Crítica | O Físico (2013)

estrelas 2,5

Baseado no best-seller de mesmo nome escrito por Noah Gordon, O Físico (que deveria se chamar O Médico) nos leva por uma interessante jornada de um jovem querendo se tornar um médico. O grande problema, contudo, é que estamos no século XI, quando a Igreja Católica impede qualquer busca pelo conhecimento. Os curandeiros eram chamados de bruxos e a medicina não só estagnou na Europa, como regrediu, praticamente jogando fora os avanços do período romano.

Nesse cenário temos o garoto Rob Cole (Tom Payne), que, após perder sua mãe para a doença lateral (o termo medieval para a ainda não descoberta apendicite), passa a viajar com um barbeiro (Stellan Skarsgård) pela Inglaterra. Ao lado desse viajante, Rob começa a aprender sobre a arte da cura e descobre seu dom de prever quando alguém irá morrer, algo que sentira na ocasião da morte de sua mãe. Movido pelo seu desejo de ajudar as pessoas ele decide percorrer o caminho até Isfahan (no atual Iraque), onde dizem que um famoso médico do oriente leciona em uma academia.

Sob a batuta de Philipp Stölzl podemos observar, deste os minutos iniciais, um claro problema presente na grande maioria das adaptações cinematográficas: uma obediência quase que cega ao material original. Essa excessiva fidelidade a um livro que, por si só, já é dividido em sete partes, garante uma estrutura narrativa episódica ao filme. Para comprimir tamanha história no tempo de projeção as sequencias são encurtadas, nos fazendo pular de uma para outra de forma apressada, dificultando nosso envolvimento com a trama que se desvela diante de nossos olhos. Estamos diante de uma obra que se traduziria idealmente para uma minissérie. No canal televisivo ARD, na Alemanha, o longa-metragem será exibido nesse formato, sendo dividido em duas partes.

Esse ritmo demasiadamente acelerado que o filme adota acaba prejudicando a relação entre diversos personagens. A mais notável delas, que deveria ganhar um maior destaque na narrativa, é a de Cole e seu mestre oriental Ibn Sina (Ben Kingsley). A química entre os dois apenas aparece, de relance, em alguns momentos – ao invés disso vemos um enfoque desnecessário em um romance de Rob e a jovem Rebecca (Emma Rigby), que facilmente poderia ter sido cortada, a fim de garantir um mais extenso trabalho em cima dos médicos. O único relacionamento que realmente conseguimos acreditar é entre o protagonista e o barbeiro no primeiro quarto do filme. Stellan Skarsgård, como sempre, nos traz uma ótima atuação e garante uma nítida fluidez a esse princípio da trama.

O segundo quarto do longa também é notadamente engajante pelos seus grandes planos abertos, retratando a travessia no deserto, nos remetendo imediatamente a Lawrence da Arabia ou até mesmo de Westerns que tão bem captam a sensação de desolação exibida na obra em questão. Já em enquadramentos mais fechados o filme não foge do comum, priorizando uma linguagem mais clássica, colocando o roteiro em primeiro lugar.

O que claramente sentimos falta é a presença de uma trilha sonora mais emblemática. O que ouvimos não foge do comum – em um filme que trabalha em cima de tão diferentes culturas e locações seria, no mínimo, interessantes termos melodias mais representativas. Contamos, sim, com algumas músicas típicas, mas essas, em nenhum ponto, se destacam, mantendo-se, sempre, em segundo plano.

Trazendo uma interessante visão sobre a medicina no século XI e os malefícios do fundamentalismo (independente da religião), O Físico funciona como uma grande propaganda do livro original. Ao não chegar aos pés do material fonte, o filme consegue nos deixar com a notável vontade de conhecermos a obra de Noah Gordon. Infelizmente, além disso, o longa não apresenta muitos motivos para ser assistido. Funciona como entretenimento, mas não vai além disso.

O Físico (The Physician – Alemanha, 2013)
Direção: 
Philipp Stölzl
Roteiro: Jan Berger (baseado no livro de Noah Gordon)
Elenco: Tom Payne, Stellan Skarsgård, Olivier Martinez, Emma Rigby, Elyas M’Barek, Ben Kingsley, Makram Khoury
Duração: 150 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.