Crítica | O Eclipse (1962)

Após acompanhar o colapso do casamento de Lídia e Giovanni durante um único dia em A Noite, lembrando o que Joyce fizera em seu grandioso Ulisses, Michelangelo Antonioni traz sua Trilogia da Incomunicabilidade a seu capítulo final. O enredo segue impulsionado por relacionamentos amorosos em crise e casais que fracassam em suas tentativas de se comunicar. Mas, se no filme anterior, o casamento parece ir se despedaçando pelo caminho, sem sabermos o que restará dele, O Eclipse já se inicia com o ponto final do namoro de Vittoria (interpretada pela musa de Antonioni – Monica Vitti) e Riccardo (Francisco Rabal). No terceiro filme de Antonioni, também não há desparecimentos propositalmente mal explicados. O ponto de partida da obra já está dado, sem enganos nem subterfúgios e será apenas o pródromo de todo o mal-estar que virá.

Na introdução de O Eclipse, o espaço refletirá o caos interno dos personagens. Em A Aventura, a grandeza das paisagens e os espaços quase sempre hiperbólicos distanciam o trio de protagonistas. No terceiro capítulo, a incomunicação do casal se dará pela via oposta – o espaço se reduz à claustrofobia de um apartamento. O cineasta italiano constrói seus planos geometricamente. Durante toda a cena inicial, é possível notar que Vittoria e Riccardo mal conseguem se olhar ou ficar muito tempo frente a frente. Repelem-se mutuamente. Completamente imiscíveis. Um dos planos mais interessantes os coloca em lados opostos do quadro, de costas para a câmera, separados por uma parede e em um silêncio quase obsceno. Outra bela metáfora visual é a moldura que a personagem de Monica Vitti segura, claramente constrangida pelo seu vazio, que ela não sabe como preencher. Tudo parece estático, impedido de se mover, como no instante indefinido de um eclipse, em que “até os sentimentos parecem parados”, segundo afirmou o próprio diretor a respeito de seu filme.

A protagonista feminina de O Eclipse assume a centralidade da obra. Vittoria, ainda na cena do término, permanece de pé diante de Riccardo, enquanto o olhar no namorado se perde em um vazio inútil e inexpressivo. Mais uma vez, o filme de Antonioni veste sua protagonista com um vestido negro. Nos momentos mais relevantes dos três filmes, vemos as mulheres de Antonioni vestindo preto, contrastando com a delicadeza de sua pele tão alva e feminina. Assim ocorreu com Claudia, interpretada pela própria Monica Vitti em A Aventura, e também com Lídia, a esposa angustiada de A Noite, durante toda a festa. O vestido negro simboliza aqui o feminino enquanto força de ação e energia recriadora. É admirável o senso estético do italiano ao contrapor tantas vezes o figurino escurecido de suas personagens e o ambiente claro e iluminado em seu entorno. Já na cena da Bolsa de Valores, Vittoria ressurgirá com um vestido sóbrio mas estampado, essencialmente diferente que se via até ali.

O filme é todo composto de contrastes entre o claro e o escuro. Talvez seja o capítulo da trilogia em que isso aconteça de forma mais visceral e explícita. O preto e o branco vão se alternando e se amalgamando incessantemente, tal como os sentimentos em movimento, despertados por uma nova paixão – o jovem Piero (Alain Delon). Vittoria inicialmente os nega e os afasta, mas acaba cedendo a eles. O eclipse se desfaz e ela vive um novo amor. Sem abandonar o simbolismo, na cena em que se entrega a Piero, ela vestirá branco. E assim a Trilogia da Incomunicabilidade será concluída. “Os sentimentos estão voltando à moda”, diz Giovanni no filme anterior como um prenúncio do belíssimo arremate que fará O Eclipse. O mal-estar moderno, que invadia as classes mais abastadas na segunda metade do século XX, encontra uma pequena fissura que lhe dá vazão. Por ela, os sentimentos fluirão em uma explosão de luzes. Nos minutos finais de projeção, vão se multiplicando as lâmpadas por toda a cidade até que uma delas incendeia toda a tela, tal como numa erupção vulcânica. Uma erupção do branco.

Seu filme de 1962 fecha a trilogia como uma unidade. Antonioni a transforma em uma pintura única, em preto e branco, em que os diversos matizes se somarão e só encontrarão sentido na última pincelada. Muitos interpretam a obra do italiano como um manifesto pessimista e eivado de mal-estar moderno. Mas dez anos após sua morte, a cena final de O Eclipse parece continuar negando isso. Ao menos por um instante. Ou melhor, por um plano. A centelha final de uma das mais influentes obras de arte do século XX.

O Eclipse (L’eclisse) — Itália/ França, 1962
Direção:
 Michelangelo Antonioni
Roteiro: Michelangelo Antonioni, Tonino Guerra, Elio Bartolini, Ottiero Ottieri
Elenco: Monica Vitti, Alain Delon, Francisco Rabal, Lilla Brignone, Rossana Rory, Mirella Ricciardi, Louis Seigner
Duração: 126 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.