Crítica | O Fantasma do Futuro 2: A Inocência (Ghost in the Shell 2)

estrelas 3

Ao terminar de assistir Ghost in the Shell é praticamente impensável sequer cogitar uma sequência  para a obra. Por mais que o mangá tenha gerado algumas continuações ao longo dos anos, sua adaptação para anime em longa-metragem se estabelece como um filme perfeitamente fechado em si próprio, com um desfecho que deliciosamente deixa brechas para a especulação do espectador, forçando-o a refletir sobre as questões filosóficas levantadas pela obra. Apesar disso, quase dez anos após o lançamento do original, Mamoru Oshii, diretor da primeira animação, elaborou um roteiro e dirigiu a história que daria continuidade aos eventos vistos em O Fantasma do Futuro, sabiamente, porém, ele sabe criar a distância necessária entre as duas obras, ainda que não consiga reviver o brilho que tornara Ghost in the Shell um clássico moderno.

Dessa vez a história é focada em Batou (Akio Ôtsuka), ex-parceiro de Motoko Kusanagi, que desaparecera após seu fatídico encontro com o Mestre das Marionetes no longa anterior. Ao contrário do homem que funcionava como o suporte de Kusanagi no antecessor, encontramos ele claramente desmotivado, demonstrando dúvidas existenciais similares àquelas que assolavam a major. Ele ainda, contudo, trabalha para a Seção 9 e agora investiga uma série de assassinatos cometidos por robôs, aparentemente todos vindos da mesma companhia.

O grande questionamento sobre o que é a vida, presente no primeiro filme, retorna, naturalmente, aqui. Mais de uma vez essa dúvida aparece através dos diálogos dos personagens e Batou serve como um excelente protagonista, que garante a identidade própria dessa sequência, permitindo que ela não fique apenas às sombras do original. Infelizmente, da mesma forma que os diálogos aprofundam as questões filosóficas levantadas pelo roteiro, eles prejudicam o andamento da narrativa consideravelmente, visto que trazem dezenas de citações em praticamente todas as conversas que cansam o espectador e denotam um texto mais preguiçoso, ao passo que simplesmente copia e cola tais trechos de outros pensadores, ao invés de garantir o discurso próprio de seus personagens.

Inevitavelmente isso gera um profundo cansaço no espectador – o excesso se torna cada vez mais evidente, quebrando nossa imersão a tal ponto que a progressão da história se torna confusa, afinal, tais citações não foram feitas para o filme e, ao serem aproveitadas, nem sempre atuam a favor da fluidez dos diálogos, tão essenciais para a construção dos personagens e da trama em si. Da mesma forma que o anterior a atenção requisitada da audiência é a máxima possível, mas não nos vemos tão cativados ao ponto de efetivamente conseguirmos atingir esse nível de concentração – em virtude disso, por vezes, os acontecimentos soam desconexos, pulando de um ponto para o outro sem uma aparente justificativa e apenas posteriormente realmente entendemos o que se passa em tela.

Felizmente, contrabalanceando esse fator, temos o fantástico uso da computação gráfica para fluidizar a animação tradicional, algo que já fora realizado no primeiro filme, mas que, aqui, é utilizado de maneira mais constante. Essa característica do longa podemos enxergar com clareza nos movimentos dos personagens. Ainda que alguns aspectos do CGI soem datados, especialmente quando vemos planos compostos apenas por isso, a grande maioria de Ghost in the Shell 2 é um verdadeiro espetáculo visual, com sequências de ação verdadeiramente dinâmicas e uma construção de cenários imersiva, captando nosso olhar de forma imediata. O uso da animação digital ainda favorece todo esse universo cyberpunk ao dar toques neon às cores da cidade que rodeia os personagens.

O Fantasma do Futuro 2: A Inocência, portanto, está muito aquém do clássico original, trabalhando com uma trama que é claramente prejudicada pelo seu apoio em um excesso de citações que criam desconforto no espectador. Ainda assim, se trata de uma obra com um visual distinto, tendo seu valor sedimentado justamente por essa qualidade. É uma sequência que mantém o grande questionamento do original, ao mesmo tempo que sabe se distanciar de seu antecessor, mas que falha em alçar voo – dessa forma, mantemos nossa opinião inicial: Ghost in the Shell não precisava de uma continuação

O Fantasma do Futuro 2: A Inocência (Ghost in the Shell 2: Innocence) — Japão, 2004
Direção:
 Mamoru Oshii
Roteiro: Mamoru Oshii (baseado no mangá de Masamune Shirow)
Elenco: Akio Ôtsuka, Atsuko Tanaka, Kôichi Yamadera, Tamio Ôki, Yutaka Nakano, Naoto Takenaka, Gou Aoba
Duração: 100 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.