Crítica | O Escaravelho do Diabo (2016)

o escaravelho do diabo

estrelas 2,5

Existem produções audiovisuais que, mesmo deixando transparecer claramente um espírito criativo em sua concepção, inclusive em termos de roteiro, são abaladas, ou mesmo abafadas, por fatores infelizes e bem específicos. Na constante luta da balança para se manter equilibrada entre o cunho artístico e o industrial de uma obra, um destes fatores é, com frequência, o demasiado pender do instrumento para interesses comerciais.

Tal desequilíbrio é o que se sente em O Escaravelho do Diabo, aguardada adaptação para o cinema do famoso romance policial infanto-juvenil escrito por Lúcia Machado de Almeida e publicado originalmente em capítulos na antiga revista O Cruzeiro, em 1956. Posteriormente, o livro foi incluído na Coleção Vagalume, em 1972, sendo, a partir de então, reeditado diversas vezes, contemplando gerações.

O longa, por sua vez, tem sua premissa e boa parte do seu desenvolvimento baseados na obra original: na cidadezinha de Vale das Flores (diferente do livro, no qual a cidade se chama Vista Alegre), o adolescente Hugo Maltese (Cirillo Luna) é encontrado morto pelo irmão Alberto (Thiago Rossetti), com uma espada cravada no peito. Não demora para que outros assassinatos misteriosos sigam-se a esse na pequena cidade e Alberto acaba descobrindo que não só todas as vítimas são ruivas legítimas, mas que pouco antes de morrerem receberam uma caixa, por encomenda, contendo um escaravelho. Alberto, então, propõe-se a unir forças com o delegado Pimentel (Marcos Caruso) para capturar o assassino de seu irmão.

O detalhe que mais prejudica a adaptação é que, diferente do livro, no qual Alberto tem quase a mesma idade do irmão e é estudante de medicina, no longa o protagonista é um pré-adolescente, nos seus doze anos. A pergunta é: por que um adolescente que não deixou de atrair crianças no livro, tanto quanto jovens e adultos, deixaria de fazê-lo também no filme? Ora, uma coisa é a idade do personagem, outra é a linguagem, o formato narrativo e a classificação do público para tal formato. O roteiro do longa, porém, parece confundir essa diferença entre as idades de personagens e de público e não atende tão bem quanto poderia nem aos mais jovens, nem aos mais velhos. Inicialmente, a figura de Alberto desenha-se convincentemente: um menino dado como hiperativo, falador e meio só, meio sabichão, mas ainda como uma típica criança em sua fase transitória. Com a morte do irmão, mostra-se por demais chocado e desorientado à frente do delegado Pimentel, talvez o melhor momento do filme em termos de tensão — vivas à ótima performance de Rossetti, que parece por demais à vontade em cena.

Os problemas começam, contudo, quando Alberto se revela, de um momento para o outro, dono de um instinto investigativo que, não direi não ser compatível com a idade dele, mas que o roteiro não busca construir situações anteriores que nos convençam de que o garoto seria, de fato, capaz de possuí-lo. Um garoto que de repente torna-se dotado a ponto de invadir a casa de uma vítima sem que nenhum policial perceba, que por acaso encontra lá um escaravelho igual ao que seu irmão recebeu e que pensa, também sozinho, em buscar pelo nome científico do besouro, em vez de simplesmente mostrá-lo ao delegado e dizer que Hugo recebera um idêntico… e por aí vai. A cena mais icônica, contudo, é aquela na qual o delegado não parece se importar em levar o menino até uma igreja incendiada e permitir que ele se meta no meio da destruição. Ou seja, muda-se a idade mas não concilia-se o roteiro às implicações de tal mudança, ao mesmo tempo que certas cenas acabam parecendo pesadas demais, apesar da preocupação da equipe criativa em atrair crianças para o cinema.

Não que o roteiro, mesmo com este e outros equívocos como desperdiçar, em parte, o mistério acerca da identidade do assassino ao fazê-lo ficar monologando em off, se esforça e até tem uma ou outra boa sacada, principalmente a de conferir um problema de saúde ao delegado, também ótimo na pele de Caruso, que contrasta perfeitamente com sua profissão e ajuda a torná-lo um personagem marcante, sobretudo mais humano; ao contrário do livro, onde encontramos figuras tão carentes de emoção palpável. Também a relação de Alberto com o irmão é explorada com mais dedicação do que no livro, mas tal preocupação logo se perde de vista mediante aos crimes seguintes.

Fora isso, a adaptação segue a trilha de crimes e sua conclusão satisfatoriamente em relação ao livro, adequando um ponto ou outro à época presente, com uma trilha original discreta e também satisfatória, embora suas letras soem demasiadamente surreais ou darks para o formato escolhido. Se mais preocupada em definir seu formato narrativo do que apenas em como atrair o público pretendido, a produção poderia se firmar como um suspense até mais digno do que o livro para crianças e adultos. Ao contrário do livro, contudo, o filme logo será esquecido.

O Escaravelho Do Diabo (Brasil, 2016)
Direção: Carlo Milani
Roteiro: Melanie Dimantas, Ronaldo Santos (baseado em obra de Lúcia Machado de Almeida)
Elenco: Thiago Rosseti, Bruna Cavalieri, Marcos Caruso, Jonas Bloch, Lourenço Mutarelli, Celso Frateschi, Selma Egrei, Augusto Madeira, Isaac Bardavid, Ana Cecília Costa
Duração: 90 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.