Crítica | O Escorpião de Jade

estrelas 3,5

As screwball comedies eram produções que fizeram bastante fama nos anos 1930 e 1940, tendo como foco um roteiro afinado, com diálogos que promovem um embate verborrágico entre os personagens que dinamizam as sequencias narrativas. Este subgênero da comédia que encontra paralelo com dramaturgos clássicos, tais como William Shakespeare e Oscar Wilde, aposta em desvencilhar do convencional e originar situações inesperadas.

Muitos cineastas tomaram de empréstimo alguns de seus elementos, como por exemplo, Alfred Hitchcock em Os 39 Degraus, um suspense com doses generosas de humor. Alguns especialistas consideram que as screwball comedies tenham alcançado apogeu e queda entre as décadas citadas anteriormente, entretanto, são retomadas com frequência por cineastas contemporâneos. Woody Allen é um desses: em O Escorpião de Jade, as falas rápidas com réplicas e o descompasso entre um homem oprimido pelos ditames de uma mulher com o poder em mãos fazem da trama uma comédia ao estilo da época referenciada, com algumas pitadas de cinema noir para embalar o caldo metalinguístico.

 O resultado não é dos melhores, mas é aceitável. No filme, C. W. Briggs (Woody Allen) é um investigador de seguros da década de 1940. Orgulhoso da sua fama e prestígio, assim como a maioria dos personagens interpretados pelo cineasta, ele se gaba de ter a capacidade de capturar qualquer trapaceiro usando as possibilidades de sua intelectualidade.

Eis que uma missão repentina surge, colocando as suas certezas profissionais em xeque. O profissional precisa capturar um ladrão que usa a hipnose através do medalhão do escorpião de jade, o que leva as suas vítimas a cometer os roubos sob o estado hipnótico. Por lidar com um criminoso que desta vez age através de recursos mais densos, C. W. Briggs não está mais certo se é o profissional nº 01 que acreditava ser.

Para piorar a situação, a sua nova chefe, Betty Ann Fitzgerald (Helen Hunt) torna-se a representação do conceito de Sartre de que “o inferno é o outro”. Enquanto Briggs possui o seu modus operandi à moda antiga, como no imaginário cristalizado dos filmes de detetives de época, Fitzgerald tenta atualizar tudo, dando novos formatos ao ambiente de trabalho. Apesar da crítica, no geral, apontar a sensual personagem de Charlize Theron como a mulher fatal, típica do cinema noir, numa espécie de homenagem ao perfil hipnótico e sexy de Veronica Lake, é em Fitzgerald que boa parte das características deste estilo estão presentes: ela representa a mulher no poder, uma condição da sociedade pós-guerra, período em que a baixa do número de homens nos índices demográficos fizeram com que a mulher tivesse que ocupar novos espaços, o que surge como uma ameaça muito bem explanada pelo cinema em diversas vanguardas e momentos.

Woody Allen retoma temas de produções predecessoras: ceticismo dos personagens, traições, existencialismo e dificuldades nas relações cotidianas, num painel de tipos humanos que parecem ter muita dificuldade em comunicar-se. Ao longo dos seus 102 minutos, estes temas são apresentados através do ótimo trabalho de direção de arte, assinado por Zhao Fei, bem como a direção de arte de Tom Warner, o figurino de Suzanne McCabe e a parceria constante de Santo Loquasto no design de produção.

Se a sua parte visual é um vislumbre audiovisual, não podemos dizer a mesma coisa do roteiro, talvez o único “porém” do filme. Repetitivo, sem o mesmo gás de outras produções, o filme sofre de um dos males pouco acometidos por Woody Allen: a repetição tão próxima de temas. Roubo de joias: não foi esse o tema de Trapaceiros, produção bem próxima de O Escorpião de Jade. Seria uma crise criativa? 15 anos depois, numa análise mais panorâmica com base nas investidas temáticas do cineasta, pode-se afirmar que sim.

Apesar da dinâmica não ser tão letárgica, o roteiro expõe problemas nos diálogos. A culpa nem é da montagem de Alisa Lepselter, efetiva, mas do texto fílmico. Por fazer parte de um sistema de “poder de troca”, vamos ao cinema assistir a um filme de Woody Allen à espera dos elementos de sempre, temperados de acordo com o clima do filme. Independente da época, os diálogos são o seu ponto forte, mas que infelizmente, nesta comédia, não alcança a genialidade da maioria dos filmes anteriores.

No período de lançamento havia muita discussão sobre o filme ser fraco, mas melhor que qualquer coisa lançada no terreno das comédias hollywoodianas vazias etc. Neste comportamento do campo da crítica está uma representação de erudição vazia. A velha história de que não importa que seja ruim: “é Woody Allen, está valendo, afinal de contas, sou um intelectual e blá blá blá”.

Pouco profissional e contraditório, mas foi essa a postura de boa parte dos textos que registraram a recepção da obra. Depois de O Escorpião de Jade, o cineasta investiu na divertida comédia de bastidores Dirigindo no Escuro, uma produção metalinguística adornada por críticas ácidas ao sistema de produção da “Meca” do cinema estadunidense: Hollywood.

O Escorpião de Jade (The Curse of the Jade Scorpion) – EUA, 2001.
Direção:  Woody Allen.
Roteiro: Woody Allen.
Elenco: Woody Allen, Helen Hunt, Charlize Theron, Brian Markinson, Dan Aykroyd, Elizabeth Berkley, John Shuck, Peter Gerety, John Tormey, Bob Dorian, Chuck Wilson.
Duração: 102 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.