Crítica | O Espetacular Homem-Aranha #529 a 531: Caminho Para a Guerra Civil

estrelas 4,5

O Sr. Parker vai a Washington

Com a tag de Caminho Para a Guerra Civil, este arco da revista O Espetacular Homem-Aranha — denominado O Sr. Parker vai a Washington — estabelece uma parte importante dos bastidores de um evento que veríamos ganhar fôlego na saga Guerra Civil (2006 – 2007).

Casado com MJ e trabalhado diretamente com Tony Stark (depois dos ventos ocorridos nos arcos Novos Vingadores e O Outro — edições #519 a 528 de O Espetacular Homem-Aranha), Peter Parker se depara aqui com uma realidade que durante o seu tempo como herói teve a oportunidade de conhecer, mas apenas de longe, sem nunca fazer parte efetiva e de forma complexa de eventos de tal natureza, como acontece nessa história.

O roteirista J. Michael Straczynski cria um ambiente de expectativa com a modulação correta, sem forçar demais os acontecimentos, mostrando as primeiras implicações jurídicas ligadas ao infame Ato de Registro sugerido [nesse momento de discussões iniciais] pelo Senado americano aos heróis do país. Este ambiente é em sua totalidade marcado por uma aura de meias-palavras, intenções escusas, mentiras e manipulação, características ligadas, em algum grau, a Stark, que é chamado para depor em Washington D.C. e que leva o seu auxiliar Peter Parker para as audiências, daí o título original do arco, Mr. Parker Goes to Washington, que faz referência literal e conceitual a um famoso filme de Frank CapraMr. Smith Goes to Washington (1939).

Conhecendo as possibilidades do Aranha de Ferro Mark II.

Conhecendo as possibilidades do Aranha de Ferro Mark II.

 

O roteiro vai construindo aos poucos a relação entre Peter e o “chefe”, desde o estabelecimento de um poder que incomoda o leitor por sua força desigual e pela manipulação [nada?] sutil que Stark emprega sobre Parker. Claro que o Amigão da Vizinhança desconfia das gentilezas do chefe, que neste arco cria um novo uniforme para o teioso, o famoso Aranha de Ferro, cheio de possibilidades tecnológicas (inclusive os braços metálicos de aranha) e inserido no enredo com uma veia cômica, com Mark I e Mark II, uma característica de Stark em renovar constantemente o seu guarda-roupa de uniformes em um mínimo de tempo possível, sempre que possível. Mas mesmo as desconfianças de Parker não o preparavam para o que viria a seguir.

Straczynski não demora muito em deixar claro um paralelo narrativo, sendo o primeiro bloco dividido entre a relação de Tony e Peter, o teste para o novo uniforme e o pacto de sangue que é feito entre os dois, de apoio mútuo e segredos; e o segundo bloco, uma verdadeira aula de como discutir sérios e relativamente árduos problemas de legislação, livre-arbítrio, vigilância de cidadãos e ética aplicada ao heroísmo, algo que deixa até o leitor em dúvida sobre que caminho apoiar ou sobre qual dos lado possui mais os “pés no chão” em sua defesa, seja este leitor parte do #teamcap ou do #teamiron.

Como ainda não estamos em guerra, não existem enfrentamentos entre heróis ou contendas ideológicas entre eles. O arco foca exclusivamente em Tony e Peter e a ida deles para as audiências. O acontecimento suspeito que ocorre na reta final da aventura deixa os leitores apreensivos, mas em pouco tempo a verdade se revela e vemos uma das primeiras provas de que para certos indivíduos “os fins justificam os meios“. A discussão vinda daí é a mesma que guia os questionamentos sobre a administração de problemas de Estado e o Vigiar e Punir de cidadãos em uma REPÚBLICA, muito mais do que em uma DEMOCRACIA. E novamente, Straczynski dá um show de roteiro, trazendo Lincoln, Guerra Civil Americana e preceitos de patriotismo e nacionalismo à saga das audiências para completar a discussão.

homem aranha

Ron Garney e Tyler Kirkham, que desenham a história em edições diferentes, fazem um bom trabalho a maior parte do tempo — nada maravilhoso, mas um bom trabalho –, destacam-se de verdade apenas na aparição do Homem-Aranha em seu novo uniforme e sua movimentação pela cidade, ou cenas de luta. Na edição #531, onde vemos aparecer um certo ‘vilão de momento’, temos a melhor finalização deste arco (assinada por Sal Regla), com forte contraste, diagramação mais fluída e inteligente e ótimas cores de John Starr, edição onde novamente se destacam as cenas de luta e o Aranha de Ferro.

O Sr. Parker vai a Washington dá as primeiras cartas para a Guerra Civil, mostrando ações de bastidores, preocupações genuínas misturadas com manipulação e medo, muito medo do futuro. E se analisarmos o contexto, talvez entendamos o por quê deste arco, assim como a própria saga que se seguiria, marcar tanto os seus leitores. Talvez porque apresentem um sentimento de caráter político e social que nos toca, incomoda e amedronta de tempos em tempos, com a diferença [talvez…] de que em nossa realidade nem sempre há uma guerra logo na sequência. Ou sempre há?

O Espetacular Homem-Aranha #529 – 531: Caminho Para a Guerra Civil (Amazing Spider-Man Vol.1 #529 – 531: Mr. Parker Goes to Washington / Road to Civil War). — EUA, abril a junho de 2006
Roteiro: J. Michael Straczynski
Arte: Ron Garney (#529) Tyler Kirkham (#530 e 531)
Arte-final: Bill Reinhold (#529), Jay Leisten (#530), Sal Regla (#531)
Cores: Matt Milla (#529), John Starr (#530, 531)
Letras: Cory Petit
Capas: Bryan Hitch, Laura Martin, Ron Garney
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.