Crítica | O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

estrelas 5,0

No início de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, o nascimento da protagonista é apresentado junto de outros eventos simplistas como, por exemplo, copos flutuando sobre uma toalha ao vento. Ou seja, o filme dá o mesmo valor para ambos os acontecimentos, mesmo que tenham importâncias diferentes para a narrativa. Essa rápida passagem serve para mostrar uma das mensagens do filme: há beleza também nos pequenos detalhes da vida. Detalhes dos quais esta obra é recheada.

O filme, dirigido por Jean-Pierre Jeunet, conta a história de Amélie (Audrey Tautou), que certo dia encontra uma caixa escondida no banheiro de seu apartamento. Ao entregá-la para o antigo dono, fica impressionada ao ver a emoção do mesmo. A partir daí ela passa a fazer pequenos gestos de caridade para as pessoas que a rodeia.

O longa aborda vários tipos de amor: o platônico, entre um homem ciumento e sua amada; o amor ao próximo, exemplificado em pequenos gestos de caridade; e o amor próprio, como o de um velhinho por suas obras de arte. A montagem intercala bem esses tipos de afeto, dando a mesma importância para todos. Transmitindo que o importante é amar, independente de que maneira.

Com uma temática tão romântica como esta, a fotografia apresenta-se alegre, usando uma paleta baseada no vermelho, verde e amarelo. As cores são saturadas, colorindo os planos como se fossem pinturas. Porém, o diretor de fotografia Bruno Delbonnel também intercala tons mais escuros. Repare como as cores do quadro tornam-se mais escuras, com muitas sombras, quando a protagonista planeja sua vingança contra o dono da venda de verduras, permitindo que o público entenda a mudança no tom de Amélie.

A direção de arte dá leveza ao filme, com cenários sempre coloridos e decorados com objetos chamativos. Todos os ambientes representam a personalidade de seus proprietários, como por exemplo, o apartamento de Amélie que é todo vermelho, a cor do amor, escolha que cria um universo aconchegante e atraente para quem assiste.

Essa formosura também é ressaltada pelo ótimo trabalho de edição e mixagem de som, que enfatiza sons normalmente ignorados no dia a dia, dando encanto para momentos simples, como moedas caindo em uma máquina ou uma tigela de leite batendo em uma superfície. A mesma edição, porém, usa o silêncio quando necessário, como no encontro entre Amélie e Nino. Ali, só o som do beijo deles é ouvido. O carinho entre os dois é a beleza daquele instante.

O roteiro, escrito por Jeunet e Guillaume Laurant, tem a sensibilidade de apresentar não apenas a história principal com importância, mas também subtramas envolventes. Ou seja, todos os personagens são importantes, sendo eficiente apresentá-los destacando suas manias, como gostar de esvaziar a bolsa para preenchê-la depois, o que cria intimidade com o público instantaneamente, recurso para não permitir que o filme fique arrastado ou monótono. E claro, o roteiro também mostra que na vida, todas as pessoas tem o seu valor.

Mas é Amélie que se destaca, interpretada de forma contida por Audrey Tautou. Ela consegue mostrar toda a doçura e bondade da protagonista. A atriz cria uma composição onde sua personagem sempre fala com a voz baixa, esboça sorrisos tímidos e se expressa mais por olhares, mostrando a dificuldade da personagem em dizer o que sente. A protagonista é geralmente filmada em close-ups médios que além de destacar sua atuação, também permite que o público se envolva rapidamente com ela. Com isso, todas as nuances de seu comportamento são rapidamente transmitidas, criando intimidade com quem assiste. Graças a esses detalhes o filme consegue equilibrar bem seus conceitos técnicos, unindo todos de forma orgânica. Eles estão ali para ajudar a contar a história, não apenas por motivos estéticos.

Além de ser visualmente impecável, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain é inspirador, destaca a beleza nos detalhes e ensina que os verdadeiros prazeres da vida podem estar em pequenos momentos do cotidiano. Além disso, a obra transpira otimismo, com uma história onde a personagem principal é beneficiada por seus atos de caridade, mostrando que na vida, para sermos felizes, precisamos agir com amor.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le fabuleux destin d’Amélie Poulain) — França, Alemanha, 2001
Direção: Jean-Pierre Jeunet
Roteiro: Jean-Pierre Jeunet e Guillaume Laurant
Elenco: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Dominique Pinon, Rufus, Urbain Cancelier, Isabelle Nanty e Claire Maurier
Duração: 122 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.