Crítica | O Estrangeiro (2017)

Ao lado da refilmagem cheia de personalidade (até demais) de Karatê Kid, O Estrangeiro se posiciona como um contraplano à carreira que Jackie Chan construiu para si. Figurinha carimbada de movimentadas comédias de ação que foram de Police Story até os divertidos A Hora do Rush, a substituição feito pelo ator sobre um papel que antes era de um lendário Pat Morita desnudou um boom de reconhecimento e prestígio o qual parecíamos estar apenas esperando pelo filme certo para explorar. Chan compôs muito da alma e do coração daquele filme, e O Estrangeiro repete este feito, por mais que suas chegadas nos cinemas esteja acontecendo de forma bem tímida, apesar do grande sucesso que alcançou nos EUA.

E antes de qualquer coisa, O Estrangeiro é um veículo para Chan e sobre Chan. Não à toa, o filme carrega seu nome como produtor, assim como grande parte da movimentação física da obra aconteça quando Chan, no auge dos seus 63 anos, se faz presente em cena e investe nos pulos, acrobacias, golpes, chutos e socos que todos sabemos dos quais o ator é capaz. E claro, há um certo charme ao vermos Chan adentrando e emulando esse novo formato de cinema de ação mais seco, com seu viés político que é quase uma obrigação (mas raramente faz alguma diferença) e toda a construção do exército de um homem só, no qual inspirações no cultuado Busca Implacável são inegáveis. Neste caso, Chan interpreta Quan Ngoc Minh, um pai que após ter sua filha (Katie Leung) assassinada durante um ataque terrorista de autoria reivindicada pela IRA, se vê na obrigação de buscar a própria justiça após a negligência da polícia e do primeiro-ministro Liam Hennessy (Pierce Brosnan, que claramente está aqui por ecos de sua parceria com o diretor Martin Campbell em 007 Contra GoldenEye).

Como qualquer entretenimento de encomenda (pois sim, não há como negar que O Estrangeiro é isto), há pouquíssimas firulas para a narrativa chegar ao seu ponto principal, de fato, o que é um alívio para quem almeja assistir a ação ser desenrolada na tela, mas também uma preocupação para quem teme o sacrifício de alguma veia dramática que possa nos aproximar dos personagens. É fato que o roteiro de David Marconi (vindo dos ótimos Inimigo do Estado e Duro de Matar 4.0) se desleixa neste ponto e apenas arremessa a responsabilidade dramática especialmente nas costas de Jackie Chan, que para nossa felicidade, dá conta do recado e exibe as expressões honestas de um pai amoroso, porém cansado, traumatizado, marcado pelas tragédias que a vida lhe impôs, porém decidido a encontrar pelas próprias mãos a justiça necessária por sua filha. A jornada de Quan é permeada por acontecimentos inverossímeis sim, mas que ganham contornos especialmente comoventes graças à presença corporal de Chan, que se alonga para além dos chutes e socos.

No que concerne ao seu subtexto político, Marconi pesa a mão nos momentos em que tal argumento precisa se fazer notável, embora há de se admitir que existe algum esmero no retrato fidedigno que o filme elabora sobre a IRA, que mesmo tendo suas lutas armadas encerradas em 2005, ainda cria integrantes capazes de investir nas práticas do grupo terrorista. Ao menos tais plots servem com eficácia ao personagem de Brosnan, que assume sua presença dúbia enquanto sendo a escolha de Quan para encontrar o nome dos envolvidos no ataque que tirou a vida de sua filha. E Pierce, com sua postura naturalmente arrogante e prepotente, veste bem esse papel.

E o diretor Martin Campbell, um tanto distante dos dias de glória em 007 Cassino Royale e O Fim da Escuridão, ao menos elabora um trabalho pontual mesmo diante de tanta burocracia, e sua câmera sabe muito bem como namorar a ação sem desorientar o espectador, ainda muito contribuída aqui pelo fôlego de Chan. Diretor e estrela se fazem em sintonia, o que eleva o resultado final do conjunto, que se não é memorável por méritos próprios, justifica suas motivações com a rica presença do astro Chan, que confere substância a um filme que, sem ele, seria apenas correto.

O Estrangeiro (The Foreigner) – China/Reino Unido, 2017
Direção:
 Martin Campbell
Roteiro: David Marconi, baseado no livro de Stephen Leather
Elenco: Jackie Chan, Pierce Brosnan, Katie Leung, Rufus Jones, Rory Fleck Byrne, Charlie Murphy
Duração: 113 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.