Crítica | O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida

estrelas 4

O Escaravelho do Diabo tornou-se filme em 2016, mas não podemos apontar a transposição de suporte narrativo como responsável pelo interesse acerca do livro no contexto atual. Clássico da literatura juvenil, a história do assassino de pessoas ruivas atravessou diversas gerações. Inicialmente publicado em capítulos na revista O Cruzeiro, entre 10 de outubro e 26 de dezembro de 1953, a obra alcançou maior sucesso em 1972, quando publicado no formato de livro impresso.

Denominado literatura juvenil, a obra faz parte de um circuito pouco valorizado dentro do espaço acadêmico, mas de grande projeção no âmbito educacional, haja vista o número de adultos que na adolescência, leram a empolgante história do menino-investigador Alberto. Seja para elaboração de seminário, pesquisa ou responder a uma prova de literatura, e em alguns casos, por puro diletantismo, O Escaravelho do Diabo pode até não ter sido lido por determinadas pessoas que tiveram atividade intelectual entre 1960 e 2016, mas com certeza já foi ecoado em conversas ou visto na prateleira de alguma biblioteca, livraria ou estante de um adolescente leitor.

O enredo é desenvolvido e Vista Alegre, cidade do interior de São Paulo. A tranquilidade dominava o local até que o protagonista Alberto descobre que o seu irmão Hugo foi assassinado. A cena do crime não é nada prosaica: uma espada estava cravada no peito do personagem. Mais adiante, o jovem vai descobrir que a vítima recebera um escaravelho dentro de uma misteriosa caixa.

A vítima havia recebido a caixa e sequer maldou qualquer intenção psicótica por parte do remetente. Alberto, diante do crime que devastou a sua família, decide sair em investigação. Quem teria cravado uma espada no peito do seu irmão? Ao adotar uma postura investigativa, o jovem circula por antiquários, revistas e objetos empoeirados e cheios de simbologia, tendo em mira a resolução do mistério que gravita em torno da narrativa.

Como coadjuvantes para suporte do processo de investigação, Alberto conta com o Inspetor Pimentel, um homem e do subinspetor Silva. Logo, descobrem que todas as vítimas do assassino são pessoas sardentas e ruivas legítimas. Os três lutam para encontrar vestígios, mas a investigação precisa ser encerrada pela falta de provas contundentes.

Durante o desenvolvimento da investigação, Alberto, estudante de Medicina, apaixona-se por Verônica, uma distração na resolução do caso, mas a pessoa que se tornará a sua esposa e mãe de seu filho, o pequeno Hugo. Para os que achavam que os crimes ficariam sem resolução, engana-se: será durante uma viagem à Alemanha, algum tempo depois, que o jovem solucionará os mistérios envolvendo a morte do seu irmão e o assassinato de outras pessoas, tais como o Sr. Graz (morto carbonizado ao lado de um padre dentro de uma paróquia durante um incêndio), Maria Fernanda (morta com uma seta envenenada durante uma apresentação musical no coro), Clarence O´Shea (morto envenenado por uma capsula de cianureto envolta aos seus remédios), etc.

Selecionado para o Programa Nacional de Bibliotecas na Escola, em 1999, o suspense escrito pela jornalista mineira Lúcia Almeida Machado ganhou 27 republicações, sendo referência paradidática em algumas instituições educacionais atuais. Parte integrante da Série Vaga-Lume, um segmento que iniciou as suas atividades editoriais na década de 1970 e chegou até os dias atuais, O Escaravelho do Diabo aborda os bons arquétipos das narrativas de aventura, suspense e terror, sendo assim, agrada a um amplo gradiente de pessoas.

O herói Alberto é parte do esquema literário presente em todas as obras da escritora: um painel de pessoas virtuosas, marcadas pelos traços de bondade, inteligência e obediência. Similar ao processo de metalinguagem que escritores como José de Alencar fez em Diva, ao citar Senhora, para demonstrar concatenação de ideias, o Inspetor Pimentel ressurge em Spharion, romance publicado posteriormente. Na obra até comenta-se que o inspetor é muito competente, principalmente por “ter desvendado o mistério em torno do escaravelho”. À priori, a pergunta fica para o leitor: mas não foi o Alberto o responsável por desvendar o crime?

Falha básica da escritora, entretanto, os livros são bem empolgantes e o público com certeza perdoou. Para os que não leram ainda, perdoarão sim, não há dúvida algum, afinal, estamos diante de um livro juvenil que teve a proeza de não envelhecer, ao contrário, mantém total consonância com as preferências narrativas da sociedade contemporânea.

O Escaravelho do Diabo (Brasil, 1972)
Autor: Lúcia Machado de Almeida.
Editora: Editora Ática – Série Vaga-Lume
Páginas: 128.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.