Crítica | O Enfermeiro, de Machado de Assis

o-enfermeiro-machado-de-assis-plano critico literatura plano critico

Machado de Assis foi um escritor de pompa. Não reconhecido devidamente enquanto vivo, ganhou as páginas da história literária mundial com seu estilo inconfundível. Cheio de senso de humor, o incomparável escritor flertou com o Romantismo, Realismo, Parnasianismo e ao desafiar clichês e fugir dos rótulos, demonstrou ser dono de um projeto literário firme. Dentre tantas produções que podem se encaixar em coleções sobre obras-primas da literatura, temos romances como Dom Casmurro, A Mão e a Luva, Memórias Póstumas e Quincas Borba, além dos contos, gênero literário onde o mestre da ironia desenvolveu muitas de suas “teses”.

O Enfermeiro é um dos títulos que merecem destaque. Por meio da narração em primeira pessoa a um interlocutor imaginário, a história versa sobre a imperfeição humana e valores éticos, sem cair em sentimentalismos, redenções ou outros caminhos “fáceis”. A história não é complexa. O que a torna fascinante é a maneira como Machado de Assis a desenvolve. No conto temos Procópio, um enfermeiro que tem a difícil missão de cuidar do rabugento e ranzinza Coronel Felisberto, homem conhecido por sua fama insuportável, incapaz de manter alguém para seus cuidados por mais que alguns dias.

“Era um homem estúrdio, exigente, ninguém o aturava, nem os próprios amigos”, expõe o narrador, ao complementar que “gastava mais com enfermeiros que remédios”. Procópio informa ao seu interlocutor que esse trabalhar para um homem rico assim era uma oportunidade valiosa, mas que de tão implicante e problemático, trata-lo cotidianamente era uma tarefa hercúlea. Certo dia, depois de ser maltratado pelo paciente, o enfermeiro perde a cabeça e ceifa a vida miserável do “velho”. É a partir daí que se estabelece uma característica típica do escritor: a ironia fina.

Mestre na arte da tragédia como tema central da vida, Machado de Assis dá continuidade ao conto nos revelando uma evolução brusca de personagem, maniqueísta, sim, mas que de tão bem erguido torna-se algo bem longe dos clichês. Corrompido, marcado pelo egoísmo e dono de uma postura oportunista, o bom samaritano segue a sua vida inicialmente cheio de si, mas tomado por uma incômoda sensação de remorso que o toma vorazmente. É quando ele começa a buscar desculpas para alívio da consciência pesada. Manda rezar uma missa para aliviar o tormento, numa postura de constante ilusão de si mesmo.

Mas, afinal, o que faz o personagem se corroer tanto por dentro? O velho era uma pessoa indesejável e a morte, para alguns que viviam por perto, não era nada mais que um profundo alívio. Como vantagem, Procópio tem o aneurisma do paciente, algo que estava para estourar a qualquer momento. O problema era o desdobramento da morte: no testamento, o velho deixa toda a sua herança para o seu enfermeiro. Como lidar? O personagem adentra um profundo canal de culpa e pensa em doar a fortuna para os mais necessitados.

Além do dinheiro, Procópio ganha prestígio social, pois as pessoas começam a elogiar a sua postura paciente com alguém conhecido por ser tão desprezível. A documentação referente ao processo de transferência da herança caminha por vias burocráticas e leva meses para se tornar efetiva, período que serve de meditação para o personagem em relação as suas próximas ações. Doar a herança ou entregar apenas uma parte? Eis a questão, dúvida que nos revela um texto confessional que analisa a “alma humana” por meio de digressões, retardação de revelações, períodos curtos e eficiente uso da figura de linguagem que encontrou de Machado de Assis um ótimo expoente: a ironia.

Publicado em 1860, o conto é bastante expressivo e traz uma reflexão que deveria ser parte dos novos manuais de roteiro para dramaturgia: ninguém é tão bom ou ruim quanto parece. Os bons sabem relativizar e assim, ofertam ao público algo longe do lugar comum.  Engraçado observar como o escritor faz uso do maniqueísmo sem cair nas armadilhas vulgares que nas mãos de outro expoente literário poderia render um conto inexpressivo. Relevante e atual, O Enfermeiro é uma das produções de Machado de Assis que ocupa o mesmo espaço que A Cartomante e Pai Contra Mãe, contos igualmente sucintos, fascinantes e necessários.

O Enfermeiro (Brasil, 1845)
Autor: Machado de Assis
Editora: Mr. Bens Editora
Páginas: 40.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.