Crítica | O Espetacular Homem-Aranha #300 (O Nascimento do Venom)

“Ele possui todos os meus poderes e mais músculos! Tudo que eu tenho é experiência!”

Contém spoilers!

O “nascimento” do Venom, sua grande entrada triunfal, acontece na edição #300, sendo que as duas revistas anteriores a esta são costuras cruciais de uma atmosfera crescente de perigo, culminando na épica e assustadora introdução por definitivo do personagem. A esta ideia dos quadrinistas, com o roteiro de David Michelinie, devemos enaltecê-los, porque realmente indagamos consequências quando, no epílogo da edição #298, “Chance Encounter”, uma ameaça misteriosa é revelada. A criação do vilão está conectada a uma das origens de super-vilões mais bem resolvidas dos quadrinhos, pertencendo, desde a sua concepção, à própria alma dessas histórias, compartilhando-se tanto ao antes quanto ao depois. Quando o Abutre ou o Electro foram apresentados, os visuais e super-poderes dos antagonistas vieram primeiro do que os seus passados, suas origens, apresentadas posteriormente, se sequer foram apresentadas. Um dos processos mais cuidadosos da Marvel Comics em décadas de histórias foi, distanciando-se desses demais outros casos, encaminhar, antes de sua gloriosa primeira aparição, diversas informações sobre o Venom, se aproveitando da existência de revistas paralelas a The Amazing Spider-Man. Uma ingenuidade de que todo o processo criativo já havia sido imaginado, quando, anos antes, o Homem-Aranha teve contato com o simbionte alienígena em Guerras Secretas, é compreensível, pois a sensação, diante da costura, é mesmo de um planejamento orgulhoso por simplesmente existir. O número 300, no final das contas, é uma marca impressionante para uma revista. 

A edição, acima de tudo, também é comemorativa ao aniversário de 25 anos do personagem-título. Um planejamento mínimo em preparação a esse evento, portanto, ocorreu. As amarras, como dito, têm suas origens nas Guerras Secretas, a primeira grande saga da editora. O simbionte alienígena, que lá debutou, é o motor da existência desse personagem, conseguindo se unir, em passagens que, na época, ainda não haviam sido reveladas – uma das únicas ocasiões em que precisaríamos ler uma revista de depois para entender o antes -, ao fracassado jornalista Eddie Brock. Um apanhado cronológico é necessário para reafirmarmos a extensa engenhosidade. A revolta do jornalista com o seu alvo, Peter Parker, é originária da sua própria decadência profissional, remetente ao arco de histórias A Morte de Jean DeWolff. O personagem, na ocasião, cometeria um equívoco ao se enganar sobre a identidade do criminoso daquela história. O uniforme preto, mas constituído de simbionte, por outro lado, havia sido deixado para trás, em The Amazing Spider-Man #258, passando a ser estudado pelo Quarteto Fantástico. Mais para frente, sumiria do Edifício Baxter e retornaria para as revistas do Homem-Aranha. Em Web of Spider-Man #1, o simbionte busca se unir novamente ao seu primeiro hospedeiro, mas, por fim, fracassa, sendo aparentemente morto. O rejeitado Homem-Aranha 3, de Sam Raimi, contou essa história. As duas identidades do Venom, dessa maneira, querem vingança.

A história apresentada, denominada simplesmente de “Venom”, começa com Mary Jane, esposa de Peter Paker na época, em estado de pavor imensurável, chorando em um dos cantos de sua casa, completamente encolhida e amedrontada. O impacto é claro. As caixas de texto descrevem seu sentimento de maneira inteligente. Venom não mais está ali, ao seu lado, como há pouco estivera. A dupla de histórias antecedentes ao “nascimento” do Venom – focando, primordialmente, em um combate contra o antagonista Chance – tinha deixado, em cada uma das respectivas revistas, pontuações mínimas sobre a existência do personagem, enquanto, na última, Venom enfim aparecia no último quadro, em sua primeira apresentação como este grande ser do mal. A sensibilidade, porém, pode ser compreendida sem conhecimento algum do epílogo anterior. O casal, ao mesmo tempo, também passa por mudanças em suas vidas. “Venom” consegue ser uma história coerente sobre despedidas, deixando o passado e se adequando ao futuro, mesmo que o futuro seja uma retomada do prévio. Com mais páginas do que o usual, por ser justamente uma edição especial, a narrativa nos lembra do passado e das motivações de Eddie Brock, sob os claros traços exagerados do ilustrador. Não muito tempo depois do caos inicial, estaremos diante de um combate de proporções épicas, entre o Homem-Aranha e um de seus grandes arqui-inimigos, a primeira de muitas, quando seus dentes ainda não eram tão afiados.

O conceito do Venom é ser, em bases consideravelmente superficiais, uma versão do mal do próprio Homem-Aranha. O uniforme preto era um símbolo negativo e que, agora, ganhava vida própria em uma criatura enormemente monstruosa. O Venom, em sua primeira aparição, é, desta maneira, uma das criações mais impressionantes de Todd McFarlane. O excesso de músculos é um auxílio para essa criação do horror nos quadrinhos ser fascinante aos olhos do leitor. Os embates, por outro lado, são extremamente poluídos. Ao passo que os dois personagens estão com vestimentas pretas, a distinção é complicada e a adequação das cores torna os quadros bastante cansativos. A ação, ao mesmo tempo, permanece frenética. Os duelos entre os dois personagens, no futuro, certamente seriam mais vistosos. Ao investigar o fascínio dos leitores do aracnídeo pelo Duende Verde, um dos grandes vilões do Homem-Aranha, na crítica de Como Era Verde Meu Duende, comentei sobre o antagonismo entre o super-herói em questão e o Venom, sugerindo-o, no texto, como uma rivalidade estética. O uniforme azul e vermelho contra o uniforme preto – símbolos de épocas distintas, polos do bem e do mal. O contraste é adiado para ocasiões futuras, após a primeira – mas não última – captura de Eddie Brok. A cópia do uniforme de simbionte, desenhado pela Gata Negra, afinal, é abandonada na mesma edição, à pedido de Mary Jane. O Homem-Aranha está de volta e o Venom estará presente para enfrentá-lo.

The Amazing Spider-Man #300 (EUA, 1988)
Roteiro: David Michelinie
Arte: Todd McFarlane
Arte-final: Todd McFarlane
Letras: Rick Parker
Cores:  Bob Sharen
Capas: Todd McFarlane
Data de publicação: maio de 1988
40 páginas 

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.