Crítica | O Espetacular Homem-Aranha: Global – Vol. 2 (2016)

estrelas 2,5

Depois de introduzir o novo status quo de Peter Parker, agora um industrial bilionário e do Homem-Aranha, altamente tecnológico, de armadura e cheio de gadgets, além de agente da S.H.I.E.L.D. e guarda-costas de Parker no volume 1 de Global, Dan Slott desenvolve essa premissa e amplia galeria de vilões antigos do Aranha no volume 2, sem perder a linha mestra da história, que é a ameaça estabelecida por Scorpio, líder do Zodíaco. Sem as amarras introdutórias, o roteirista investe no que sabe fazer melhor: o exagero.

Esse volume 2, que, assim como os seguintes (até agora), foi batizado com o mesmo nome do primeiro, na verdade reúne dois arcos. O primeiro lida com a volta do Senhor Negativo, desta vez controlando versões “invertidas” de Manto e Adaga, que tem como objetivo desmascarar as ações criminosas de um industrial filantropo chinês usando Peter Parker – imune ao seu poder por já ter sido controlado, como Aranha, por ele – como peão.

A narrativa faz algo que Slott parece estabelecer como a premissa para essa sua repaginada do Aranha: trazer conceitos e personagens clássicos conectados com o o Homem-Aranha de uma maneira levemente diferente. Manto e Adaga, como muitos leitores lembrarão, surgiram pela primeira vez na revista Peter Parker, o Espetacular Homem-Aranha #64, de março de 1982 e sua origem tem estreita conexão com o uso de drogas. Assim, Slott reinsere os heróis na vida do Aranha, desta vez como inimigos controlados justamente pelo efeito de drogas, que ajudam o Senhor Negativo a distribuir versões empacotadas de seu poder de criar versões “contrárias” das pessoas que ele toca.

Com isso, o autor brinca com a nostalgia dos leitores mais antigos em uma trama que, diria, é bastante simplista, mas que carrega seu peso dramático, ainda que as consequências psicológicas do controle do Senhor Negativo em relação a Manto e Adaga precisassem ser mais exploradas para realmente funcionar. Ocupando apenas três números do volume, a história é corrida demais e intercalada de elementos estranhos a ela, por serem importantes para o plano geral de Slott, que não há tempo para muito mais do que ação desenfreada e um dilúvio das famosas piadinhas do Aranha em ação que, confesso, me pareceram pouco inspiradas.

O Senhor Negativo e Manto e Adaga "invertidos".

O Senhor Negativo e Manto e Adaga “invertidos” (e sim, aquele ali no canto inferior direito é Peter Parker…).

O segundo mini-arco parece encerrar, pelo momento, a rivalidade entre o Aranha e o Zodíaco. Como mencionei em minha crítica anterior, Scorpio e o grupo baseado em signos nunca me pareceram muito mais do que ameaças bobalhonas e espalhafatosas e esse encerramento extremamente exagerado dado por Slott apenas confirmam minhas suspeitas. É muito fogo de artifício – com direito até a um “aracnofoguete”, a um passeio espacial e a uma reentrada na Terra para lá de imbecil, que não combina com o intelecto de Parker – para pouca evolução ou construção narrativa. A gigantesca ameaça representada por Scorpio e sua poderosa chave, além do artefato que roubou no Museu Britânico no primeiro arco, é muito mais afeita a uma história dos Vingadores do que ao Homem-Aranha, mesmo que estejamos falando de um Aranha bem diferente do que estamos acostumados.

No entanto, nem tudo se perde. Slott tem um plano de longo prazo aqui e isso já havia ficado claro no primeiro arco. Agora, ele amplia esse plano ao efetivamente trazer velhos inimigos do Aranha para o primeiro plano, começando por Rino em uma ameaçadora armadura preta. Além disso, há a iminente volta de um clássico vilão do Aranha que já não dá as caras há muito tempo, mas que está ao lado de Parker o tempo todo sem que ele saiba. Essas narrativas, que correm paralelas à principal, conseguem ser mais interessantes do que o todo, pois prometem algo que o Zodíaco não consegue entregar: um senso de ameça genuíno. Tudo bem que o novo Aranha tem sua vida facilitada pela tecnologia e por sua literal rede de gênios nas várias filiais da Parker Industries que têm que parar tudo o que estão fazendo para ajudá-lo, mas se Slott conseguir ser um pouco comedido e cortar as “asinhas” (ou seriam teinhas?) do herói, dificultando seu trabalho, pode ser que o futuro reserve coisa muito boa.

Por enquanto, o que temos é esse segundo arco que cai em qualidade por perder o fator “novidade” e usar tanto o Senhor Negativo quanto o Zodíaco de forma equivocada. Mas o lado bom é que a arte, encabeçada, no primeiro arco, por Matteo Buffagini e, no segundo, por Giuseppe Camuncoli (responsável pelo primeiro volume) continua muito boa, ainda que frenética. Buffagini, em particular, ignora quase que por completo o fato do Aranha agora usar uma armadura e o desenha de maneira mais clássica, com um gostoso traço nostálgico cuja única característica modernosa fica com o visor na cor verde, cortesia do colorista Marte Gracia cujo trabalho é a cola estilística entre Buffagini e Camuncoli. Por outro lado, o Parker de Buffagini é completamente seu, muito distante do “normal”, o que certamente causará estranheza. E, quando Camuncoli pega as edições do segundo mini-arco, a lógica é invertida, com um Parker mais familiar e um Aranha bem mais tecnológico visualmente. Ah, claro, as capas de Alex Ross continuam mais do que fenomenais.

O segundo volume de Global não é o que poderia ter sido, mas monta um tabuleiro muito  interessante para o futuro do aracnídeo. Tomara que Slott saiba aproveitá-lo!

O Espetacular Homem-Aranha: Global – Vol. 2 (The Amazing Spider-Man: Worldwide – Vol. 2, EUA – 2016)
Contendo: O Espetacular Homem-Aranha (Vol. 4) #6 a #11
Roteiro: Dan Slott
Arte: Matteo Buffagni (#6 a #8), Giuseppe Camuncoli (#9 a #11)
Arte-final: Cam Smith (#9 a #11)
Cores: Marte Gracia
Letras: Joe Caramagna (#6, #7, #9 a #11), Cory Petit (#8)
Capas: Alex Ross
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: março a junho de 2016
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: fevereiro a abril de 2017 (O Espetacular Homem-Aranha #4 a #6)
Páginas: 133

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.