Crítica | O Equilibrista

estrelas 4,5

Noite de seis de agosto de 1974. Enquanto boa parte do ocidente dormia, Philippe Petit estava sentado em uma viga no vão de um poço de elevador se escondendo de um guarda. Até aí, uma história de polícia e ladrão como qualquer outra.

Mas, e se eu lhes contasse que tudo isso ocorria no centésimo quarto andar da Torre Sul do World Trade Center durante sua construção? E que, na verdade, não se tratava de assalto algum? Somente com esses dois “e se”, Philippe Petit entrou para a história realizando uma das maiores proezas ilegais que o mundo já havia visto.

Assim como todos nós, Petit tinha um sonho. Um sonho que apareceu por uma enorme coincidência quando o equilibrista, malabarista e mágico estava em uma sala de espera de um consultório dentista. Ao abrir uma página de revista, Petit se apaixonou à primeira vista, mas não se tratava de uma beldade voluptuosa e esbelta, mas sim de dois monstros que contavam com quatrocentos e dezessete metros de altura e cento e dez andares cada um, fora que nem haviam nascido no momento. Esses monstros eram as primeiras torres do complexo World Trade Center.

Ao descobrir que as duas torres arranhariam o céu de Nova Iorque, Petit decidiu ali mesmo que precisava colocar sua corda bamba entre os telhados das duas e fazer a travessia que marcaria sua vida.

A façanha é lembrada até hoje como um dos maiores marcos artísticos do século passado e como não poderia deixar de ser, teve manchetes de jornais do mundo inteiro, porém, somente em 2008, a história da audácia de Petit, ganhou um documentário em longa metragem.

Dirigido com competência por James Marsh – o mesmo de A Teoria de Tudo, O Equilibrista é baseado no livro To Reach The Clouds de Philippe Petit – ou seja, temos, em essência, a predominância é do ponto de vista do excêntrico equilibrista.

Marsh opta por fugir um pouco do formato clássico de documentários – apenas entrevistas e imagens de cobertura. Aqui, ele insere uma quantidade relevante de material de arquivo como filmagens, fotografias, documentos, plantas, esboços, etc, acompanhada de encenações fictícias.

Assistir à O Equilibrista logo após a saída muito emocionada do filme que considero o melhor do ano até agora – A Travessia, é uma experiência elucidativa e muito enriquecedora. O Equilibrista complementa A Travessia e vice-versa. Até mesmo alguns dos enquadramentos de Marsh durante os segmentos encenados são semelhantes aos de Zemeckis. Uma obra é intimamente conectada a outra de tal modo que nos faz perceber a grandeza e eloquência dos dois filmes.

Aqui em O Equilibrista, Marsh concentra suas entrevistas em Phillippe, Jean-Louis, Annie, Jean-François, Barry Greenhouse, David e Alan Welner – referido sempre como Albert.

Tirando Philippe, é extremamente interessante ver como esses indivíduos, já na meia idade, lidam com a experiência da travessia. O ponto comum e mais interessante é que simplesmente nenhum deles mantém contato com Philippe e tão pouco Philippe se vê incomodado nessa situação.

Marsh conduz as entrevistas com a finalidade de sempre expor as características do plano, das dificuldades que eles passaram, as memórias da ocasião e o desfecho de cada um. O tom da maioria dos entrevistados é um misto de interessante melancolia – excetuando Petit. Porém, quando desandam a falar sobre Philippe dançando entre as duas torres, a fala muda, a emoção toma conta e nos atinge de forma brilhante. Um evento que marcou suas vidas de tal forma que eles discursam sobre ele como se tivesse acontecido ontem. É fantástico observar isso e como cada um trata essa memória. Alguns, com muita saudade, outros, com um misto de rancor, mas ainda assim, todos admitem que o feito foi deslumbrante.

O diretor James Marsh trabalha a história com vigor. Primeiro por dar um tratamento digno dos melhores filmes de assalto através da encenação e da montagem. O documentário não tem uma roupagem característica do gênero. As entrevistas constantemente viram narrações over já que ele insere a todo momento material de arquivo e encenações muito bem dirigidas. É um embrião do formato que seria utilizado em sua totalidade em Senna – este feito na totalidade com imagens de arquivo.

Marsh se preocupa antes de estabelecer o plano e o feito, em apresentar um breve resumo da vida de Philippe Petit, seus primeiros passos como equilibrista, as novas amizades que surgiram e suas primeiras manifestações artísticas com a corda bamba – entre elas a travessia das torres da Catedral de Notre-Dame e da ponte Sidney Harbour.

Nisso, já começamos a descobrir algumas diferenças brutais entre um filme de ficção inspirado nessa história e no documentário. Comparar a narrativa dos dois e os acontecimentos escolhidos para serem exibidos é um ótimo exercício de estudo de gênero e tratamento de roteiro.

Passado isto, o diretor trabalha toda a construção da narrativa concentrando-se no episódio do WTC. Nesta sequência, o filme perde fôlego em um dos segmentos que trabalha o treinamento de Petit para encarar o vento ou outras adversidades.

Entretanto, o verdadeiro revés do longa está na aparente timidez de James Marsh com seus entrevistados. As perguntas são básicas e com uma história tão espetacular como essa é fácil conseguir respostas ótimas com o mínimo esforço. Em certo momento, um dos entrevistados desanda a chorar lamentando o fim da amizade com Petit, porém ele não revela o motivo dessa ruptura. Só que era necessário apenas forçar um pouquinho, fazer a pergunta certa, que ele falaria – algo que Werner Herzog sabe fazer muito bem.

Fica a impressão que o realizador não queria tirar a pose de bom mocismo de Philippe Petit de modo explícito, porém fica claro nas entrelinhas que o artista não é lá muito generoso e grato com seus cúmplices – repare como ele cita poucas vezes seus companheiros. Um egocêntrico de primeira linha.

Com essa pouca invasão, o diretor também consegue elaborar um debate maior em torno do assunto de seu filme, mas claro que tudo isso fica somente na suposição já que não há a resposta decisiva – uma faca de dois gumes. Por que Petit pouco se importou com seus amigos depois da realização do ato? Por que ele não reconhece o mérito dos outros? Por que ele não comenta do fim da amizade com eles? É um homem apaixonado por si mesmo e pelo seu golpe até hoje, sem dúvida alguma.

Também me incomoda o fato de que o longa foi realizado em 2008 e não há sequer uma menção do atentado terrorista de 2001. É algo simplesmente bizarro já que Petit fez de sua figura uma lenda graças às torres WTC assim como elas já tiveram logo em seus primeiros anos de existência uma das manifestações artísticas mais importantes do mundo. Como disse, me pareceu muito que o longa tenta não forçar a barra com Petit ao fugir de questões polêmicas boa parte do tempo. Certamente, uma pena.

Lendo algumas entrevistas de veículos de outras mídias, nas quais o entrevistador coloca o homem na parede, percebe-se na hora o tom irritadiço e as respostas ariscas de Petit – inclusive nas que tangem o atentado. Ele sempre se limita a responder que foi uma tragédia e que muitas vidas humanas foram perdidas. A resposta é tão seca que ele até diz que isso fica guardado apenas para ele.

Mesmo assim, Marsh realiza um dos documentários mais belos da história do cinema. Marsh é apaixonado por Petit assim como Petit ama a si mesmo. É tão notório que até o tratamento de câmera é diferenciado para o equilibrista. A câmera de todos os outros entrevistados é fixa, enquanto a de Petit é livre, leve e solta acompanhando todos os trejeitos do artista que posa, faz graça e atua para a câmera. Petit é um showman nato.

Além de Marsh, de nada seria esse documentário mesmo com um tema forte, montagem excelente, pesquisa soberba e encenações brilhantes, se não fosse pela trilha musical estonteante de Michael Nyman. Por si só, a música já é um personagem. Tão bela quanto a de Alan Silvestri para A Travessia, Nyman consegue nos emocionar durante toda a jornada, com destaque para o célebre momento da performance do artista.

É algo sublime que merece uma análise por si só. Está entre uma das trilhas musicais que carrego no meu celular – e olha que sou uma figura extremamente chata para música. Nyman trabalha com composições da escola clássica com um quê da moderna a partir do trabalho com pianos, violinos, violoncelos, trombones, saxofones. São músicas feitas para emocionar. Todas crescem e se resolvem em um clímax belíssimo. Simplesmente, assustador.

A trilha pode ser facilmente acessada no Spotify. Não deixe de escutar esse belíssimo trabalho. A estrutura musical é digna de estudo.

Ao contrário de sua obra irmã, A Travessia, O Equilibrista não conseguiu fazer eu me debulhar em lágrimas. Talvez tenha sido por culpa de eu ter visto ao filme de Zemeckis antes. Mas são obras com estilos distintos, méritos próprios e com vantagens e desvantagens quando comparadas. Mas certamente o que não falta nesses dois filmes é vida, poesia, grandeza e eloquência.

Arte que transforma. É exatamente disso que está impregnado nas essências dessas duas magníficas obras. São filmes que não devem nada ao seu objeto de estudo. São tão maravilhosas quanto ao artista francês. Insanas, fortes e que nos elevam a outro estado de espírito. Eu lhe peço, não deixe de conferir a esses dois filmes.

São experiências mágicas que nos lembram o porquê de amarmos tanto essa arte fabulosa, sem colocar em risco nossas vidas em meio a cordas bambas.

O Equilibrista (Man on Wire, EUA, Reino Unido, 2008)
Direção: James Marsh
Roteiro: Philippe Petit por seu livro To Reach The Clouds
Entrevistados: Philippe Petit, Jean François Heckel, Jean-Louis Blondeau, Annie Lix, David Forman, Alan Welner, Mark Lewis, Barry Greenhouse, Jim Moore e Guy Tozzoli
Duração: 94 minutos

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.