Crítica | O Filho da Noiva

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Vivemos em uma sociedade onde tudo fica mais rápido a cada segundo que passa e, por ser inevitável, nos vemos obrigados a acompanhar esse ritmo alucinante. Até que ponto, entretanto, podemos lidar com isso sem deixarmos o que realmente importa de lado? Até que ponto vale abdicarmos da família, amigos, amores e até mesmo da saúde para construir uma carreira sólida, com estabilidade financeira e provar que somos alguém respeitável? Esse é o principal questionamento que traz o estupendo filme argentino O Filho da Noiva, uma produção extremamente tocante e bem executada por seus idealizadores.

Rafael Belvedere (Ricardo Darín) é um homem de 42 anos, separado, pai de uma menina e que administra o restaurante Belvedere, construído por seus pais, Nino (Héctor Alterio) e Norma (Norma Aleandro) Belvedere, décadas atrás. Enquanto lida com a frenética rotina do estabelecimento, atendendo clientes, fornecedores, bancos e um grupo empresarial interessado em comprar o local, Rafael precisa dar atenção para sua namorada Naty (Natalia Verbeke), manter uma relação minimamente civilizada com sua ex-esposa Sandra (Claudia Fontán), para o melhor desenvolvimento de sua filha Victoria (Gimena Nóbile); ocupar-se com o ressurgimento de Juan Carlos (Eduardo Blanco), um amigo de infância que não via há décadas, ao mesmo tempo que cuida de seus pais e com a doença de Alzheimer que sua mãe enfrenta, algo que dificulta ainda mais a já conturbada relação de mãe e filho.

Dirigido por Juan José Campanella (O Segredo dos Seus Olhos, O Clube da Lua), o longa segue com extrema competência a cartilha de como um bom filme deve ser realizado em todos os aspectos cinematográficos, algo que o torna ainda mais encantador. Desde um roteiro bem desenvolvido, coeso e amarrado até as atuações maravilhosas dos atores, com destaque para Norma Aleandro que atua de forma tão convincente a ponto de questionarmos se realmente não sofre de Alzheimer, o filme é uma bela amostra do já tão rico cinema argentino.

E como falar das atuações sem citar o sempre ótimo Ricardo Darín? O ator, que já é figurinha carimbada em dezenas de belíssimos filmes argentinos desde o início dos anos 2000, nos dá, mais uma vez, uma demonstração de todo o seu talento diante das câmeras. Seja na cena em que Rafael sofre um enfarte devido a toda pressão, stress e até mágoas que acumula há bastante tempo ou quando tem um diálogo franco e emocionante com sua mãe, no qual confessa tudo o que sempre quis: ser alguém na vida e deixá-la orgulhosa do filho que tem, expressando todo seu amor, carinho e admiração. Como protagonista da película, Darín nos faz crer e torcer para que seu personagem opte pelas melhores escolhas e consiga atingir seus objetivos da melhor maneira possível. Uma atuação primorosa.

A trilha sonora de Ángel Illarramendi, apesar de aparecer pouco, faz parte das cenas mais marcantes e fortes do longa, acrescentando muito sentimento mesmo que de forma sutil. É uma tarefa dificílima não sentir apreensão quando Rafael enfarta, não torcer para que ele consiga se reconciliar com Naty debaixo de muita chuva; não encher os olhos d’água quando conversa francamente com sua mãe ou no casamento de seus pais. Em todas essas cenas a trilha sonora marca presença e é como se puxasse as cordas exatas para ativar precisamente cada emoção que o diretor gostaria de passar.

Recheado de grandiosas atuações, um ótimo roteiro e diversos momentos emocionantes (misturado de algumas cenas cômicas), O Filho da Noiva é uma obra tocante e muito bem idealizada que expõe com maestria todos os problemas que podemos adquirir ao nos preocuparmos em excesso com trabalho e esquecermos de viver e nos importar com o que e com quem realmente importa.

O Filho da Noiva (El Hijo de la Novia) — Argentina, Espanha, 2001
Direção: Juan José Campanella
Roteiro: Juan José Campanella, Fernando Castets
Elenco: Ricardo Darín, Norma Aleandro, Héctor Alterio, Eduardo Blanco, Natalia Verbeke, Gimena Nóbile, Claudia Fontán
Duração: 125 min.

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.