Crítica | O Exorcista, de William Peter Blatty

estrelas 5,0

Amaldiçoado? Como assim? Há uma série de lendas que gravitam em torno do romance e do filme O Exorcista, mas, convenhamos, sobreviver na memória coletiva após quase cinquenta anos de seu lançamento é algo para poucas obras literárias.  Lançado em 1972, no Brasil, pela Editora Nova Fronteira, o livro vendeu tanto que os lucros de Carlos Lacerda, dono do selo, patrocinaram a publicação da primeira edição do Dicionário Aurélio. Diante do exposto, será que dá para pensar em maldição? Vamos adiante para verificar se esta falácia procede.

Publicado em 1971 nos Estados Unidos, o romance ficou mais de um ano na lista dos best-sellers do New York Times, estampando o posto dos mais bem sucedidos daquela safra. Relançado 40 anos depois, numa edição revisada pelo autor, O Exorcista é uma obra que demonstra interesse para os pertencentes às gerações contemporâneas, haja vista o seu caráter visceral e a sua narrativa impetuosamente assustadora.

Como apontou o New York Times na época de seu lançamento, “poucos leitores sairão ilesos”. Em O Exorcista, um padre jesuíta (Merrin) lidera uma escavação arqueológica na região Norte do Iraque, terreno que como já sabemos, é marcado pelas guerras ideológicas entre Oriente e Ocidente (leia-se, especificamente, Estados Unidos). Durante a pesquisa, o padre encontra uma estatueta do demônio Pazuzu, um ícone da cultura suméria.

Após este primeiro encontro “simbólico”, uma série de presságios nos sinaliza que em breve uma batalha contra o mal será algo inevitável. O leitor, ao absorver as revelações em camadas assustadoras, descobrirá, mais tarde, que o padre já teve a sua cota com o maligno, durante um exorcismo realizado na África há algum tempo. Engraçado observar toda a ideologia que atravessa este livro: o “macabro” e o “maligno” está sempre na figura do “outro”, numa leitura política interessante, principalmente aos já introduzidos ao universo discursivo de pensadores contemporâneos, tais como Edward Said, Homi Bhabha e Stuart Hall.

Logo mais, somos informados pelo narrador, que paralelo aos acontecimentos, na cidade de Georgetown, a atriz Chris MacNeil enfrenta um grande problema em sua casa. Desesperada, ela observa a sua filha, Regan MacNeil, ficar doente de maneira inexplicável, numa doença que apresenta sintomas de ordem física e psicológica sem precedentes no seio daquela família. Por falar em família, há algumas lacunas que a história faz questão de apresentar. O pai, ausente, pouco se importa com a adolescente, realizando ligações peremptoriamente. Se a política está nos aspectos contextuais, a ausência do pai para o estabelecimento do maligno também é algo importante para ser observado, refletido e analisado.

Após investigar os problemas envolvendo a família entre médicos e outros especialistas, Chris MacNeil, cética, é obrigada a recorrer ao nebuloso campo da religião, um espaço até então desinteressante, haja vista a sua crença materialista nas coisas. O materialismo da matriarca, por sua vez, não está apenas na casa luxuosa, afinal, nada menos digno para uma atriz de fama no campo da produção cinematográfica. Ela não acreditava, até então, na existência de coisas que não fossem além do mundo físico e palpável.

Ao repensar a sua fé, Chris busca a ajuda de um padre. O desespero aumentou por conta da mudança brusca no comportamento da adolescente. O passo a passo a caminho do horror absoluto, inclusive, é muito bem estruturado: em “Começo”, ruídos, queda brusca da temperatura em alguns cômodos, bem como móveis fora do lugar ao amanhecer demonstram que algo de errado acomete aquele lar. Em “A Beira”, o horror se estabelece com acontecimentos peculiares. A fé abalada do Padre Karras reforça que os problemas são maiores do que possamos imaginar. Em “Abismo”, a história ganha contornos mais sombrios e o ritmo torna-se mais frenético. Algumas subtramas são apresentadas, tais como missas negras e mortes misteriosas, mas nada que atrapalhe o ritmo já estabelecido, ao contrário, afetam o leitor e nos conduz aos arrepios oriundos de toda boa história de horror. É neste trechoque Reagan apresenta-se transformada: diz palavrões inimagináveis e comporta-se de maneira agressiva.

Segundo alguns relatos, o livro originou-se de uma aterrorizante história “real” ocorrida em Mount Rainier, no estado de Maryland. Na época o The Washington Post apresentou o discurso de um padre com detalhes sobre o exorcismo de um menino de 13 anos, chamado Ronald, cujo processo de realização durou extremas seis semanas. Em 1999, por sua vez, o caso reverberou novamente na mídia. Desta vez, o repórter Mark Opsasmick contestou o acontecimento em Mount Rainier, alegando que na verdade os fatos se sucederam em Cottage City.

No artigo “O menino assombrado de Cottage City: os fatos por trás da história que inspirou O Exorcista”, o jornalista apresenta os relatos de um padre que supostamente teria participado do exorcismo e alegado que não houve alteração de voz, nem vômito, nem urina excessiva ou xenoglossia (voz imitando latim). Segundo a abordagem do texto, há indícios de que sequer tenha ocorrido a dita possessão demoníaca. Em suma, mais um tentando lucrar em cima do interesse coletivo acerca de o clássico.

Como apontado em um trecho do livro “acredito que o objetivo é fazer com que nos desesperemos, que rejeitemos nossa humanidade e que vejamos a nós mesmos como bestas, maus, podres, horrorosos e indignos”. O livro, bem como o filme, traz alegorias sobre a condição da humanidade diante dos absurdos que ocorreram no século XX: guerras, violação dos diretos humanos, violência, assuntos que se complementam e formam uma massa exemplar para se discutir o que Freud chamou de “mal-estar da civilização”. Independente destes textos que tentam desvendar questões acerca do livro, pouco interessa: O Exorcista está aí, é memória viva do cinema, ainda assusta leitores ao redor do mundo e será referência imediata ao se discutir exorcismo e possessão demoníaca.

No que tange aos aspectos literários, O Exorcista merece algumas observações elogiosas. Primeiro, delineia muito bem os seus personagens. A crise envolvendo a fé do Padre Karras é muito bem desenvolvida e acrescenta tensão ao processo de exorcismo. Os perfis de mãe e filha também são bem estruturados, pois os personagens evoluem. Se olharmos detidamente, além das afetações por conta do sentimento de pânico que a narrativa nos envolve, perceberemos que muito além de uma história de horror (a superfície), estamos diante de uma história de amor, de culpa, de redenção e do velho embate entre o bem e o mal.

Outro ponto literário que merece destaque é a escrita de William Peter Blatty. Mesmo utilizando o tom policialesco fruto da sua herança literária, ele tem o privilégio de não emular os estilos de H.P. Lovecraft ou Edgar Allan Poe, escritores que estão nas memórias, camisas, faixas e slogans de quase todos os autores de terror do século XX. Envolvente, a leitura envolve de uma maneira que a catarse é constante, não apenas fruto de uma “curva dramática” esquemática de finais de histórias.

Se há um problema, este não é detidamente algo do autor em específico. É uma questão de ordem cultural. Como apontado anteriormente, as séries, filmes e a literatura ocidental costuma utilizar elementos de culturas ditas “tropicais” e ”excêntricas” para compor o mote das suas histórias. Observe, se você já não refletiu sobre esta questão antes, como os filmes envolvendo questões demoníacas ou sobrenaturais são construídos com base em amuletos, espelhos, caixas, anéis ou objetos oriundos do México, do Chile, do Peru, da Coréia do Norte (e do Sul), do Iraque, de Cuba e até mesmo do Brasil. Para alguns, isso passa despercebido, mas esteja atento. É ideologia pura, entretanto, nada que impeça a relação de prazer entre a obra e o receptor.

O diabo, ente infernal representado nas artes desde o Inferno Dantesco, ao mundo de quem veste Prada, não foi o foco desta vez. Alguns confundem, por sinal. A possessão é de ordem demoníaca e o culpado é Pazuzu, senhor dos ventos, figura mitológica assíria e babilônica que segundo relatos, era responsável pela fome, pela seca e pelo envio de gafanhotos em dias chuvosos. Quer mais? Pois observe: a sua representação profanava a imagem humana e apresentava como uma colagem de partes de diversos animais. Monstruoso, animalesco e assustado, não é mesmo, caro leitor?

Graças ao sucesso literário, O Exorcista tornou-se um filme de sucesso, por sinal, uma das raras aparições do gênero terror na tradicional cerimônia anual do Oscar. O filme ganhou as estatuetas de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Som, além de ter sido indicado a diversos prêmios, entre eles, Melhor Filme e Melhor Diretor. Menção honrosa, não? Ainda pensando em maldição? O material mostra-se tão rentável que se tornou uma (questionável) franquia e recentemente estreou como série televisiva.

O Exorcista (The Exorcist) – EUA, 1971
Autor: William Peter Blatty
Publicação: Editora Nova Fronteira, 1972
Páginas: 320

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.