Crítica | O Fantasma da Ópera (1925)

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Em 1925, a Universal Studios ainda não possuía o título de “Casa dos Monstros” que adquiriria com seu ciclo de filmes de terror na década de 30, que tem em Drácula de 1931 o seu marco inicial. Entretanto, antes dos filmes produzidos por Carl Laemmle Jr. ligarem definitivamente o estúdio ao gênero terror, Carl Laemmle já havia dado os primeiros passos ao adaptar o clássico romance O Fantasma da Ópera, na primeira das muitas adaptações hollywoodianas da obra de Gaston Leroux.

Escrito por Elliot J. Clawson e Raymond L. Schrock, O Fantasma da Ópera acompanha a jovem corista Christine Daee, que conseguiu uma vaga na Ópera de Paris. A nova administração do espetáculo está preocupada com os rumores que correm entre os velhos funcionários a respeito de um fantasma que habita a Casa de Ópera. Enquanto Christine se vê diante do dilema de aceitar o pedido de casamento de seu namorado Raoul, o misterioso Fantasma parece decidido a transformar a moça na Prima Donna da Ópera de Paris, por qualquer meio necessário.

O filme dirigido por Rupert Julian teve uma produção bastante atribulada. Julian teria entrado em conflito com grande parte da equipe, incluindo o astro do filme, Lon Chaney. Após o filme pronto, um corte inicial não agradou os produtores, que pediram refilmagens, incluindo todo o 3º ato (algo extremamente raro pela época pelo custo de se filmar em película). Mas apesar da produção conturbada, O Fantasma da Ópera foi muito bem recebido pela crítica e pelo público da época, gerando grande lucro para a Universal, e sendo considerado um clássico nos anos seguintes.

Não há como falar do filme sem enaltecer a grande atuação de Chaney como o personagem-título. Sem mostrar o rosto por grande parte da produção, o ator transmite grande parte das emoções de seu personagem através do trabalho de expressão corporal, sem nunca soar excessivamente teatral (e estamos falando de um filme silencioso aqui!). A maquiagem para o rosto cadavérico de Erik, a verdadeira identidade do Fantasma, criada pelo próprio Chaney, é outro trunfo do projeto, dando força para a alcunha de “O Homem das Mil Faces” que o ator possuía na época. O momento em que Christine desmascara Erik enquanto ele toca o seu órgão e vemos o seu rosto pela primeira vez continua sendo extremamente assustador, e ainda é capaz de provocar choque no público pelos detalhes da maquiagem, lembrando um verdadeiro crânio vivo.

Embora o filme foque o seu conflito principal no triangulo amoroso formado por Erik, Christine, e Raoul, o terceiro não tem grandes conflitos, servindo apenas para tensionar a relação entre o Fantasma e sua amada, já que a relação de Erik e Christine parece ser capaz de despertar o pior e o melhor em cada um deles. O Fantasma se apresenta a Christine como uma voz misteriosa, que ela chama de “O Espírito da Música”, e lhe oferece treinamento e promessas para que sua carreira vá mais longe do que a de qualquer outra corista. Christine mostra-se pronta para “servir ao espírito”, nas próprias palavras, e seguir as suas orientações, mesmo que não faça a mínima ideia de quem ele seja. Não parece coincidência que a Ópera para a qual Christine está tentando conseguir o papel principal seja justamente Fausto, que aborda acordos com forças obscuras.

O roteiro também aborda Erik como uma figura bastante dúbia. Ele é um erudito, um amante das artes que sinceramente vê potencial em Christine, e se comporta como um perfeito cavalheiro na maior parte do tempo. Através do Inspetor Ledoux, um persa que persegue o Fantasma há anos, são dadas somente algumas pistas do passado de Erik e de como ele veio a se isolar nas catacumbas sob a Ópera de Paris. As informações são poucas, mas o suficiente para percebermos que Erik era um gênio, tratado como um monstro por sua deformidade facial.

Mas na já citada cena em que Christine desmascara Erik, não é somente a sua “feiura externa” que vem a tona quando o seu rosto é revelado, mas os aspectos mais violentos e mesquinhos de sua personalidade, já que ele claramente vê Christine não como uma pessoa, mas como sua propriedade. Mais uma vez, deve-se elogiar o trabalho corporal de Chaney, que durante estas cenas mais violentas substitui os então delicados gestos do personagem título por movimentos mais brutais, aproximando-se de forma ameaçadora de suas vítimas, revelando assim a mente insana que se esconde por trás do erudito. Ainda nos aspectos técnicos, deve-se destacar o trabalho de cenografia de Ben Caray (que de fato trabalhou na Ópera de Paris) que recriou nos estúdios da Universal o templo francês da música de forma grandiosa, ressaltando a opulência do local, enquanto o covil do fantasma transmite beleza, mas ao mesmo tempo ameaça com seus intermináveis túneis iluminados pela luz refletida no rio que corta o local.

Apesar de ter se mostrado um profissional difícil, não podemos tirar o mérito do diretor Rupert Julian. Durante o 1º ato, ele consegue manter o mistério em torno da figura do Fantasma de forma inquietante, ao mostrar somente a sombra de Erik projetada na parede quando conversa com Christine, ou ao enquadrar o temido camarote número cinco, habitado pelo Fantasma, segundo os funcionários, em um contra plongée, que reforça a ameaça. A cena em que o Fantasma, empoleirado no ponto mais alto do terraço da Casa de Ópera (usando um figurino que remete esteticamente á obra A Mascara da Morte Vermelha, o que também se comunica com a narrativa) ouve os planos de fuga de Raoul e Christine também é digna de nota pela sua beleza visual.

Infelizmente, a trilha sonora original composta por Gustav Himrichs foi completamente perdida. Quem tentar assistir ao filme, provavelmente vai encontrar diferentes partituras musicais acompanhando as versões que achar da película, mas recomendo versão lançada oficialmente pela Universal, que faz um uso excelente da Sinfonia Inacabada de Schubert, e tem tudo a ver com o filme.

O Fantasma da Ópera continua a ser uma das melhores adaptações da obra de Gaston Leroux e, diferente de outras versões, não romantiza excessivamente a perturbadora relação entre Erik e Christine. Quem acha filmes silenciosos chatos, deveria conferir este fantástico trabalho de Rupert Julian, que conta com uma das melhores atuações de Lon Chaney e uma maquiagem que continua aterradora, dando de dez em muita maquiagem digital dos dias de hoje. A obra é uma jornada trágica, mas deliciosa pelo sombrio mundo do Fantasma da Ópera.

O Fantasma da Ópera (The Phantom Of The Opera) EUA, 1925.
Direção: Rupert Julian
Roteiro: Elliot J. Clawson, Raymon L. Schrock (baseado em romance de Gaston Leroux).
Elenco: Lon Chaney, Mary Philbin, Norman Kerry, Arthur Edmund Carewe, Gibson Gowland, Snitz Edwards, Virginia Pearson, Mary Fabian.
Duração: 106 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.