Crítica | O Escafandro e a Borboleta

estrelas 5,0

“Eu decidi parar de sentir pena de mim mesmo. Além do meu olho, duas coisas não encontravam-se paralisadas: minha imaginação e minha memória.”

De antemão, peço que utilize a sua imaginação para ter uma leve aproximação da experiência cinematográfica que será assistir a O Escafandro e a Borboleta. Imagine um homem incapaz de falar, incapaz de se locomover, incapaz de mexer as mãos, mexer os dedos. Suas únicas armas de comunicação são as pálpebras do seu olho esquerdo. Ele ainda ri, mesmo que seu rosto não mais demonstre um sorriso. Ele ainda se enfurece, mesmo que os gritos não mais ecoem para fora de sua própria mente. Ele ainda permanece sendo ele mesmo, mesmo que ao olhar de outros, e de si próprio, aquele Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric), estático e debilitado, seja apenas um retrato muito distante do seu eu “verdadeiro”.

Esta é a história real do editor da revista francesa Elle que após sofrer de um derrame vê a sua vida tornar-se um horror, tendo que reaprender a se comunicar – e principalmente, tendo que reaprender a viver. Por meio de suas fantasias privadas e a dedicação de pessoas próximas, o homem aos poucos tornava aquele escafandro, submerso nas profundezas de um mar de questionamentos solitários e sofríveis, em uma borboleta prestes a voar pelos céus. Tendo isso em vista, a relação entre os dois “personagens” que dão nome à obra é muito bem explorada em situações lindíssimas e visualmente impressionantes. O escafandro simboliza o aprisionamento do corpo de Bauby, a “síndrome de encarceramento” citada diversas vezes no filme. Paralelamente, é durante o seu aprisionamento que Bauby encontra-se com a liberdade do seu eu interior, simbolizada pela borboleta. Por meio da arte, um homem se liberta.

Durante o longa, as narrações feitas pelo personagem são progredidas melodiosamente, indo da negação da situação, o que resulta em dor, tristeza e autopiedade, à aceitação da mesma, o que permite que ele deixe-se levar pela serenidade das situações mundanas. Seus devaneios, agora livres das aquisições materiais e pensamentos hedonistas, o permitem “escrever” sua obra máxima, o livro que dá nome ao filme. A progressão da história também pode ser percebida pela direção pesada, mas não menos sensível de Julian Schnabel. Dada a imensa responsabilidade de adaptar uma história tão singular, o diretor opta por permitir ao público adentrar no consciente do homem, utilizando planos subjetivos para isso. A revelação da identidade física de Bauby é orquestrada calmamente, da intimidade omitida à realidade distorcida de espelhos embaçados. Uma calma necessária para que estejamos preparados emocionalmente quando visualizarmos a grosseira e infeliz existência factual do homem. É nessa orquestração que temos, na percepção da condição que o protagonista se encontra, logo no início da projeção, em tentativas falhas de comunicação, um dos momentos mais aterrorizantes do cinema.

Conciliando o trabalho de Schnabel, o fotógrafo Janusz Kaminski aprofunda a direção ao utilizar de artifícios estéticos para reproduzir a visão de Jean, desde as lágrimas que impedem a clareza da visão esquerda até a desconfortante costura das pálpebras direitas do paciente. Os espetáculos mentais de Bauby também são transmitidos fantasticamente; frutos do trabalho impecável de fotografia. Aliás, o filme abre com a canção La Mer, original do francês Charles Trenet, que já apareceu em diversas obras cinematográficas, muitas destas em sua versão em inglês, Beyond the Sea. Além da música ser de uma beleza inestimável, o filme traz sequências grandiosas e significativas, que retomam a letra da canção, não deixando-a ser apenas um ornamento estético majestoso, como muitas outras obras a permitiram ordinariamente ser.

Outrossim, o roteiro, de autoria de Ronald Harwood, também contribui para com a visão que o diretor quis transpor. Mesmo que alguns pensamentos e ideias caracterizantes do personagem principal sejam sugeridas, é por meio de flashbacks que somos ultimamente apresentados à personalidade arrogante e sexista do homem. Com a já citada câmera subjetiva, o público compartilha do sofrimento e impotência do editor, igualando-se como ser humano e portanto, apegando-se ao personagem, independente das atitudes cometidas e de sua mentalidade problematizada, a qual ainda o permearia durante boa parte do enredo. É respeitável que o filme não se comprometa nem em santificar Jean-Dominique, nem em condená-lo. O longa compromete-se na realidade em apresentar o retrato de um homem; um artista, passível de erro, dor e até mesmo redenção.

Não sendo o bastante, Harwood ainda faz um serviço brilhante em entregar no texto alguns personagens coadjuvantes de peso. É papel de Henriette Durand, interpretada pela talentosíssima Marie-Josée Croze, intermediar a nova experiência de Bauby com a comunicação humana. Henriette é fonoaudióloga, e junto com uma tabela composta por várias letras tem a difícil e ingrata tarefa de reestruturar a capacidade de interação de Jean-Dominique com o mundo afora. A primeira frase formada pelo homem, com o auxílio de uma tabela alfabética, é conduzida em agonia, e quando o espectador acaba por deduzir o resto da sentença, a personagem de Marie-Josée também o deduz, chegando a desabar emocionalmente. De início, a direção vai permitindo que cada letra pronunciada seja pesada, até que não seja necessária mais a repetição. Isto não permite as cenas, mesmo facilmente passíveis de cansaço pela sua natureza estática, tornarem-se enfadonhas.

Ademais, Céline Desmoulins (Emmanuelle Seigner) tem um conflito interessante envolvendo a personalidade “mulherenga” de Bauby. O roteiro permite que o arco entre eles seja bem desenvolvido, levando-o a uma conclusão revoltante, porém realista. Colaborando com o desenvolvimento da relação de Bauby e Céline, também encontra-se o pai do editor, interpretado pelo veterano Max von Sydow, o qual fornece, junto com seu filho, dois dos diálogos mais honestos do filme. O primeiro, bastante cru, é condizente com as desavenças do passado do editor. Já o segundo é tão dramaticamente profundo quanto narrativamente intenso, o que rende à obra sua cena mais destrutiva e emocionante.

Para finalizar, o protagonista do filme, Mathieu Amalric, tem o árduo trabalho de conduzir a performance corporal de um homem que sofreu um derrame. Visto que o filme é um sucesso na transposição da realidade de Jean-Dominique, a interpretação paralelamente também é um sucesso. Com os flashbacks e os pensamentos do editor, o homem, que não é onipresente, consegue, na sua imaginação, se colocar em todos os lugares imagináveis – e inimagináveis. Tal arquitetação situacional felizmente denota extrema naturalidade, ao passo que os pensamentos nunca se tornam imaginativos demais. Em uma atribuição mais poética, acabam por tornarem-se tão verdadeiros quanto a própria verdade em si.

Digno de todos os prêmios recebidos e não recebidos, O Escafandro e a Borboleta é uma extraordinária alegoria sobre liberdade, paz e redenção, baseada na vida real de um homem que soube em seus momentos mais difíceis viver como muitos nunca viverão. Com interpretações incríveis, um roteiro monumental e uma direção brilhante, o resultado não poderia ser menos que tão excepcional quanto a obra original, a qual fora composta por 200.000 piscadas, 139 páginas e um mar de histórias lindíssimas, muitas delas vividas sobre uma cadeira de rodas.

O Escafandro e a Borboleta (Le scaphandre et le papillon) — França/ EUA, 2007
Direção: Julian Schnabel
Roteiro: Ronald Harwood
Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Anne Consigny, Patrick Chesnais, Max von Sydow
Duração: 112 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.