Crítica | O Exterminador do Futuro

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers do filme (e de Star Wars também). Se você não viu esse filme e não sabe nada sobre ele, assista-o. Eu o invejo por isso! Depois, volte aqui! 

O Exterminador do Futuro é, sem dúvida alguma, um marco moderno no cinema de ficção científica e, porque não, um marco cinematográfico independente de gêneros. James Cameron que, antes, só havia feito o risível Piranhas 2 – Assassinas Voadoras, mostrou a que veio e abriu caminho para sua invejável carreira na Sétima Arte.

Mas não seria justo comigo mesmo se não iniciasse a presente crítica com um apaixonado relato pessoal. Afinal, críticos não são sempre pessoas frias e distantes como um ciborgue da Skynet que conseguem apagar suas emoções em prol de uma análise técnica. Mas, para quem não tiver paciência para esse tipo de relato, dividi claramente a presente crítica em dois momentos, com títulos auto-explicativos. Portanto, quem quiser ler a crítica propriamente dita, pule para o segundo título abaixo.

A primeira fita VHS você nunca esquece.

Você está aqui lendo essa parte? Bacana! Acompanhe-me por um momento e entenderá  o porquê de minha paixão irrestrita por essa obra-prima, paixão essa que, por definição, vai além do racional e do técnico.

Tinha 12 anos (raios, revelei minha idade!) quando assisti, pela primeira vez, O Exterminador do Futuro nos cinemas do Rio de Janeiro. Fui com amigos, torcendo para que os vigias do cinema não barrassem nossa entrada em razão da tenra idade. Afinal, havíamos visto o trailer e estávamos intrigados com a história, que prometia muito tiroteio, muita morte e muito sangue (éramos crianças em uma época ainda não politicamente correta, ora bolas!). Não fazia ideia quem era James Cameron – diretor não existia para mim naquele tempo! – e conhecia Schwarzenegger por seu marcante papel título em Conan, o Bárbaro, filme que só vira escondido de meus pais na casa de outros parentes mais liberais que tinham o VHS (que, hoje, suspeito que era pirata – vergonha, vergonha!) do filme e nunca mais me esqueci do herói, crucificado, mordendo o pescoço do abutre.

Mas eu divago. O fato é que esperava um outro Conan, dessa vez com um misterioso personagem de óculos escuros e roupa de motoqueiro. Como não existia Internet naquela época (tempos de ouro!) e, portanto, a sana dos caçadores de spoilers não existia, o que tornava segredos perfeitamente possíveis de serem mantidos (sim, só soube que Darth Vader era pai de Luke no momento em que ele solta o “Não, EU sou seu pai” em O Império Contra-Ataca, na sala do cinema e quase tive um treco) pelos estúdios. Portanto, eu não fazia ideia que o Conan fazia, agora, papel de vilão e que a história girava em torno de paradoxos temporais.

Assim, estava no escuro. O pouco que o trailer mostrava – e que havia visto esparsas vezes antes – não deixava entrever nada. E meu horizonte cinematográfico era decididamente limitado. O Exterminador do Futuro foi uma daquelas obras que ampliou esses horizontes para mim e mostrou que a mágica do cinema potencialmente não tinha limites. Sim, adorava e adoro Star Wars, mas uma história de fantasia com heróis heroicos e vilões vilanescos não é nada comparada com os tons de cinza tão brilhantemente colocados à nossa frente por Cameron em seu pequeno, mas ousado, filme. Mesmo que, no final das contas, os mocinhos sejam mocinhos e os vilões sejam vilões em O Exterminador do Futuro, o fato é que as revelações, que vêm com constância até o conflito final, são de tirar o fôlego.

E sem fôlego eu saí do cinema. Sem fôlego e com minha mente fundida, completamente em parafuso e discutindo em voz alta com meus amigos. Confesso que devo ter estragado o final para outros espectadores na fila e, por isso, tardiamente, peço desculpas. E essas conversas e minha absoluta fixação com o filme levaram a novas sessões no cinema e um sentimento de vazio quando ele saiu do cinema. Afinal, àquela época, acesso a filmes fora do circuito cinematográfico basicamente dependia das televisões abertas…

Felizmente, porém, algo como um ano depois, tive a oportunidade de viajar para os EUA e lá me deparei com a fita VHS (é aquela caixa retangular plástica neandertal cheia de fita magnética dentro que mostra imagens de baixa qualidade por intermédio de um aparelho que usa um “cabeçote” para lê-las – mais sobre esse mítico aparato, perguntem a seus pais) à venda em uma loja por lá. Mas, estamos falando da Idade Média do vídeo doméstico, uma era em que essas fitas somente eram disponibilizadas para locadoras, por preços altíssimos e não diretamente para os consumidores.

Mesmo assim, não tive dúvidas, troquei todas as minhas possíveis compras durante a viagem por essa fita que, me lembro perfeitamente bem, custou absurdos 60 dólares!!! Voltei feliz da vida com essa preciosidade em minhas mãos (literalmente) e, a partir daí, foram sessões caseiras quase diárias de O Exterminador do Futuro ou mostrando orgulhoso minha aquisição para alguém novo, que não conhecia o filme ou só tinha visto uma vez ou para meu prazer solitário. Decorei as falas todas, do começo ao fim, e, revendo agora para a presente crítica, descobri que, assim como andar de bicicleta, notei que não dá para esquecer o texto desse filme.

E, meus caros leitores, meu relato vai chegando ao fim e ele já permite uma prévia – longa, eu sei – da minha crítica em si, pois separar completamente meus sentimentos nostálgicos dos méritos intrínsecos da obra é absolutamente impossível. Ah, vocês talvez tenham curiosidade em saber que fim levou a fita VHS. Fim nenhum. Ela está aqui comigo, olhando para mim enquanto escrevo. E olha que nem tenho mais videocassete…

A crítica de um fã confesso.

O Cinema tem seus marcos. Claro que qualquer crítico sério delimitaria tais marcos em relação a obras de valor universal como Intolerância, Cidadão Kane, Metrópolis, O Poderoso Chefão e outros clássicos imortais. E eu concordo com isso, apenas tenho um conceito mais elástico do que são esses marcos. Olhando então para o gênero da ficção científica, podemos apontar não só 2001 – Uma Odisseia no Espaço, como a trilogia clássica de Star Wars e, porque não, O Exterminador do Futuro.

Afinal de contas, esse filme foi um dos primeiros que apresentou o perfeito equilíbrio entre ação e ficção científica pura (não fantasia como é o caso de Star Wars), desafiando definições e as barreiras do gênero. Além disso, e talvez mais importante, a fita demonstra que criatividade e inventividade sempre, em qualquer circunstância, serão capazes de suprir orçamentos esquálidos e as limitações resultantes deles. É no revés que vem o improviso e O Exterminador do Futuro é um grande exemplo – dentre vários outros – de como o suor e o trabalho duro podem marcar a arte.

Nascido de um pesadelo de Cameron sobre um torso metálico saindo do fogo que teve em Roma, quando estava em campanha de lançamento de Piranhas 2, O Exterminador do Futuro teve sua ideia inicial rejeitada pelo próprio agente do diretor, que foi, ato contínuo, demitido. O visionário Cameron (sim, ele o é, mesmo que você não goste dele) não se fez de rogado e continuou seu trabalho, trazendo William Wisher Jr. para co-escrever o roteiro, especialmente as sequências do tiroteio na delegacia e as com Sarah Connor (sozinha ou só com Reese). Sua insistência em “vender” sua ideia chamou atenção de Gale Anne Hurd, que saíra de seu trabalho de assistente executiva de Roger Corman para abrir sua própria empresa, a Pacific Western Productions e que se casaria com Cameron em 1985 e que compraria os direitos do filme por um dólar contra a promessa de produzí-lo. Sua visão (outra visionária) foi a responsável pelo formato final da obra – havia dois Exterminadores vindos do futuro, um de metal líquido, que foi cortado para reduzir os custos e, depois, famosamente reutilizado na continuação – e por seu empacotamento para lançamento. Foi o pontapé inicial da fantástica carreira de Hurd, hoje um dos grandes nomes dos bastidores hollywoodianos.

Vale nota, também, a epopeia de escalação do papel de Kyle Reese, pois a Orion Pictures, produtora que embarcou no projeto graças às ações de Hurd e de Cameron, queria alguém conhecido para o papel. Schwarzenegger, egresso do sucesso de Conan, o Bárbaro, foi chamado para uma audição e Cameron não havia gostado da ideia, mas ficou entusiasmado quando o ator começou a falar sobre o que ele achava não de Reese, mas do Exterminador. Isso e mais um desenho de Schwarzenegger que Cameron fez na hora da entrevista selou o destino do ator austríaco como o ciborgue do futuro em uma das escolhas mais acertadas do Cinema e que fez deslanchar de vez sua carreira (uma anedota: O.J. Simpson foi pensado para o papel, mas foi rejeitado, pois acharam que ele não convenceria como assassino – ironia do destino, não é mesmo?). Com isso, os então razoavelmente desconhecidos Michael Biehn e Linda Hamilton ganharam seus papeis e Lance Henriksen, amigo pessoal de Cameron que queria o papel de Exterminador, acabou ficando somente como um policial.

O roteiro, trabalhado a seis mãos (Cameron, Hurd e Wisher), é um primor de economia narrativa e de enganosa simplicidade. Escondido debaixo de um monte de linguajar do tipo technobabble, o diálogo é um primor de eficiência para passar conceitos interessantíssimos sobre viagens no tempo e dos paradoxos resultantes. Da mesma maneira, sem recorrer a muita exposição (alguma é necessária e inevitável), aprendemos detalhes sobre a sofrida vida de Kyle Reese (Biehn), soldado do futuro que é mandado ao passado para proteger Sarah Connor (Hamilton) de um ciborgue assassino (Schwarzenegger) que quer matá-la pois ela gerará John Connor, o líder da rebelião contra as máquinas.

Vemos o passado (ou seria futuro?) de Reese em flashbacks (ou flashforwards, se olharmos cronologicamente) perfeitamente costurados na trama e inseridos visualmente por Cameron com transições originais e suaves, ora como sonho, ora como “conto de ninar”. Com isso, a história tem um encadeamento lógico, redondo, que se fecha em si mesmo, com a clássica divisão em três terços sendo trabalhada com tamanha fluidez que não é possível despregar os olhos da tela até vermos o jipe de Sarah Connor em direção a uma vindoura tempestade.

Sem dinheiro – o orçamento foi até aumentado de 4 para 6,5 milhões de dólares, mas ainda assim era minguado – Cameron, que trabalhara em diversas capacidades técnicas em sci-fis como Fuga de Nova York, Mercenários das Galáxias, Android Muito Mais Que HumanoGaláxia do Terror, empregou todo seu conhecimento e um grande tino para contratar sua equipe de efeitos especiais para “esticar o dinheiro” e tornar possível e crível, principalmente, um androide vindo do futuro nas telonas. Para isso, fez uso de próteses e maquiagem em Schwarzenegger cujo personagem vai, ao longo do filme, se degradando, se desumanizando mais ainda até tornar-se só máquina, além de um trabalho em stop-motion de se tirar o chapéu, que perfeitamente se mescla com a “ação real”.

Concordarei com quem disser que os efeitos, hoje, não se sustentam. Claro, para um mundo acostumado com os (chatos e banais) efeitos em computação gráfica, realmente o que vemos em O Exterminador do Futuro é algo antiquado. Mas não é assim que se mede um filme desses. Ele deve ser visto pela sua qualidade à época e pelo tempo que ele durou como uma obra de ponta, especialmente se, nesse cálculo, levarmos em conta o parco orçamento disponível. Além disso, desafio alguém a rever as sequências em que o ciborgue T-800 se auto-conserta em um apartamento sem se arrepiar e desviar o olhar mesmo que por um centésimo de segundo. É a mágica do cinema em toda sua latitude.

A imersão no drama de Sarah Connor é total desde que a vemos livre, leve e solta em sua scooter, com um sorriso no rosto. Queremos saber o que aqueles dois homens pelados que apareceram logo antes querem com ela. Quem é o vilão? Quem é o mocinho? Que tipo de história está sendo contada? As revelações a conta-gotas – mas nunca lentas ou arrastadas – suprem qualquer problema que exista mesmo hoje com os efeitos especiais.

O mesmo vale para a montagem de Mark Goldblatt que continuaria com Cameron em O Exterminador do Futuro 2 e faria, depois, a montagem de X-Men – O Confronto Final e de Planeta dos Macacos – A Origem. Ele, compassadamente, oscila entre ação e calmaria, com cortes longos que nunca atrapalham a compreensão da ação e deixam o espectador na beirada da cadeira – ou sofá – o tempo todo a partir do efetivo começo da ação. A fotografia de Adam Greenberg, escurecida para mascarar os problemas nos efeitos visuais, mas bem elaborada para manter o suspense, não tem arroubos de criatividade só que funciona para transmitir a ideia de desesperança que Cameron precisava.

A trilha sonora composta pelo pouco conhecido Brad Fiedel (Exterminador 2 e True Lies) é fortemente dependente de sintetizadores para passar aspectos inumanos, estranhos mesmos à narrativa, com a icônica música de abertura com “marteladas” metálicas meio que ecoando a sequência final na fábrica e, claro, uma espécie de “coração de ferro” para o T-800. É um trabalho simples, mas absolutamente cativante e que funciona mesmo quando a escutamos fora do filme, graças ao uso de leit motifs identificadores dos personagens e de determinadas situações.

No quesito atuações, há que se falar, sem dúvida, de Schwarzenegger. Ele nunca foi um grande ator – longe disso até – mas não se pode negar seu magnetismo, seu carisma. E, como um ciborgue assassino, ele, definitivamente, encontrou seu lar, fazendo até mesmo seu forte sotaque austríaco funcionar de alguma forma como a voz de um robô, talvez pelo estranhamento que causa. Hamilton (que também foi esposa de Cameron, depois de Hurd) e Biehn, da mesma maneira, nunca se destacaram em seus trabalhos dramáticos, mas, aqui, a dupla não só tem química perfeita, como passam a urgência e a ansiedade que seus papeis necessitam, um trabalho que reputo parte à Cameron, por não se furtar em trabalhar ângulos estranhos – normalmente de baixo – e close-ups pouco gentis, mas que fazem nossos corações baterem no ritmo do desespero deles.

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O Exterminador do Futuro pode não ser para todos os gostos (será?), mas ele certamente deixou sua marca em quem o assistiu e deixará em quem ainda não tiver tido esse prazer e decidir se aventurar por essa ficção científica. Simplesmente não dá para passar incólume pela experiência.

O Exterminador do Futuro (The Terminator, EUA – 1984)
Direção: James Cameron
Roteiro: James Cameron, Gale Anne Hurd, William Wisher Jr.
Elenco: Arnold Schwarzenegger, Michael Biehn, Linda Hamilton, Paul Winfield, Lance Henriksen, Rick Rossovich, Bess Motta, Earl Boen, Dick Miller, Shawn Schepps, Franco Columbu, Bill Paxton, Brian Thompson
Duração: 107 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.