Crítica | O Estranho Mundo de Jack

“Ouviram falar sobre paz na terra aos homens de boa vontade?”

Contém spoilers.

Quando pensamos em horror destinado a crianças, O Estranho Mundo de Jack é a primeira obra que imaginamos, sempre associada ao nome de Tim Burton. Apesar de não ser exatamente um filme de terror, temos, na criação deste universo, um sentimento gótico fantástico que assimila muito dos piores pesadelos que crianças possuem, sem nunca causar repulsa, mas sem ser facilmente digerível por elas. Para os baixinhos, O Estranho Mundo de Jack apavora tanto quanto encanta, permitindo a fita ser um marco inesquecível na infância deles. O nome de Tim Burton, produtor do longa, embora não esteja relacionado à direção, responsabilidade de Henry Sellick, permanece bastante realçado e de um modo justo, visto que ele possui créditos pela criação da história e do mundo, com uma assinatura estética claramente sua. O mais interessante de tudo, em um pensamento de bastidores, é a informação de que o filme foi produzido pela Skellington Productions, em uma joint venture com os estúdios Disney. A realidade é que, pensando bem, seria extremamente complicado uma obra com um vilão composto de insetos e vermes asquerosos ser diretamente ligada à Disney, destoando muito da empresa. A criatividade de Sellick e Burton, ao menos, está livre de qualquer amarra, pronta para dar origem a uma obra musical marcante, com características peculiares e extraordinárias em vários dos âmbitos nos quais podemos analisar a obra.

A construção do mundo, antes de tudo, é um dos grandes acertos iniciais dos realizadores. A técnica do stop-motion, enquanto, em outros casos, seria um aliado para a criação imagética, aqui, é a base para o que se é fabricado em termos de universo. Não é à toa que Tim Burton e Henry Sellick estariam envolvidos em outras animações com esse estilo, como A Noiva Cadáver e Coraline e o Mundo Secreto. O stop-motion é “estranho” por si só, deformando a natureza de um modo a não torná-la rejeitável, mas extremamente especial, para não dizer charmosa. O estranho mundo de Jack Esqueleto (Chris Sarandon) é uma composição visual impressionante, dando margem a um contraste impressionante quando, mais tarde, vemos o protagonista da obra, entristecido, descobrir um outro universo, e, consequentemente, descobrir o Natal. Estamos falando de um ser esquelético, contradizendo-se quando sua postura é elegantíssima, mas sua capacidade em ser aterrorizante se revela, mais tarde, enquanto conversa com algumas crianças demoníacas de seu mundo. O Rei da Abóbora, no entanto, não quer esperar mais um ano para ser, mais uma vez, o centro das atenções. O que aconteceria, então, se esse personagem decidisse, ele mesmo, ser o responsável por organizar o Natal? A resposta é a trama de O Estranho Mundo de Jack, um dos longas-metragens tematicamente mais ricos da filmografia de Sellick e da mente de Burton.

A história de Tim Burton, em um primeiro olhar, não está visando refletir sobre a quebra de estereótipos, embora, no caminho que decide por navegar, principie um pensamento de ordem subversiva, na qual um monstro é capaz, assim como qualquer pessoa, de se apaixonar por uma festividade que antes não conhecia. As portas estão, teoricamente, abertas para a exploração do novo. Temos, na realidade, apesar dessa superfície anti-conservadora, uma cisão com pensamentos de integração social. Cada mundinho desse universo criado está distante do outro, chegando ao ponto em que a união entre dois diferentes, o do Halloween e o do Natal, provoca caos e não harmonia. A investida é, de certa forma, trágica, ao passo que Jack Esqueleto não consegue traduzir o Natal para as criaturas da Cidade do Halloween, fracassando em ser o próprio Papai Noel (Ed Ivory), personagem, que, em última instância, conserta os equívocos cometidos pelo protagonista. O cinema de Tim Burton é, de certa forma, excludente, mas não com uma malícia, decorrente, porém, de uma visão mais entristecida e pessimista da realidade. Ao ser ver como creepy, diferente, Tim Burton acaba olhando para os seus próprios personagens, espécies de versões de si mesmo, como Edward Mãos de Tesoura, e os colocando a parte da sociedade, que não consegue, mesmo no final da história, os aceitar. As crianças, por exemplo, rejeitam completamente, em Estranho Mundo, os presentes dados por Jack.

De sátiras jocosas que comentam sobre a política – como a piada envolvendo o Prefeito da Cidade do Halloween (Glenn Shadix), nessa seguinte passagem: “Eu sou apenas um funcionário eleito! Não posso decidir nada sozinho.”  -, a todo o discurso que transmite de modo não-panfletário, O Estranho Mundo de Jack prova ser uma obra muito política, mesmo observando essa auto-depressão mais pura. O final da fita contempla uma mínima integração entre mundos, com a neve invadindo a cidade-natal de Jack, mostrando um caráter político-social mais complexo do longa, sem pensar em óticas de uma maneira cega e radical. A cidade-natal de Jack permanecerá sendo a sua casa, embora elementos culturais de outros lugares possam dar início a uma miscigenação de valores. Em um contexto diferente, Jack encontraria uma forma de resolver a problemática, tornando-se parte do Natal, unindo-se ao Papai Noel para consertar os erros e, finalmente, aprendendo o verdadeiro espírito da festa. Ao visualizarmos uma ousadia do cineasta em criar uma mensagem mais cética, sem apego a ideais mais progressistas, percebemos um caráter bastante realista nesse discurso, vide o mundo em que vivemos, no qual países são afetados pelo globalismo, invadidos pelos valores e cultura de outros povos, mas em nada se assemelhando a esses demais, permanecendo rejeitados e separados. Além disso, a busca do protagonista não é moralista, pelo entendimento de valores natalinos – os realizadores estão desinteressados nisso.

A narrativa, dessa forma, é interessada, diferentemente do normal, em mostrar um vácuo existente dentro do peito de um mero esqueleto, amado por todos, mas, ainda assim, incompleto. A crise existente no intrínseco do protagonista é real, dando origem a um dos personagens mais fascinantes das animações. Os delírios de Jack Esqueleto, o Rei da Abóbora, são magníficos, casando com as composições musicais, que englobam diversos sentimentos e permite, em uma única canção, caminhar entre perspectivas diferentes. Por exemplo, a tragédia posterior ao abatimento do protagonista pelas mãos dos militares é incorporada na sequência de Poor Jack, que, por outro lado, não cai em um sentimentalismo extraordinário, logo transformando-se, com muita organicidade, em uma euforia anterior a resolução de problemáticas. Um dos momentos musicais iniciais, previamente a esse, Jack’s Lament é uma poderosa reclamação do protagonista, insatisfeito com o modo no qual a sua vida – ou morte – anda. A letra dessa canção, assim como a de várias outras, é magnífica, mostrando uma habilidade excepcional da obra em contar história através dessas composições, passando sentimentos ao público de um modo realmente verdadeiro. Em uma outra esfera, o encantamento do protagonista pelo Natal é encapsulado certeiramente dentro de What’s This?, exemplificando a habilidade do longa-metragem em justificar seus personagens por meio das canções.

Dessa mesma canção, podemos inferir, no final das contas, que o interesse de Jack no Natal não nasceu em razão dos valores existentes na celebração natalina, mas na diferença desta realidade com a sua, um espaço em que ele é extremamente insatisfeito. Tudo é uma descoberta e isso o encanta maravilhosamente. A resposta para o sentimento amargo do protagonista, todavia, não se encontraria, necessariamente, no Natal. A conclusão permite ele a enxergar no amor, existente dentro da personagem Sally (Catherine O’Hara), uma boneca de pano. Para isso, O Estranho Mundo de Jack possui o romance como uma de suas facetas mais óbvias, mas, sem dúvidas, a pior trabalhada, embora isso não ocorra em decorrência dos personagens – no caso de Sally, ela possui uma ingenuidade em relação a liberdade, fugindo das garras do seu “pai” sem pensar duas vezes, mantendo um semblante pueril que conquista o espectador, dado, além disso, seu fissuramento pelo Rei da Abóbora. O problema surge do fato da costura dessas duas personalidades, a do esqueleto e a da boneca, ser desalinhada. O espectador não é cativado por esse amor, um pouco artificial, como é absorvido pelo resto da fita. Pelo menos, o esqueleto que queria encontrar algo para preencher seu coração encontra, além de todo o resto da obra possuir uma essência mais do que necessária para que sejamos engolidos, apaixonados e assustados, por esse musical animado extremamente fantástico e inesquecível.

O Estranho Mundo de Jack (The Nightmare Before Christmas) – EUA, 1993
Direção: Henry Sellick
Roteiro: Caroline Thompson, Michael McDowell, Tim Burton
Elenco: Chris Sarandon, Danny Elfman, Carmen Twille, Catherine O’Hara, Debi Durst, Edward Ivory, Glenn Shadix, Greg Proops, Ken Page, Kerry Katz, Paul Reubens, Randy Crenshaw, Sherwood Ball, Susan McBride, William Hickey
Duração: 76 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.