Crítica | O Fim da Turnê

estrelas 4

A fama pode ser muitas coisas: tentadora, sufocante, viciante. Acima de tudo, porém, ser famoso significa ser o ponto mais brilhante em meio à multidão; significa estar além, ser especial, diferente em relação à maioria em certo âmbito, para o bem ou para o mal.

No caso do falecido escritor David Foster Wallace (Jason Segel), o auge de sua fama enquanto vivo, nem próxima da que adquiriu depois de seu suicídio, veio com o hoje célebre romance A Piada Infinita (Infinite Jest), publicado em 1996. Sua morte se daria 12 anos depois. Já naquela época, porém, houve quem reconhecesse no autor um gênio literário e uma dessas pessoas foi o jornalista e xará David Lipsky (Jesse Eisenberg), autor do livro publicado após a morte de Wallace, no qual este filme foi baseado.

Em 94, vendo no perfil do escritor a oportunidade de assinar um novo tipo de matéria para a revista Rolling Stone, o repórter consegue o assentimento de Wallace para acompanhá-lo nos últimos cinco dias da turnê de lançamento de Infinite Jest. O primeiro encontro dos dois já dá o tom da abordagem do longa: o jornalista se depara com um homem que mora apenas com os cães, que lhe oferece um quarto e que não parece nada animado com a programação que ainda tem pela frente. É a desconstrução de um imaginário, hoje ainda mais forte, de um ser extraordinário no sentido explícito da palavra.

Já quando falamos do implícito que emerge à superfície, a coisa muda de figura. O diretor James Ponsoldt apresenta a maior parte do longa como um documentário – exceto por uma ou outra liberdade -, com longos diálogos (entrevistas), apostando na verossimilhança como principal ferramenta de interiorização gradual dos personagens centrais – no caso, entrevistador e, principalmente, entrevistado, ainda que eventualmente um e outro cheguem a se confundir. Assim, a profundidade e complexidade de Wallace ficam evidentes e se revelam cada vez mais conforme o roteiro nos conduz por sua retratação do desenrolar daqueles dias, e também, claro, graças a atuação precisa de Segel, na medida certa. Só que tudo parte de um homem, à primeira vista, tido como comum ou até mesmo irrelevante.

É firmemente apoiado nesta questão, sobre o que se define como especial ou como só mais um em meio a já dita multidão, que o filme encontra sua grande força. Os valores da fama e de uma vida reservada, mais ou menos só, são relativizados, não somente do ponto de vista de Wallace, mas de um jornalista que vê na personalidade inconstante e na aparente indiferença do entrevistado em relação à própria identidade um desafio à sua necessidade, como todos nós a temos, de encontrar seu lugar no mundo.

O longa tem sua lógica argumentativa um tanto enfraquecida, contudo, na medida em que deixa de desenvolver mais do que poderia a figura do jornalista, caindo na facilidade do entrevistado como condutor da trama – tal qual, mais uma vez, em um documentário. Outro ponto que incomoda em relação ao formato narrativo predominante é a aparente surrealidade, ainda que muito pouco presente, de um diálogo ou outro, como quando um dos homens chama o companheiro de falso na cara dura e a conversa segue sem uma alteração que se poderia julgar compatível, ao menos da parte de um deles. Funciona, todavia, como um recurso de tensão, e claramente se trata de uma prerrogativa bem particular de quem lhes escreve – só mesmo os diálogos verdadeiros para dar a última palavra. Seja como for, tais pontos pouco prejudicam o produto final.

A trilha sonora também evoca em sua maior parte o verossímil, explorando principalmente sons ambientes e só de vez em quando recorrendo a instrumentos como o piano para uma melodia suave e discreta, digna de momentos de deslumbramento – as tais fugas do formato predominante. Com uma cena pós-créditos para um sorriso ao fim da sessão, apesar de tudo, O Fim da Turnê é uma bela obra sobre o valor de alguns dias e da vida que cada um leva.

O Fim da Turnê (The End of the Tour), EUA – 2015
Direção: James Ponsoldt
Roteiro: Donald Margulies, David Lipsky (baseado no livro Although of Course You End Up Becoming Yourself)
Elenco: Joan Cusack, Anna Chlumsky, Jesse Eisenberg, Jason Segel, Mamie Gummer, Ron Livingston, Mickey Sumner, Becky Ann Baker, Jennifer Jelsema, Chelsea Anne Lawrence
Duração: 106 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.