Crítica | O Filho Eterno

estrelas 4,5

Obs: Crítica originalmente publicada durante a cobertura do Festival do Rio 2016.

Confesso que são poucos os filmes que conseguem, de fato, me afetar ao ponto de eu derramar lágrimas, independente de quantas vezes eu os assistir. Lembro-me claramente da sessão de Marley e Eu, com pessoas literalmente aos prantos à minha volta e eu permaneci normal, simplesmente assistindo o longa-metragem. O Filho Eterno, contudo, conseguiu me pegar de tal forma que eu tive de me controlar seriamente para não sair da sala do cinema com o rosto inchado e olhos vermelhos lacrimejantes e, por já por isso, não posso deixar de considera-lo um grande acerto de Paulo Machline, que trabalhara em Trinta e, mais recentemente, na série brasileira Psi, da HBO.

Baseado no livro homônimo de Cristóvão Tezza, O Filho Eterno nos traz a trajetória de um casal, do final dos anos 1970 até os 1990, que acabam tendo um filho com Síndrome de Down. Enquanto a mãe, Cláudia (Débora Falabella) nutre pela criança nada menos que amor, o pai, Roberto (Marcos Veras) não o reconhece como seu filho. Permanece, sim, ao lado de sua esposa e do menino, mas apenas fisicamente – mentalmente ele se vê distante de ambos, enxergando o garoto Fabrício (Pedro Vinícius) como sua prisão, não tendo qualquer paciência ou até mesmo vontade de criar o filho.

É angustiante a forma como Roberto lida com a criança, sentimos o amor de Fabrício pelo pai, mas ele jamais o corresponde, chegando ao ponto de desejar pela sua morte quando ainda bebê. Temos aqui uma narrativa que nos dá inúmeros socos no estômago, deixando o espectador praticamente no desespero, ansiando para ver o amor do pai, enfim, surgir. Os anos passam, contudo, e isso não aparece. Veras nos traz uma atuação bastante pé no chão, enxergamos nele uma pessoa normal, com uma dificuldade absurda em ver aquele menino como algo além de uma criança com problema, que, naturalmente, acaba prejudicando sua própria vida como escritor.

Uma tristeza avassaladora nos pega a cada vez que o pai não dá a devida atenção ao filho, o trata como um mero objeto de estudo ou pedra em seu próprio sapato. O que mais assusta é o carisma de Vinícius, no papel do garoto, que rapidamente nos cativa e que não podemos deixar de querer socar o seu pai por não ver que ali, diante dele, existe um ser humano que necessita da atenção do pai. O roteiro de Leonardo Levis é certeiro em lidar tudo de forma que abandona o politicamente correto. Não que as ações de Roberto não sejam mostradas como negativas, mas não há uma limitação da veracidade de sua linha de raciocínio. O horror de sua disposição é mostrado da forma que seria na realidade, o que nos atinge de forma arrebatadora e, no fim, gera um efeito dramático muito maior.

O texto, porém, não se limita a dialogar apenas com pais de crianças com tais características e sim com qualquer um que sofra com a falta de atenção, negligência por parte de um ente querido, seja pelo foco no trabalho ou pela mera falta de paciência. Dessa forma, a obra consegue ser universal, de fácil relação com o espectador, que, muito provavelmente, em um momento ou outro da vida, terá passado por algo minimamente parecido. A mais bela das mensagens passadas, todavia, certamente é a de que essa síndrome, como qualquer outra, é uma realidade da vida, mas isso não faz da pessoa portadora mais ou menos que qualquer outra, afinal, os sentimentos, as emoções estão ali.

A trilha original de Guilherme e Gustavo Garbato ainda consegue acertar o tom em cheio, nos trazendo belas melodias que solidificam a tensão, a angústia e o sofrimento mostrado em tela. Em alguns pontos ela acaba soando excessivamente dramática sem necessidade, a imagem já daria conta de construir essa atmosfera de forma efetiva, mas nada que prejudique a projeção de forma muito significativa, apenas um deslize menor.

O Filho Eterno é, sobretudo, uma história de amor, mas que consegue fugir dos padrões, nos trazendo uma narrativa única que nos acerta em cheio, sendo praticamente impossível não derramar ao menos uma lágrima durante a projeção. Com um olhar bastante realista sobre a paternidade, especialmente em casos especiais, temos aqui uma obra que merece ser assistida no cinema e que certamente marcará o espectador, dialogando diretamente com suas memórias e sentimentos.

O Filho Eterno — Brasil, 2016
Direção:
Paulo Machline
Roteiro: Leonardo Levis (baseado no livro de Cristovão Tezza)
Elenco: Débora Falabella, Marcos Veras, Pedro Vinícius, Augusto Madeira, Uyara Torrente
Duração: 82 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.