Crítica | O Exterminador do Futuro: Gênesis

estrelas 3

Após o retumbante fracasso de O Exterminador do Futuro: A Salvação, aparentava que a franquia já estava, efetivamente, morta e enterrada, claramente incapaz de nos trazer o que James Cameron nos proporcionou nos dois primeiros. Hollywood, contudo, não desiste e a série se tornou mais uma das vítimas das incessantes continuações, remakes, reboots e revivalsGênesis chega como um pouco dos três, procurando oferecer um novo sopro de vida para essa saga de Sarah e John Connor, tentando resgatar conceitos utilizados principalmente em Exterminador do FuturoO Julgamento Final e mesclando seus icônicos elementos a fim de criar um híbrido que traz a franquia para os padrões da atualidade.

Antes de entrar na mudança, porém, o filme nos oferece um breve resumo da história de como as máquinas tomaram conta do mundo. Narrado por Kyle Reese (Jai Courtney) – que se tornaria o pai de John, enviado no primeiro filme para proteger Sarah – acompanhamos a queda da humanidade e o surgimento das primeiras chamas da esperança. O flashback nos leva até um ponto crucial dentro da mitologia criada anos e anos atrás por Cameron: o envio de um exterminador para o passado e a subsequente viagem de Kyle. Ao chegar em seu destino final, porém, ele descobre que alguns elementos estão diferentes e pouco a pouco percebe que o passado para o qual ele fora enviado não é mais aquele que crescera ouvindo falar da boca do líder da resistência.

Gênesis, portanto, logo em seu terço inicial traz uma emblemática mudança dentro de tudo que fora apresentado em seus antecessores: trata-se de um novo começo (como o próprio título deixa bastante claro) e, principalmente, uma nova possibilidade para o futuro. Em termos de conceitos, o longa consegue resgatar tons muito similares àqueles utilizados nos dois primeiros filmes – a sensação de urgência é mantida através de diferentes frontes, engajando o espectador em algo mais que o simples espetáculo visual. Um ponto específico que chama a atenção é a constante criação de paradoxos, gerando um vínculo imediato com O Exterminador do Futuro e o romance entre Sarah e Kyle. Inclusive, tal ponto é utilizado especificamente como um dos alívios cômicos da obra, que não se limita a intermináveis referências. Nesse aspecto, o roteiro de Laeta Kalogridis e Patrick Lussier sabe manter a fluidez da narrativa, sabe resgatar o que veio antes sem cair nos velhos easter-eggs, fazendo do passado um essencial ponto dentro dessa nova trama a ser construída.

Nem tudo, porém, funciona nessa reconstrução. A utilização de Schwarzenegger em CGI na tentativa de recriar sua primeira aparição na franquia chega a ser risível, algo evidentemente computadorizado que acaba quebrando a imersão do espectador, por mais que a nostalgia seja automaticamente ativada. Felizmente, ele se limita aos primeiros minutos da obra, possibilitando que nosso engajamento seja resgatado. O curioso é notar como o ator se tornou um símbolo dentro da própria franquia, ao ponto que todos os outros atores são trocados e ele continua no “mesmo” papel.

A troca, naturalmente, é suavizada pelo trabalho de direção de Alan Taylor, responsável por Thor: O Mundo Sombrio e alguns episódios de Game of Thrones. Emilia Clarke, como a nova Sarah Connornada mais é que uma amálgama da personagem nos dois primeiros filmes e a atriz consegue efetivamente encarnar a icônica guerreira, ainda que não tão bem quanto Lena Headey (curiosamente, mais uma da série da HBO) em The Sarah Connor Chronicles. Jai Courtney, porém não foge do típico herói de filme de ação, não trazendo nada de novo para a franquia.

O grande problema presente em Gênesis, contudo, não está na retratação dos personagens e sim na forma como são utilizados, ou melhor, subutilizados. Sarah simplesmente não desempenha qualquer papel narrativo e meramente “acompanha” o filme devido à sua importância na mitologia criada por James Cameron. Inúmeras vezes a real importância parece residir no exterminador interpretado por Schwarzenegger, o único com ações relevantes na maior parte da obra. O cúmulo, porém, é a escalação de J.K. Simmons como um policial que poderia ter sido completamente cortado do roteiro, fazendo sua aparição soar como mais uma jogada de marketing devido ao sucesso de Whiplash. O único que efetivamente nos chama atenção (além de Arnold) é o próprio John Connor, interpretado por Jason Clarke, que garante uma maior profundidade ao personagem, mas não posso dizer mais para não estragar surpresas dentro da obra.

A presença desses personagens vazios em valor narrativo acaba criando uma evidente dilatação no longa, trazendo constantes cenas sem qualquer importância que acabam servindo apenas como espetáculo visual, apoiando-se, naturalmente, nas maiores possibilidades que os recursos atuais permitem, mas nada que consiga nos engajar como a icônica perseguição em O Julgamento Final. Com tal aspecto em mente, o filme não chega a nos cansar; ele oferece o básico divertimento de um cinema pipoca, mas falha em trazer a profundidade que esperávamos ser retomada das origens da franquia.

Gênesis abre portas para uma continuação da série de ficção científica, mas o faz de maneira que beira o vazio. Trata-se de uma obra que, em última instância, em nada acrescenta. Ela realiza, sim, críticas à sociedade atual, o stay connected que domina nossas vidas, mas o faz de maneira superficial, soando mais como uma utilização conveniente da atualidade a fim de atingir mais espectadores. Dito isso, ainda se trata da melhor continuação de O Exterminador do Futuro 2, algo que, infelizmente, não é dizer muito.

 O Exterminador do Futuro: Gênesis (Terminator Genisys – EUA, 2015)
Direção:
Alan Taylor
Roteiro: Laeta Kalogridis, Patrick Lussier
Elenco: Arnold Schwarzenegger, Jason Clarke, Emilia Clarke, Jai Courtney, J.K. Simmons, Matt Smith, Dayo Okeniyi, Courtney B. Vance
Duração: 126 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.