Crítica | O Espetacular Homem-Aranha

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estrelas 3,5

A figura de Peter Parker, um adolescente nerd que, num dia qualquer, acaba sendo picado por uma aranha geneticamente modifica, sempre exerceu um grande fascínio aos olhos do público. Afinal, como não simpatizar com a típica figura do CDF da escola e constante vítima de bullying que, subitamente, ganha poderes e habilidades especiais que lhe permite combater aquela realidade de ameaças? Provas disto estão apenas na própria popularidade do herói desde sua criação nas HQs, mas também na própria trilogia original, comandada por Sam Raimi, que obteve uma recepção calorosa pelo público.

Tendo isto em mente, como justificar uma releitura sobre o herói apenas 10 anos depois de seu primeiro filme? Muitos diriam que as ju$stificativa$ são bastante óbvias, o que não deixa de ser uma afirmação correta. Mas assim como com grandes poderes, vem grandes responsabilidades, com algumas releituras, vem a chance de trazer um olhar diferenciado sobre aquela mesma história, por mais que a repetição básica e descarada de elementos incomode. O Espetacular Homem-Aranha surgiu justamente com esta proposta: recontar a história de Peter Parker sobre um novo olhar, desta vez pelas lentes de Marc Webb, uma escolha certamente ousada e inesperada, visto que Webb havia apenas trabalhado na comédia romântica (500) Dias com Ela, se não considerarmos sua vasta experiência em videoclipes.

Ao contrário da trilogia de Sam Raimi, cujos filmes eram carregados de um tom fantasioso e bastante cartunesco, o reboot de Webb nos traz um clima mais sombrio, levemente intimista e com um toque a mais de realismo, algo já esperado, visto o sucesso de influência da recente trilogia de Christopher Nolan para o herói Batman. Obviamente, incomoda o fato do filme ser, até sua metade, uma xerox descaradamente gritante do primeiro filme, com situações sendo simplesmente reprisadas sem qualquer teor de novidade. É algo que surpreende, se levarmos em consideração a presença de roteiristas competentes como James Vanderbilt (de Zodíaco), Alvin Sargent (do segundo Homem-Aranha) e Steve Kloves (da saga Harry Potter). Mas é como já foi dito: apesar de toda esta repetição, O Espetacular Homem-Aranha encontra seu principal trunfo na nova forma de recontar a história de Peter Parker, o que não significa que não existam novos elementos que, sutilmente, conseguem fazer alguma diferença.

Substituindo o ator Tobey Maguire na pele do aracnídeo, Andrew Garfield (A Rede Social) nos apresenta um Peter Parker de personalidade mais explosiva, explosiva e impetuosa, algo mais do que bem-vindo, especialmente quando lembramos do Parker um tanto inerte e bobalhão de Maguire (que não deixa nenhuma saudade). Garfield incorpora esta nova personalidade com naturalidade, permitindo que o público jovem crie uma identificação ainda mais forte com o personagem, que tal qual boa parte da juventude hoje, guarda dentro de si um grande sentimento de revolta pelas injustiças que a vida lhe trouxe.

Neste sentido, as novas direções tomadas pelo roteiro, que insere diversas perguntas e mistérios sobre o desaparecimento dos pais de Peter funcionam, uma vez que justificam o sentimento rebelde do personagem em sua busca por respostas. Desta vez, Peter não é apenas tentando balancear sua vida dupla, mas é também uma figura que tenta se encontrar como ser humano e como homem.

Se há problemas realmente evidentes no roteiro (além da já mencionada reciclagem de situações), estes devem ser, principalmente, a superficialidade com que os roteiristas trabalham com seus demais personagens. A relação entre Tio Ben e Peter, tão essencial no primeiro filme, aqui encontra ecos frios e distantes, o que não permite ao espectador compreender a forte relação entre os dois personagens, e mais ainda, não nos permite sentir a influência que a morte de Tio Ben (cena esta vergonhosa, por sinal) exerce sobre as escolhas de Peter. Da mesma forma, o vilão conhecido como Lagarto, interpretado por um ótimo Rhys Ifans, acaba caindo em estereótipos que lhe tornam um antagonista superficial. E Denis Leary, como o pai de Gwen Stacy, talvez seja a presença mais dispensável do longa, uma vez que o personagem pouco (ou nada) acrescenta à narrativa ou a jornada dos personagens.

E já que mencionamos Gwen Stacy, deve ser ressaltado que a escalação de Emma Stone na pele da personagem talvez tenha sido o principal acerto de O Espetacular Homem-Aranha. Enérgica, carismática e deslumbrante, A Gwen de Stone agrada não apenas por fugir da mera figura da donzela em perigo, mas também pela extrema fidelidade de sua caracterização com as HQs, como se a própria Stone tivesse pulado diretamente dos quadrinhos para a tela. Sua química com Garfield é bastante funcional, e neste sentido, a escolha de Webb para a direção se justifica, uma vez que o diretor consegue imprimir sensibilidade, romantismo e leveza às cenas de interação entre os dois, sem jamais soar forçado ou apelativo.

Aliás, Webb também se revela competente no comando das cenas de ação, que se não chegam a ser tão grandiosas como os trailers indicavam, cumprem a função de empolgar e fazer com que o coração do público bata em velocidade duplicada. Seu domínio sobre os efeitos visuais também é evidente, com belas imagens sendo criadas (como Peter lançando sua teia sobre a luz da lua). Infelizmente, a trilha sonora de James Horner não acompanha o mesmo ritmo, exagerando no tom melodramático exagerando nos acordes que ressaltam o heroísmo de Peter.

Entre acertos e tropeços, fica para cada espectador a decisão de justificar, ou não, a existência de um reboot. Analisado como um novo pontapé para as aventuras do aracnídeo, O Espetacular Homem-Aranha passa longe da perfeição, mas instiga o suficiente para continuarmos acompanhando os filmes que virão, por mais que estes, dificilmente, venham alcançar a profundidade poética dos filmes de Sam Raimi.

Publicado originalmente em 29/04/2014.

O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man) — EUA, 2012
Roteiro: James Vanderbilt, Steve Kloves, Alvin Sargent
Direção: Marc Webb
Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Denis Leary, Martin Sheen, Sally Field, Irrfan Khan, Campbell Scott, Embeth Davidtz, Chris Zylka, C. Thomas Howell, Stan Lee
Duração: 136 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.