Crítica | O Espaço Entre Nós

estrelas 1,5

Os últimos anos têm sido repletos de filmes virados para o público adolescente cujos roteiros seguem a mesma receita de bolo: um ou dois jovens com problemas de saúde se encontram, se apaixonam e, no fim, um deles acaba morrendo ou é forçado a se distanciar de seu grande amor. A premissa, que não por acaso lembra Romeu e Julieta, foi mais que amplamente utilizada por autores como Nicholas Sparks e John Green, tendo A Culpa é das Estrelas como bom exemplo dessa mesmice que assola o romance adolescente na atualidade. O Espaço Entre Nós é mais uma dessas obras, utilizando sua premissa de ficção científica apenas para nos levar pelo mesmo caminho já percorrido dezenas de vezes.

A trama tem início com um grupo de astronautas saindo da Terra com o intuito de povoar Marte, um projeto denominado Genesis, idealizado por Nathaniel Shepherd (Gary Oldman). No meio do caminho, contudo, eles descobrem que uma das astronautas está grávida e, sem muitas opções, decidem continuar a missão. Ao chegar no planeta vermelho, ela dá a luz e, no processo, acaba morrendo. Anos se passam e o jovem Gardner Elliot (Asa Butterfield), o primeiro humano a nascer em Marte, sonha em visitar a Terra, desejo que somente aumenta com seus constantes diálogos por computador com Tulsa (Britt Robertson), uma garota que sequer sabe de onde o garoto é, já que sua própria existência fora mantida em segredo. Honrando o que o protagonista quer, eles decidem levá-lo de volta ao planeta, sem saber se seu coração aguentará a gravidade aumentada. Ao chegar lá, naturalmente, ele foge para ir de encontro a sua pen-pal.

A premissa de O Espaço Entre Nós certamente oferecia inúmeras possibilidades para lidar com as limitações do corpo de seu protagonista. Os impactos da gravidade poderiam ser abordados a fundo, além de seu fascínio sobre as coisas diferentes que não existem em Marte. O roteiro de Allan Loeb, contudo, prefere deixar tais questões em segundo plano, trazendo apenas breves momentos nos quais são abordadas. Ao invés disso, ele opta por focar na relação entre Gardner e Tulsa, transformando a ficção científica em algo familiar, batido e completamente previsível. O senso de novidade existente nos minutos iniciais da obra dá espaço para algo que já cansamos de ver em dezenas de outras produções.

Chega a ser irônico como uma das questões centrais do filme só é abordada em seu trecho final. O fato de Gardner não conseguir aguentar a vida na Terra é trazido à tona diversas vezes em diálogos, mas, na prática, somente aparece por breves instantes e ainda é resolvido em questão de minutos, não dando tempo para a construção da tensão no espectador. Similarmente, a grande procura do protagonista por seu pai, que se inicia pouco após ele chegar em nosso planeta, é resolvida de forma brusca, como se o personagem repentinamente tivesse perdido a vontade de conhecer sua figura paterna. Além disso, é bastante óbvio, desde o começo, quem é seu pai.

Tudo isso ainda é atrapalhado por momentos extremamente piegas e frases que parecem ter sido tiradas de um caderno de uma pessoa apaixonada em seus quinze anos, fazendo qualquer espectador acima de seus dezoito anos revirar os olhos. Claro que estamos falando de um longa-metragem de nicho, mas mesmo os mais românticos poderão enxergar a natureza irreal desse amor perfeito que é pintado nos cento e vinte minutos de projeção. Para piorar, o comportamento inicial de Tulsa, mais natural considerando as circunstâncias, dá lugar a algo verdadeiramente assustador, já que a personagem simplesmente sai em uma road trip com alguém que acabara de conhecer e que claramente não é alguém normal. Além disso, não se passa nem uma semana e ambos declaram o amor um pelo outro, algo que vai de encontro totalmente com a personalidade da garota, que é mais reservada.

Nem mesmo Gary Oldman consegue salvar a obra, nos entregando um de seus piores trabalhos em anos. Em momento algum sabemos dizer se ele realmente se importa com o garoto nascido em Marte ou se ele está apenas preocupado com a publicidade em relação à seu projeto Genesis. Isso se torna mais evidente em uma cena específica quando ele acredita que Gardner e Tulsa morreram em um acidente e tudo o que ele diz é um “ah, não” totalmente sem emoção, algo que gera uma discrepância gigantesca com os minutos finais do longa-metragem.

No fim, apesar de contar com uma boa premissa, O Espaço Entre Nós se resume a mais do mesmo. Mais um romance adolescente repleto de situações piegas ao extremo, feito para agradar somente adolescentes que ainda não descobriram o melhor do cinema. Com um roteiro repleto de inverossimilhanças, por mais que tente ser científico em determinados momentos, e repleto de exageros, não há muito como levar o filme a sério, funcionando apenas como uma típica sessão da tarde e daquelas que nos fazem trocar de canal após alguns minutos.

O Espaço Entre Nós (The Space Between Us) — EUA, 2017
Direção:
 Peter Chelsom
Roteiro: Allan Loeb
Elenco: Asa Butterfield, Britt Robertson, Gary Oldman, Carla Gugino, Scott Takeda,  Janet Montgomery, Adande ‘Swoozie’ Thorne
Duração: 120 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.