Crítica | O Estranho Que Nós Amamos (1971)

estrelas 4

Chega a ser hilária a campanha de marketing da Universal Studios em relação ao lançamento de O Estranho Que Nós Amamos. Sem saber exatamente o que fazer com um filme que navegava completamente contra a persona estoica e durona que Clint Eastwood construíra ao longo de anos com filmes como os que compõem a Trilogia dos Dólares, além de Meu Nome é Coogan, O Desafio das Águias e Os Abutres Têm Fome, algo que, aliás, continuaria ao longo da década de 70 especialmente com seu policial estilo “atire antes, pergunte depois” Dirty Harry, o estúdio apelou para aquilo que os fãs do ator esperavam e não o que a obra, baseada em romance de Thomas Cullinan, realmente é.

Não que isso não seja feito hoje em dia, claro, mas é que, olhando para trás, esse talvez seja um dos filmes em que esse distanciamento entre publicidade e conteúdo mais chame a atenção, bastando notar o pôster principal. Nele, dentro de uma moldura azul, vemos uma interessante e quase lisérgica arte em que Eastwood ganha destaque (obviamente) segurando uma arma como se estivesse pronto para atirar. No canto inferior direito, vários rostos de mulheres aparecem e a tagline, logo abaixo do nome do astro, é “seu amor… ou sua vida…”. Obviamente que o espectador desavisado não tem outra alternativa que não esperar um filme-padrão com Clint Eastwood à época, em que ele, de arma em punho e sem falar muito, salvará donzelas indefesas de um horrível perigo.

E a surpresa vem quando descobrimos que o personagem de Eastwood, o cabo John “McBee” McBurney, do exército da União, ferido em combate com os Confederados, somente pega uma arma em brevíssimos flashes ao passado salpicados durante a projeção e em um rápido momento mais para o final, quando atira offscreen em uma fechadura. Mais do que isso, seu personagem é metaforicamente emasculado na história, algo que contribuiu para o interesse do ator em justamente viver um papel diferente do que estava acostumado. Fico imaginando o desapontamento dos fãs do ator em 1971, levados pela publicidade enganosa da Universal.

Mas é justamente o inusitado – e a abordagem sem firulas de Don Siegel, em sua longeva parceria com Eastwood e sua produtora Malpaso – que torna O Estranho Que Nós Amamos uma obra inquietante e diferente. Na história, McBee é achado sangrando por Amy (Pamelyn Ferdin), uma menina de 12 anos que estuda em uma escola para “jovens damas” comandada pela Senhorita Martha Farnsworth (Geraldine Page), no Mississípi. Por breves momentos, o impulso da diretora e das seminaristas é entregar o soldado do Norte às forças do Sul, mas a presença de um homem naquele meio exclusivamente feminino acaba fazendo com que elas – por diversas razões pessoais, mas todas de uma maneira ou de outra enfatuadas pela masculinidade e beleza de McBee – atrasem o chamamento das tropas confederadas, sob a desculpa de que o cabo morreria na prisão se os ferimentos não fossem tratados.

Logo de cara, a atração súbita das mulheres por McBee parece estranha e exagerada, mas todo o contexto, aí incluídas a educação, o charme e a fragilidade física do soldado, permitem que aceitemos o que acontece talvez muito rapidamente demais, a começar por um transgressor beijo (na boca) que ele dá em Amy logo quando se conhecem na floresta e que fariam os politicamente corretos de hoje terem um ataque cardíaco. No entanto, o jogo é mais complexo e bem mais interessante do que a superfície da trama. McBee é um mentiroso que usa seu charme e boa aparência para manipular as moças, até mesmo Hallie (Mae Mercer), a única escrava remanescente, ao passo que elas, notadamente a incestuosa Martha, a professora virginal Edwina (Elizabeth Hartman) e a desavergonhada e atirada estudante Carol (Jo Ann Harris), passam a também reagir e, de certa forma, a usar McBee como o objeto de seus diferentes desejos, ainda que todos relacionados com o sexo.

Ainda que Eastwood seja o centro das atenções, algo que é natural não só por ele ser a estrela, mas também por ser o foco de todas as mulheres da escola (são nove no total, ainda que apenas cinco efetivamente desenvolvidas na trama), o roteiro adaptado de Albert Maltz não o glorifica. Aliás, verdade seja dita, nenhuma atitude dele ou das mulheres é realmente glorificada, evitando que a fita trafegue entre opostos muito claramente estabelecidos. Com rápidos flashes ao passado de McBee e Martha, aprendemos quem eles realmente são e, ao ouvirmos os pensamentos das demais personagens com suas respectivas vozes em uma estranha – mas que dá certo – escolha narrativa, entendemos exatamente o que cada uma imagina de si mesma, em um delicado jogo de interesses que vai sendo descortinado em uma abordagem cada vez mais sombria e claustrofóbica.

Siegel usa câmera estática, sem muita movimentação, para marcar as sequências normalmente longas e repletas de diálogos. Ao mesmo tempo, a fotografia do estreante Bruce Surtees (que também passaria a ser um nome constantemente ligado ao de Eastwood) força uma plasticidade de sonho na metade inicial da obra, dando a impressão que McBee chegou ao Paraíso, com belas mulheres servindo-o como se ele fosse um paxá. Na medida em que a trama ganha complexidade, Siegel fecha sua objetiva e Surtees escurece os tons, com a trilha de Lalo Schifrin intensificando-se quase como se estivéssemos diante de um filme de terror, emprestando um tom pesado, sujo e finalista à obra, trocando o Paraíso por uma espécie de Inferno ou, pelo menos, um Purgatório. O elenco feminino caminha de acordo com essa estrutura, trocando olhares sonhadores, lânguidos e admiradores por algo marcadamente mais sinistro e aterrador, algo que é ecoado pela persona aproveitadora de McBee que vai também aflorando, mesmo que, internamente para os espectadores, ela nunca seja escondida.

No final da projeção, é fácil entender o porquê de a Universal Studios não ter conseguido “vender” o filme, levando-o a seu fracasso retumbante de bilheteria. Infelizmente, a miopia do estúdio tornou O Estranho Que Nós Amamos um filme esquecido de um Clint Eastwood que já mostrava toda a intenção de quebrar o molde do personagem típico que ele havia construído para si mesmo, algo que ele demorou bastante para conseguir, se é que conseguiu. De toda maneira, essa não deve ser uma razão para não se conferir essa diferente e realmente provocativa obra.

O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled, EUA – 1971)
Direção: Don Siegel
Roteiro: Albert Maltz (como John B. Sherry), Irenes Kamp (como Grimes Grice) (baseado em romance de Thomas Cullinan)
Elenco: Clint Eastwood, Geraldine Page, Elizabeth Hartman, Jo Ann Harris, Darleen Carr, Mae Mercer, Pamelyn Ferdin, Melody Thomas Scott, Peggy Drier, Patricia Mattick, Charlie Briggs
Duração: 105 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.