Crítica | O Exorcista 2 – O Herege

O Exorcista 2

estrelas 0,5

Um roteiro reescrito quase cinco vezes. Diversas tentativas de filmar nas locações originais fracassadas por questões políticas ou pessoais entre produtores e locatários. 2.500 gafanhotos importados da Inglaterra mortos por não suportarem as mudanças climáticas. O editor John Herritt demitido, dando lugar para Tom Priestly. Membros da produção doentes e problemas de condução na captação de imagens. Diante de tantos problemas, tinha como dar certo?

Este é o questionamento diante desta sequência da adaptação de um dos livros mais assustadores do século XX, O Exorcista, de William Peter Blatty. Se lembrarmos dos percalços William Friedkin no “original” ou até mesmo as dificuldades de Steven Spielberg em Tubarão, veremos que problemas de bastidores nem sempre ganham ressonância em seus filmes. Ao contrário, em alguns casos, os potencializam. Este, portanto, não foi o caso de O Exorcista 2 – O Herege.

A produção é tão ruim, mas é tão ruim, que a vontade que se tem é a de pular do clássico de 1974 e escrever sobre o razoável O Exorcista 3, lançado em 1990. Sonolento, insosso e com uma narrativa investigativa pouco instigante, a sequência de um dos melhores filmes de terror de todos os tempos é abominável não no sentido demoníaco do tema, mas por seus atributos dramatúrgicos.

Julgar a estética como vulgar, tal como o roteiro e os personagens seria, no mínimo, pouco ético da minha parte. O Exorcista 2 – O Herege consegue enquadrar bem alguns momentos, possui uma trilha tribal, assinada pelo quase sempre ótimo Ennio Morricone, que se não soma muita coisa, ao menos não sublinha de forma incomoda. As qualidades do filme param por aqui. Ademais, tudo é muito ruim, mal conduzido, em suma, uma piada “demoníaca”.

Vamos aos fatos: Regan esqueceu todos os acontecimentos do tenebroso exorcismo realizado há quatro anos. Ela utiliza o sapateado e as consultas com a Dra. Gene Tuskin (Louise Fletcher) como terapia para os desconfortos que tomaram conta da sua vida nos últimos anos.

Para resolver os problemas o padre vai até o continente africano em busca de soluções. Ele encontra um doutor anteriormente possuído, personagem que o ajuda a compreender todo o mal e assim combatê-lo. Como se não bastassem os problemas, o coitado precisa lidar com a Igreja, pois devido aos registros de escrita analisados pelos membros do circuito católico, o padre Merrin foi considerado herege, pois não era de interesse religioso pensar em possessão na contemporaneidade.

Diante do exposto, caro leitor, pergunte-se se há como sair algo que seja minimamente relevante em meio a toda esta tentativa de forçar a barra e testar a inteligência do público. Diabolicamente ruim, as escolhas do roteiro e a condução da narrativa no processo de produção justificam um filme que nem sequer o demônio deve ter aprovado. Uma sequência só foi realizada em 1990. Com o peso de fazer o público esquecer esta abominação, o terceiro filme da franquia fracassou. Também, convenhamos: isto é algo até compreensível diante da ruindade deste filme herege. O interesse inicial era produzir uma espécie de refilmagem da primeira incursão na vida da personagem Regan. Ao leitor, outro questionamento: o que teria sido pior?

O Exorcista 2 – O Herege (The Exorcist II – The Heretic) – EUA, 1977 
Direção: John Boorman
Roteiro: William Goodhart
Elenco: Richard Burton, Linda Blair, Louise Fletcher, Max von Sydow, Kitty Winn, Paul Henreid, James Earl Jones, Ned Beatty, Belinda Beatty, Rose Portillo, Barbara Cason
Duração: 131 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.