Crítica | O Espírito da Colmeia

el-espiritu-de-la-colmena-o- espírito da colmeia plano critico

Nem mesmo o rancor ou desprezo, nem mesmo o temor de mudar. Apenas sinto sede, uma sede do que eu não sei que me mata. Rios de vida, onde foram? Ar, o ar me falta. O que vês na escuridão que o faz tremer silenciosamente? Não vejo. Vejo como um homem cego quando encara diretamente o sol. Devo cair então onde os que caem nunca se levantam.

A cada dez anos de muita maturação, uma obra-prima. Eis o saldo da enxuta filmografia de Víctor Erice, formada pelos três longas-metragens O Espírito da Colmeia (1973), O Sul (1983) e O Sol de Marmelo (1992). O filme de estreia é ainda nos dias de hoje considerado um clássico do cinema espanhol, fazendo um retrato lúdico da Espanha pós guerra civil, num registro que envolve tanto a tristeza das vidas adultas quanto o maravilhoso que irrompe a partir do filtro infantil que transforma tudo em novidade.

Os letreiros iniciais acompanhados de desenhos coloridos desde logo deixam claro que a trama será guiada pelas mãos das crianças, verdadeiras narradoras dessa história que se inicia, como num conto de fadas, pelo “era uma vez”. As personagens principais de O Espírito da Colmeia, Ana e Isabel, são duas menininhas que habitam um casarão interiorano e isolado em algum lugar da planície de Castela, nos primórdios dos anos 40. Existem poucas diversões disponíveis, mas um cinema local garante a elas e a todos os moradores do vilarejo uma grande fonte de entretenimento e distração. Quando o caminhão traz as películas para a exibição, uma multidão se aglomera esperando ansiosamente para saber que nova fita será projetada.

E eis que chega o filme que mudaria a vida de Ana, interpretada brilhantemente por Ana Torrent, atriz que igualmente protagonizou Cria Cuervos (1973), de Carlos Saura, outra narrativa centrada no olhar da meninice. A garota se depara com a horripilante história de Frankenstein, na sua versão americana de 1931, com Boris Karloff na pele do monstro que sai do controle de seu criador. Neste filme, um narrador sobe ao palco e apresenta a obra ao público, avisando que, apesar dos sustos que o conto de horror pode proporcionar, ele não deve ser levado muito a sério.

A reação de Ana, ironicamente, é exatamente oposta. Erice alterna as andanças destrutivas da criatura na telona e as respostas, entre apavoradas e encantadas, das feições da menina. Toda a audiência, aliás, parece ser tomada pelo espanto, pais e filhos, adultos e crianças, embora apenas em Ana o efeito seja durador a ponto de se tornar perigoso. À noite, deitada no quarto com sua irmã Isabel, também encantadoramente interpretada por Isabel Tellería, ela busca o motivo do assassinato executado pelo monstrengo, inquirição que se desdobrará por todo resto da película.

As irmãs Ana e Isabel praticamente não têm contato com a própria família. Seu pai Fernando (Fernando Fernán Gómez) é um apicultor que gasta a maior parte do tempo no trato com abelhas ou no seu escritório, lendo e escrevendo; sua mãe Teresa (Teresa Gimpera) vive absorvida pela nostalgia do passado, mandando cartas para o amado de quem se separou graças à guerra civil. Os espectadores veem a família reunida apenas uma vez ao longo de toda narrativa, mas a sequência é filmada com um silêncio perturbador ao qual se acrescentam os cortes secos que segregam cada um, dispondo-os isoladamente no quadro.

Abandonadas à própria sorte, as crianças percorrem seu próprio caminho, marcado não somente por divertimento, como por riscos e ameaças, dualidade sublinhada pela música de Luís de Pablo, oscilante entre a serenidade da flauta e os ritmos de puro suspense. A personalidade sádica de Isabel assusta Ana, que não consegue esquecer nem por um momento o filme que assistira. Acreditando que o ser ameaçador se esconde numa construção abandonada ao lado de um poço, ela vai procurá-lo em vários momentos, seja depois da escola, seja em plena noite.

Mas certo dia Ana encontra no local um inimigo do regime de Francisco Franco (é claro, entretanto, que ela não faz ideia do conflito político que destruía a nação naquela época). Nesse momento, a realidade e a fantasia como que se cruzam, o cinema e a violenta ditadura ganham, para a menina, o mesmo status de realidade. Ficam bastante claras, desse modo, as semelhanças entre O Espírito da Colmeia e O Labirinto do Fauno (2006), obra que na mesma medida tematiza a ditadura espanhola pelo prisma infantil, misturando fábula e fato, enredando o histórico e o sobrenatural.

Toda a simbologia criada por Victor Eríce e o roteirista Ángel Fernández Santos está na curiosa aproximação entre a vida cotidiana sob um governo autoritário e a vida das abelhas na colmeia. Para isso, nada é mais eloquente do que a aparência da casa das irmãs, definida por janelas subdividias em formas hexagonais que lembram favos de mel, quase sempre iluminadas num tom amarelado. As abelhas vivem sem pensar, trabalhando em fluxo infinito para o bel prazer da rainha; por analogia, cidadãos espanhóis se encontram em estado anestesiado, apenas sobrevivendo, com pouca ou nenhuma alegria.

A situação melancólica é realçada tanto pela fotografia monocromática de Luís Cuadrado quanto pelas locações empobrecidas e cenários encardidos. O enredo se caracteriza pela disfunção das situações, metaforizadas à perfeição nas cenas com os alunos da escola do povoado: lá, a professora ensina anatomia com um boneco em que faltam vários órgãos que devem ser repostos pelas crianças, numa espécie de retomada do feito construtor de Victor Frankenstein e, mais subterraneamente, numa alegoria da situação desequilibrada de um país com povo mutilado, cego para os abusos de poder.

A experiência cinematográfica significa para Ana a formação da personalidade e a afirmação do júbilo infantil. O problema é que esse processo não se dá sem traumas, sendo o paroxismo do perigo alcançado ao fim da fita. Apesar de todos os contratempos envolvidos, a criança consegue, ao fim e ao cabo, encontrar uma fuga ao cotidiano sem graça que a cerca: basta fechar os olhos, sussurrar “sou Ana”, que o mundo da fantasia de súbito se constrói. Tal a força do cinema e de todas as outras artes- insuflar o novo na crosta do automático. Frankenstein destrói os alvéolos de cera que enquadram a existência, construindo para a criança uma ponte para uma outra realidade. Bela homenagem de Victor Eríce ao fazer estético, retomada quase vinte anos depois no igualmente sensível O Sol de Marmelo.

O Espírito da Colmeia (El espíritu de la colmena)- Espanha, 1973.
Direção: Victor Eríce
Roteiro: Victor Eríce e Ángel Fernández Santos
Elenco: Ana Torrent, Isabel Tellería, Fernando Fernán Gómez, Teresa Gimpera, José Villasante, Ketty de la Cámara, Estanis González, Juan Margallo
Duração: 98 min.

GUILHERME ALMEIDA . . . Estudante de Letras e apaixonado por literatura e cinema, acho Crime e Castigo o auge da inteligência humana, não consigo assistir Tarkovski sem acender uma vela e me emocionar, e toda vez que vejo Taxi Driver me olho no espelho e lanço um “You talking to me?”. Se por uma desgraça cósmica preciso passar um dia sem contato com a Arte, sofro de profunda abstinência e preciso ser amarrado numa camisa de força. Nesses momentos, não se aproximem.