso do longa-metragem, além de supra-partidário, pode ser dirigido também para muitos outros países. Sem dúvidas, é louvável a iniciativa de Bonafé em realizar um filme brasileiro de gênero com tão forte veia política.

Mas a história do justiceiro que vinga o sofrimento dos brasileiros matando políticos corruptos segue um caminho de altos e baixos. Há referências facilmente identificáveis a outros filmes de herói, como V de Vingança e a outros dramas políticos, como Tropa de Elite 2. Até certo ponto, essas citações enriquecem o enredo de O Doutrinador. Também o elenco principal se sai bem. Eduardo Moscovis, interpretando o governador Sandro Correa, consegue imprimir certo sarcasmo no modo como pergunta aos policiais que chegam para realizar sua prisão se eles aceitariam um café. Consegue apresentar-se como vilão sem recorrer a esgares e cacoetes manjados. Kiko Pissolato (Miguel) e Tainá Medina (Nina) também compõem seus personagens com boa dose de sensibilidade e convicção. Mas as outras atuações não passam do mediano. A necessidade infantil do roteiro em transformar os demais corruptos em caricaturas, que abusam das risadas e dos careteamentos para encenar o mal, ajuda muito pouco os atores.

Um grande erro do filme de Bonafé é destituir o cenário político brasileiro de suas figuras mais perigosas – os políticos fleumáticos, de fala mansa e temperamento impassível, que conseguem esconder sua canalhice sob os ternos devidamente alinhados e a postura perfeitamente aprumada. Mesmo quando fala à população, é fácil perceber a demagogia barata do deputado Antero Gomes (Carlos Betão). É um tanto inocente imaginar que os políticos mais virulentos do Brasil possam ser resumidos por caricaturas tão fáceis, que passam todo o tempo nos bastidores a gargalhar em alto som da população. Também há, em O Doutrinador, problemas de ordem narrativa mais uma vez causados em grande medida pelo roteiro. A cena em que Antero Gomes Filho grava uma propaganda de bermudas é um anacoluto narrativo absurdo. A tentativa de inserir um momento cômico fracassa tanto por ele estar completamente solto dentro do fluxo da história, como por não ter qualquer inspiração. Não arranca um riso sequer do público.

A maior razão para que o filme não explore todo o seu potencial é exatamente essa – demorar muito a decidir que rumo seguir. O drama ou a sátira política. O filme de ação em que um justiceiro caça corruptos ou o drama agudo sobre o backstage da política nacional. Quando se decide, o longa-metragem de Gustavo Bonafé cresce bastante com excelentes cenas de luta e perseguição, marcadas por bons efeitos em slow motion e por uma cinematografia que sabe explorar os tons escuros dos cenários. As gruas trazem para o pano de fundo a cidade de São Paulo por meio de lindas panorâmicas. Mas, no todo, é estranho pensar que um filme essencialmente político, lançado em um cenário tão acirrado como o brasileiro atual, faça essa escolha em detrimento de qualquer complexidade. A política acaba relegada a um subtexto e a uma narração final que tenta salvar a falta de uma abordagem consistente em toda a segunda metade do filme. Frustra notar que O Doutrinador se transforma em um ótimo, porém quase genérico filme de ação. Apenas entremeado por comentários políticos tímidos.

A afirmação do próprio diretor de que se trata de um filme de entretenimento não me parece justa se consideramos a importância de seu tema e, mais ainda, o contexto histórico em que ele foi lançado. Se todo filme é mesmo um produto de seu tempo, não é possível aceitar que O Doutrinador navegue em águas tão rasas. É bom compreender também que cenas de ação não se opõem de nenhuma forma a uma abordagem mais profunda da política. Ao contrário, podem muitas vezes funcionar como ingrediente adicional para seduzir o público e imprimir estilo e assinatura à obra. Não foi o que fizeram McTeigue e as irmãs Wachowski em sua estupenda adaptação? Apesar de tudo isso, ainda penso que vale a pena assistir ao filme de Gustavo Bonafé. Mesmo que seja para saciar nosso eterno desejo de ver todos os crápulas, de quaisquer matizes ideológicos, se dando mal na grande tela. Algo que, no Brasil, só mesmo o cinema parece apto a fazer.

O Doutrinador – Brasil, 2018
Direção: Gustavo Bonafé
Roteiro: Gabriel Wainer, Luciano Cunha, Denis Nielsen, Mirna Nogueira, L.G. Bayão
Elenco: Kiko Pissolato, Samuel de Assis, Tainá Medina, Marília Gabriela, Eduardo Moscovis, Helena Ranaldi, Natalia Lage, Natalia Rodrigues, Carlos Betão
Duração: 110 minutos.

 

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.