Crítica | O Exorcismo de Emily Rose

estrelas 5,0

Eis um filme que consegue transformar a metáfora em algo real. Baseado no livro O Exorcismo de Anneliese Michel, da escritora Felicitas Goodman, O Exorcismo de Emily Rose mudou nomes e algumas situações, transferiu a história para os Estados Unidos, inseriu elementos de gêneros cinematográficos variados e conseguiu criar a atmosfera ideal para o tipo de situação apresentada: o encontro de alguns mortais com as “forças do mal”. Com roteiro assinado por Scott Derrickson (também diretor) e Paul Harris Boardman, a produção é considerada a primeira narrativa de terror situada em um tribunal.

Ao longo dos seus 119 minutos, o filme nos apresenta um caso baseado em fatos reais ocorrido na Alemanha com Anneliese Michel, uma jovem católica que acreditava ter sido possuída por pelo menos seis demônios, tendo sido submetida a uma bateria de sessões de exorcismos. Resultado? A jovem veio a falecer. No filme, por ter convencido a moça a largar os medicamentos, o padre realizador dos rituais é acusado de homicídio doloso e negligência. Eis o drama inicial, apresentado através de uma montagem eficiente que ora segue a cronologia do julgamento, ora intercala, através de flashbacks, os acontecimentos narrados nos depoimentos das testemunhas, dos advogados e do réu, o padre Moore (Tom Willkinson).

Os produtores buscaram atores com experiência no gênero dramático para dar mais seriedade e qualidade ao enredo. Laura Linney interpreta a advogada de defesa Erin Bruner, tendo o igualmente competente Campbell Scott como o promotor Ethan Thomas, na qual precisa duelar. Como Emily Rose, temos a versátil Jennifer Carpenter, atriz que além de interpretar bem os aspectos dramáticos de seu personagem, possuía, nas palavras do diretor, “os movimentos físicos que ajudaram a dispensar muitos efeitos especiais”.

É quase inevitável não se lembrar de O Exorcista ao produzir uma reflexão sobre exorcismo no cinema. A produção que marcou os anos 1970 parece ter conseguido agrupar todos os bons argumentos deste tipo de enredo e compactado tudo de uma forma tão eficiente que qualquer imersão posterior na temática pode ser encarada como cópia ou tentativa frustrada. Confesso que não vejo porque comparar as produções. São filmes diferentes, com espaços e necessidades dramáticas distintas. Como abordado, é possível lembrar-se do clássico, mas isso não é desculpa para prender-se ao infrutífero processo analítico comparativo que geralmente termina com a soberania do clássico em relação ao contemporâneo.

Um dos elementos mais primorosos em O Exorcismo de Emily Rose é o roteiro. Os personagens são bem desenvolvidos e tão fortes quanto os acontecimentos narrados. Erin Bruner, uma advogada agnóstica, encontra-se balançada em determinado momento da história. O promotor Ethan, apesar de ser um religioso metodista, deixa a crença de lado e agarra o caso de forma ética, objetiva, sem afetações. Personagens profundos que raramente encontramos no entretenimento cotidiano.

A analogia Arquivo X (Murder x Scully, cético x curioso) foi um dos aspectos que influenciou os roteiristas na condução dos personagens, segundo Paul Harris Boardman, tendo ainda as fitas K7 com os registros das sessões de exorcismo como elemento para criação da atmosfera fílmica, pois segundo o dramaturgo, “eram assustadoras”. Inclusive, cabe ressaltar que esses áudios vazaram há algumas décadas e foram transmitidos por um programa de rádio, hoje espalhados pela internet e copiadas à exaustão.

Se há um problema grave no roteiro do filme, mas que não chega a atrapalhar o produto final é a infame necessidade de ressaltar os estereótipos sobre as crenças latinas. Em determinado momento do filme, a advogada Erin Bruner conversa com um personagem que alega ser muito comum acreditar em espíritos, exorcismos e espíritos malignos em países da América do Sul. Um fato que não acrescenta em nada à história, mas que reforça os estereótipos latinos que gravitam nas narrativas estadunidenses desde o início da história do cinema.

Dentre os aspectos técnicos interessantes é preciso destacar a direção de arte que foge dos clichês típicos do gênero. O estilo gótico tende a ser valorizado no gênero horror, mas os envolvidos na produção resolveram apostar em algo diferente. Ao unir beleza e terror, criaram um clima atemporal que mesclou elementos dos anos 1970, 1980 e 1990, inseriram aspectos visuais dos filmes de Dario Argento e das obras de Francis Bacon, além de criar uma interessante paleta de cores para representação do terror (laranja), da esperança (branco) e dos questionamentos (castanho).

Cada vez que estas três “palavras-chave” que envolvem o roteiro aparecem, as cores citadas estão lá para prestar significação para as respectivas sensações. As cores escuras das cenas do tribunal e os tons alaranjados que envolvem o quarto de Emily Rose associam-se à arquitetura ao estilo Frank Lloyd Whright para dar vigor ao filme, tendo ainda o cuidado na condução dos efeitos visuais, sem excessos, além dos enquadramentos e movimentos de câmera sofisticados.

O Exorcismo de Emily Rose é ainda mais interessante por levantar questões sem fixar respostas. Poucos filmes possuem essa capacidade de interagir com o espectador, ao deixar as reflexões para o público, numa época de facilitação narrativa e explicações excessivas por parte dos roteiristas e realizadores. Não chega a ser um tão impactante quanto O Exorcista, nem acho que tenha sido o interesse da produção, haja vista a mudança de foco na abordagem do tema: um filme de terror sofisticado realizado como drama de tribunal. Outro ponto positivo: ganha por não ser panfletário.

O Exorcismo de Emily Rose (Emily Rose, Estados Unidos – 2005)
Direção: Scott Derrickson
Roteiro: Scott Derrickson e Paul Harris Boardman.
Elenco: Laura Linney, Tom Wilkinson, Jennifer Carpenter, Campbel Scott, Clon Feore, Mary Black, Joshua Close, Duncan Fraser.
Duração: 119 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.