Crítica | O Dragão Chinês – Parte II

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Tive a oportunidade de assistir a essa pérola asiática na dobradinha trash do cinema hoje de propriedade de Quentin Tarantino, em Los Angeles, cujos comentários mais detalhados sobre o local o leitor pode encontrar aqui. Foi uma experiência interessante e divertida, claro, especialmente em razão das circunstâncias que rodeiam essa “continuação” (explicarei as aspas mais a frente), mas o filme, em si é, pela falta de uma expressão técnica melhor, absolutamente imprestável.

Em primeiro lugar, há que se esclarecer que Tang Shan er Xiong, título original dessa obra, não tem tradução oficial para o português. Para falar a verdade, não há tradução oficial nem mesmo para o inglês, mas The Big Boss – Part II foi a tradução utilizada na legendagem. Por isso, tomei a liberdade de simplesmente utilizar o título do filme original, com Bruce Lee – O Dragão Chinês – e acrescentar Parte II.

E a razão para isso é que esse filme ficou perdido por mais de 30 anos. Nunca foi lançado em vídeo doméstico oficialmente e nem mesmo cópias contrafeitas estão disponíveis de maneira corriqueira. O que se sabia é da existência de apenas uma cópia em celuloide, de propriedade de um cinema na Zâmbia, na região centro-sul da África. Mas Quentin Tarantino, profundo conhecedor do cinema asiático e ávido colecionador de obras como essa, de alguma maneira ou achou essa única cópia na Zâmbia ou a replicou ou encontrou outra em algum lugar. Afinal de contas, depois de 38 anos, The Big Boss – Part II chegou finalmente aos cinemas mais uma vez, nessa sessão double bill única no New Beverly Cinema.

O começo da continuação de O Dragão Chinês chega a ser engraçado de tão melancólico que é. Vemos Cheng Chao-an, personagem do original, preso depois que matou o chefão do título. Fica difícil saber quanto tempo se passou entre uma fita e outra, mas o melancólico é saber que, produzido em 1976, depois da morte de Bruce Lee três anos antes, vemos o ator-cópia-muito-mas-muito-mal-feita-de-Bruce-Lee Bruce Le (sim, Le, não Lee) fazendo o personagem que fora do mestre de artes marciais. São momentos excruciantes em que Le, ator infinitamente pior do que Lee jamais foi, recebe a visita de seu irmão  Cheng Chao-Chun, que deseja se vingar no lugar do irmão. Se vingar do que exatamente? Ah, de qualquer coisa. Isso realmente não importa no roteiro.

Afinal de contas, o personagem de Le/Lee nunca mais aparece no filme. Sua função é única e exclusivamente fazer uma ponte quebradiça entre o primeiro e segundo filmes, de forma que, pelo menos na cabeça dos roteiristas mambembes, a fita pudesse receber o título de continuação. Isso explica as aspas que usei mais acima.

Com isso, Cheng Chao-Chun, vivido por Lieh Lo, que, só em 1976, atuou literalmente em uma dúzia de filmes como esse, sai em uma busca sem rumo que o leva a lutas mal feitas em um prédio/prostíbulo, somente para encontrar o amor de sua vida, filha, claro, do chefão que ele quer matar. Seguem-se momentos que tentam mostrar o romance dos dois, mas que, na verdade, geram sequências e mais sequências da mais pura arte de criar “vergonha alheia”, daquelas que o espectador não tem outra opção que não fechar os olhos e torcer para tudo acabar rápido e de maneira indolor. E isso sem contar com o aparecimento – sem a menor explicação minimante plausível – de uma espécie de “mago” que faz poções em uma caverna, com direito a caldeirão, trono e indumentária escalafobética e várias outra sequências de luta que não chegam nem próximas da pior luta do filme original.

Mesmo se encarado como uma paródia, o mau-gosto impera do começo ao fim. Mas gosto é gosto e não vou discutí-lo. O que realmente é inaceitável é a completa inaptidão dos roteiristas e do diretor em entender os rudimentos do que é uma obra cinematográfica. O filme até poderia se encaixar na categoria do “é tão ruim que é bom” em que o próprio O Dragão Chinês original se encaixa. Poderia. Mas não pode. O Dragão Chinês – Parte II não tem um mínimo de consistência. Ele está mais para “é tão ruim que é péssimo”. Ou “é tão péssimo que é torturante”, ou, talvez, “é tão torturante que dá vontade de arrancar os olhos com um colher enferrujada”.

A montagem e os efeitos especiais e práticos são tenebrosos. Não há o menor conceito de continuidade. Os atores nem poderiam ser categorizados como tais. O roteiro não faz o menor sentido, tenta se levar a sério e, quando fecha a história, insere, da pior maneira possível, várias explicações retiradas da cartola. Em suma, é uma experiência de trincar os dentes que só o mais fanático fã de filmes trash de artes marciais assistiria mais de uma vez.

Essa é uma obra perdida que não faria a menor falta se continuasse perdida.

The Big Boss – Part II (Tang Shan er Xiong, Hong Kong/Taiwan/Tailândia – 1976)
Direção: Chih Chen
Roteiro: Ge Kao, Ying Wong
Elenco: Lieh Lo, Ping Wang, Wai-Man Chan, Biu Gam, Pak-Kwong Ho, Chien-Chiu Huang, Hung Hung, Bruce Le, Chiu Lee
Duração: 100 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.