Crítica | O Filho de Chucky

estrelas 0,5

Como foi possível observar em A Noiva de Chucky, a franquia Brinquedo Assassino começou a tomar rumos bem diferentes do seu ponto de partida. Gradualmente, o terror foi ficando cada vez mais em segundo plano, dando lugar a uma comédia bastante engessada e mais adequada ao estilo de um gênero que virou febre, durou o que parecia ser uma eternidade e marcou a transição da década de noventa para os anos 2000: o besteirol americano. O roteiro costumeiro do boneco assassino passou a dar espaço ao típico roteiro e paródias. Se A Noiva de Chucky resgata pontualmente uma série de elementos relacionados a filmes de terror consagrados, em O Filho de Chucky o objetivo é extrair o humor parodiando a própria franquia.

Conforme as revelações finais de A Noiva de Chucky, vimos que Tiffany deu a luz a um bebê/boneco/coisa esquisita/ sabe lá o quê. Esse boneco, sem muita explicação que entrelace os fatos, foi parar em Londres, onde virou uma atração em um circo. Desde então, leva uma vida um tanto triste procurando saber quem são seus pais e sua origem. Quando assistiu na televisão que uma equipe estava gravando em Los Angeles um longa baseado nas lendas urbanas que envolvem dois brinquedos assassinos, Chucky e Tiffany, o jovem boneco dá um jeito de escapar do circo e encontrar sua possível família. Ao chegar em LA, o boneco, sem saber, conjura o feitiço que traz seus pais de volta à vida e aí, já é possível prever o que virá pela frente.

A ideia de trazer um filme do Brinquedo Assassino que tenha como enredo central a gravação de um longa baseado nesta mesma história é uma jogada bastante utilizada em outras produções hollywoodianas. Se bem executados, tais recursos metalinguísticos podem até render bons resultados e interessantes perspectivas. Não é o caso de O Filho de Chucky. É interessante assistir a uma Jennifer Tilly, ainda que bastante canastrona, interpretar a si mesma sem o mínimo pudor em revelar a face de uma atriz fracassada, desgostosa em ter que fazer filmes como os do Brinquedo Assassino enquanto já foi indicada a levar um Oscar. O problema é que O Filho de Chucky se perde dentro da própria lógica ao deixar escantear esse eixo narrativo em detrimento de argumentos muito menos interessantes. O filme gasta tempo e nossa paciência ao abordar à exaustão a busca de um sentimento de família, o vício dos assassinatos e a dúvida de identidade de gênero do jovem boneco, que não sabe se é Glen ou Glenda (outra clara referência ao filme Glen & Glenda de 1994).

O terror se perde de uma vez por todas e parece realmente ter ido embora sem deixar rastros. O que vemos em O Filho de Chucky é uma comédia das mais fracas que revelam uma tentativa desesperada de forçar a continuidade de uma franquia que, então, não tinha muito para onde ir. Don Mancini, que dessa vez assina como roteirista e diretor, não tem como ser perdoado. Don, você errou feio, errou rude!

O Filho de Chucky (Seed of Chucky – EUA, 2004)
Direção: Don Mancini.
Roteiro: Don Mancini.
Elenco: Jennifer Tilly, Billy Boyd (voz), Redman, Hannah Spearritt, John Waters e a voz de Brad Dourif.
Duração: 88 min.

FILIPE MONTEIRO . . . O exército vermelho no War, os indianos em Age of Empires, Lannister de Rochedo Casterly. Entrou em órbita terrestre antes que a Estrela da Morte fosse destruída, passou pela Alameda dos Anjos, pernoitou em Azkaban, ajudou a combater o crime em Gotham e andam dizendo por aí que construiu Woodburry. Em uma realidade alternativa, é graduando em Jornalismo, estuda Narrativas e Cultura Popular, gosta de cerveja e tempera coentro com comida.