Crítica | O Estranho Caso de Angélica

estrelas 4

Ver um filme de Manoel de Oliveira é como acompanhar um romance realista do século XIX animado 24 quadros por segundo. Ele é o diretor mais velho do mundo ainda em atividade (completará 105 anos agora em 2013) e mesmo que tenha dito recentemente estar cansado demais para dirigir longas metragens, ainda se esforçaria para filmar A Igreja do Diabo, de Machado de Assis, projeto que já esteve em fase de pré-produção com os agentes do diretor, mas que depois do lançamento de O Gebo e a Sombra (2012), parece ter sido retirado temporariamente da agenda.

Em 2010, Oliveira dirigiu dois filmes, o curta-metragem Painéis de São Vicente de Fora – Visão Poética e o longa O Estranho Caso de Angélica, nosso objeto de análise. O roteiro foi escrito pelo diretor em meados dos anos 1950, mas só em 2010, com coprodução brasileira (de Leon Cakoff, via Mostra Internacional de Cinema de São Paulo), o projeto ganhou corpo. A história é simples e não é uma obra-prima do diretor, mas traz consigo o enigma onírico e mítico dessa atual fase de sua carreira.

Isaac, um jovem fotógrafo judeu, vai uma noite até à Quinta das Portas fotografar uma jovem defunta, Angélica. A partir de um incidente ocorrido durante a sessão de fotos, Isaac passa a mostrar um comportamento estranho, que chama a atenção da dona da pensão onde vive e também dos outros hóspedes, culminando com um final onde tudo se (con)funde: sonho, realidade, cinema, imagem, luz, antimatéria, espírito.

Declaradamente um apaixonado pela imagem cinematográfica, Manoel de Oliveira é autor de um cinema híbrido entre o teatro, a literatura transformada e o anacronismo deliberado em seus roteiros. Suas personagens, diálogos e situações estão localizadas no presente, mas parecem perdidos no tempo, em um estado de existência que pode ser encaixado em qualquer momento da História. Como não pertencem exatamente a esse mundo, é lícito que algumas de suas personagens não consigam diferenciar o que é real e irreal, o que é representação e o que é realidade. Em Singularidades de uma Rapariga Loura (2009), Macário se apaixona por uma imagem na janela e vai em busca dessa representação mista de paixão e desejo. Em Angélica, mais uma vez temos essa situação: o protagonista – sempre vivido pelo neto do diretor, Ricardo Trêpa – se apaixona pela imagem da jovem morta, cuja representação nas fotografias ganha vida, passa a ser mais evidente, mais clara e mais viva do que a própria existência do perturbado fotógrafo.

Livre de excessos dramáticos – nada é pessimista ou otimista demais em seus filmes e as emoções das personagens não alcançam ápice algum – o cinema de Manoel de Oliveira exige do espectador uma entrega madura, uma renúncia da necessidade humana de saber, para dar lugar à angústia humana da incerteza, da resposta ausente, da falta. Nesse estado pseudo-nirvânico de existência, temos um mundo entre a religião e o fantástico – para o diretor essas coisas são inseparáveis, como podemos ver em Espelho Mágico (2005) –, um mundo da morte sempre presente, das pequenas intrigas familiares e amorosas, da metalinguagem e do sonho.

Angélica traz, além dessas características, os truques imagéticos do primeiro cinema, especialmente de Méliès. O “estranho caso” do título é quase irônico, um conto mítico que pode ser lido como questionador da existência de um Deus, da paixão do diretor pelo cinema, da fixação pela morte, e que é posto como “estranho” porque parece acontecer isoladamente, produto da loucura de um jovem obcecado pelo mundo espiritual. Mas uma observação atenta nos faria perceber que cada personagem do filme possui as suas idiossincrasias e não são tão normais assim: o mendigo, a dona da pensão, a empregada, a irmã da morta, os hóspedes da pensão, todos vivem os seus mundos estranhos e os seus estranhos casos, a única diferença é que não são consumidos por eles.

Entre uma sonata de Chopin, o canto do lavradores da vinha e cânticos religiosos, O Estranho Caso de Angélica é exemplo de um cinema puro e particular. Talvez traga a oposição entre o velho e o novo mundo (os trabalhadores com as enxadas em oposição às máquinas), talvez seja um desfile de símbolos literários – Antero de Quental, José Régio – talvez seja um desabafo sobre o cansaço de buscar respostas, da falta de um olhar mais profundo do mundo atual para o verdadeiro estado das coisas, mesmo que esse verdadeiro estado seja uma hipótese, a admissão do fantástico, a aceitação de tudo como parte seminal de um grande campo de existências. O filme é como o poema Exausto de Adélia Prado: Quero o que antes da vida / foi o sono profundo das espécies, / a graça de um estado. / Semente. / Muito mais que raízes.

O Estranho Caso de Angélica (Portugal, Brasil, Espanha, França, 2010)
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira
Elenco: Pilar López de Ayala, Leonor Silveira, Ricardo Trêpa, Filipe Vargas, Luís Miguel Cintra, Ana Maria Magalhães, Isabel Ruth, José Manuel Mendes, Ricardo Aibéo
Duração: 97min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.