Crítica | O Filho de Deus

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A história de Jesus já foi contada à exaustão por um grande número de mídias e sob diversos ângulos. Da visão mais questionadora à mais evangelizadora, filmar a vida do Messias se tornou um fetiche bíblico de luxo, quase sempre executado com atores e atrizes muito bonitos e socialmente padronizados, uma espécie de figuração sacrossanta que lembra os arroubos eclesiásticos do Barroco, com toda aquela santidade revestida de uma postura e construção no mínimo estranhas ao que queria representar (lembram-se de O Êxtase de Santa Teresa, de Bernini?).

No caso de O Filho de Deus, essa figuração ‘enfofiza’ tudo relacionado à história bíblica, desde o flerte de José e Maria até a crucificação de Jesus, com planos e fotografia extremamente suaves e confortáveis, uma escolha que faz o espectador menos afeito à estética de veludo se lembrar e sentir falta da Paixão de Mel Gibson, aquilo sim uma versão cinematográfica notável para o trágico e emocionante episódio da morte de Jesus.

No entanto, esses problemas iniciais de concepção estético-narrativas não são tão grandes se comparados à incompetente transformação da dinâmica televisiva na qual o diretor se baseia em um longa metragem com pouco mais de duas horas de duração. O roteiro, assim como o elenco e maior parte da equipe técnica, vêm da minissérie The Bible (2013), que em 10 episódios, adaptou eventos bíblicos da criação do mundo (livro do Gêneses) à destruição do mundo (livro do Apocalipse). Até aí, nenhum problema. Não é a primeira e não será a última vez que um longa se baseia ou deriva de uma série de TV. O problema é que o “efeito colagem” e a completa falta de discernimento lógico do diretor para o que colocar ou não em cena fez de O Filho de Deus um dos piores exercícios de adaptação bíblica já realizados.

As primeiras cenas trazem, na voz de Keith David (sim, temos um narrador!), flashes da criação do mundo, com direito a citação literal dos primeiros versículos do “primeiro livro de Moisés”. E não, você não leu errado. Em um filme chamado O Filho de Deus e cuja função óbvia é mostrar a vida de Jesus, o diretor Christopher Spencer e seus roteiristas resolveram fazer um tour eclesiástico pelas páginas do Pentateuco, trazendo não só a criação do mundo, mas também o evento da tentação de Eva e a consequente expulsão do Paraíso; o assassinado de Abel; o Dilúvio.

Há quem se sinta confortável em argumentar: “ora, mas uma história precisa ser contada desde o começo!”. Bem, se é esse tipo de “começo” a que estamos nos referindo, então vamos começar a fazer qualquer adaptação histórica desde o Big Bang! Imagine você comprar o ingresso para ver um filme sobre Bin Laden e os primeiros dez minutos falarem sobre a Grande Explosão; a formação da Terra; o surgimento da vida nos Oceanos; o surgimento dos primatas e sua grande família; a espécie humana; a invenção da escrita, do metal… Sim, soa tão estúpido quanto fazer um filme sobre Jesus começando do Gêneses.

Fica bastante claro que há uma boa pesquisa histórica por trás da produção e, num ano de épicos bíblicos como se mostra 2014, é natural que os produtores conseguissem financiamento para levar algo assim adiante. Portanto, quando falamos da colocação das personalidades históricas, de Herodes a Pilatos, temos uma correta inserção política e de atitude em cena, bem como todo o figurino romano, real ou cerimonial, com exceção dos figurantes, que aparecem vestindo ou usando coisas que não seriam inventadas ou usadas pelo menos até final do século I d.C.

Quanto à obra, vamos do [real] começo: é até constrangedor ver a rapidez gratuita com que os Reis Magos aparecem no nascimento de Jesus. Parece que eles aparataram ou utilizaram uma TARDIS para chegar a Belém. As elipses narrativas, que são ruins no início, vão piorando cada vez mais até o final do longa. Não há interação dinâmica entre os blocos do enredo (com única exceção à pequena sequência que mostra a morte dos apóstolos, no final); a montagem peca contra a santa lei do fade-out, utilizando mais esse recurso do que planos no filme inteiro; a vida de Jesus é vista em episódios desmembrados e sem nenhuma unidade de transformação psicológica e amadurecimento do personagem, como se ele fosse uma mescla de Ben 10 Divino com Pokémon Celestial, podendo evoluir e se transformar inadvertidamente de uma cena para outra como se isso fosse bastante lógico e normal para qualquer homem.

Devo lembrar aos que sofrem de amnésia teológica que, embora fosse parte da Trindade, Jesus foi um homem normal enquanto caminhou sobre a Terra, logo, não podia sair mudando completamente de sua indecisa postura frente a João Batista, no Rio Jordão, para para uma desafiadora postura frente aos fariseus ou aos comerciantes do Templo. Essa mudança, que é comum em todo humano comum, demora tempo e se chama amadurecimento. Em O Filho de Deus, não existem cenas de transição importantes para esse amadurecimento, como o evento completo do Sermão da Montanha, por exemplo. Não é preciso ser religioso ou conhecer bem a Bíblia para saber que foi aí que Jesus começou a revelar — para os crentes — a sua figuração de Cristo (e não, ele não se chamava Jesus Cristo, ele se chamava Jesus de Nazaré, ou Nazareno. “Cristo” é um título, não um nome, e haviam muitos candidatos a Cristo nesse início de século I d.C., justamente por isso os fariseus e outros “homens da lei” judaica rejeitaram fortemente a nomeação de Jesus como Cristo, Messias, “Filho de Deus”).

A reta final do filme muda mais uma vez de rumo e fala sobre a expansão do Cristianismo pelo mundo Ocidental e sua violenta receptividade nos lugares onde foi chegando. Mesmo que seja completamente descartável para o sentido geral do longa, esta é, de longe, a sua melhor parte, tanto em enredo, quanto em composições técnicas. Vai entender.

O Filho de Deus é uma produção que jamais deveria ter existido e se contentado a ser uma minissérie de TV. Ao terminar a fita, temos a impressão de que a montagem e parte da produção final foram realizadas em escolhas aleatórias num Bingo Ungido, esperando-se que o milagre da obra-prima fosse operado e o público visse algo de bom além da confortável soneca a que foi submetido durante a sessão. Não deu certo. O filme é ruim e raríssimas coisas se salvam nele, mas, com certeza, Jesus (e sua história) não é uma delas.

O Filho de Deus (Son of God) – EUA, 2014
Direção: Christopher Spencer
Roteiro: Richard Bedser, Christopher Spencer, Colin Swash, Nic Young
Elenco: Sebastian Knapp, Joe Coen, Leila Mimmack, Greg Hicks, Andrew Brooke, Louise Delamere, Diogo Morgado, Darwin Shaw, Amber Rose Revah, Matthew Gravelle, Joe Wredden, Paul Marc Davis, Rick Bacon, Fraser Ayres, Said Bey
Duração: 138 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.