Crítica | O Espelho (2014)

estrelas 3

Em minha crítica de A Marca do Medo falei sobre o potencial mal explorado dos filmes de terror, sobre a falta de enfoque em elementos que em muito elevariam a condição da obra de genérica para única, criativa. O Espelho cai no mesmo problema, embora nos tenha dado um vislumbre do possível caminho pelo qual poderia ter trilhado. Aqui, novamente, a aposta no elemento sobrenatural supera o foco em detalhes do roteiro.

Uma família, ansiando por um recomeço se muda para uma casa levemente afastada da civilização. O que poderia dar errado? Não é neste ponto, contudo, que o longa-metragem cai no clichê- este é apenas o passado dos dois protagonistas, trabalhado através de flashbacks. No presente acompanhamos Kaylie (Karen Gillan) e Tim Russel (Brenton Thwaites), dois irmãos sobreviventes de uma tragédia: a morte da mãe nas mãos do pai. A trama é iniciada com Tim saindo de uma instituição mental, sendo buscado pela irmã. Ao contrário do esperado, contudo, a mentalmente desequilibrada é Kaylie, com uma personalidade inquieta e perturbadoramente agitada. A menina acredita que a loucura do pai é proveniente de um espelho que a família possuía. Com isso em mente, ela convence o garoto a provar a paranormalidade do objeto, conseguindo absolver o pai de seus crimes.

Não é preciso dizer que ambos voltam para a casa de sua infância, onde somos apresentados ao intrincado sistema de segurança criado por Kaylie, que envolve dezenas de câmeras e mecanismos que destroem o espelho se desejarem (incluindo um surreal martelo gigante). A partir deste ponto somos levados a indagações por parte de Tim que indagam pela sanidade da irmã. Eles eram novos, não será o espelho apenas um bode expiatório para as ações do pai? Este trecho é o ponto alto do filme, colocando o espectador na dúvida e uma crescente tensão, ao ponto que não sabe qual opinião tomar. O deslize, porém, vem logo em seguida, já nos revelando qual é a resposta certa, destruindo praticamente todo o suspense do filme.

O restante da narrativa, portanto, tenta recuperar o estrago causado por tal revelação. Sem conseguir, porém, a obra traz situações que colocam os personagens em uma intensa confusão. Passamos a ver uma odisseia de ilusões e flashbacks que visam tirar o espectador do lugar comum, através de uma montagem bem executada, que sabe esconder seus cortes para misturar o passado e o presente. O resultado, porém, fica aquém da teoria e, após uma longa exposição do mesmo, acaba cansando a audiência que já pode prever cada passo a ser trilhado pelo roteiro.

Com tais defeitos em evidência, O Espelho, que optou pelo caminho do suspense ao invés do clássico terror, não consegue gerar medo, tensão ou sequer sustos no espectador. É mais um retrato do que poderia ter sido. Ainda assim não é uma obra de se jogar fora, trazendo uma convincente atuação de Karen Gillan e um interessante trabalho de montagem. Por outro lado, infelizmente, a talentosa Katee Sackhoff, no papel da mãe, não tem espaço para desenvolver seu personagem. O roteiro apresenta um declive na segunda metade da projeção, mas consegue sustentar sua audiência por toda a duração do longa. No fim temos uma obra genérica, mas que vale ser assistida.

O Espelho (Oculus, EUA – 2014)
Direção: Mike Flanagan
Roteiro: Mike Flanagan, Jeff Howard (baseado no roteiro de Mike Flanagan e Jeff Seidman)
Elenco: Karen Gillan, Brenton Thwaites, Katee Sackhoff, Rory Cochrane, Annalise Basso, Garrett Ryan, James Lafferty
Duração: 104 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.