Crítica | O Flash de Dois Mundos (The Flash Vol.1 #123)

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estrelas 4,5

Em 14 de junho de 1961, Barry Allen, o Flash, está fazendo uma apresentação para uma plateia de crianças no Centro Comunitário da cidade. Seu grand finale, envolvendo uma intensa forma de vibração em ritmo que ele nunca havia experimentado antes, faz com que seja transportado para uma “outra Terra”, que se estabelece nesta incrível e histórica edição como a Terra-2, planeta de Jay Garrick, o Flash da Era de Ouro.

De 1940 a 1959, o Flash vivido por Jay Garrick teve sua revista própria. Muitíssimo popular no início dos anos 40, o personagem foi aos poucos perdendo espaço e as vendas de sua revista caindo (lembrando que ele também aparecia em outros títulos, além da Flash Comics; e que fazia parte da Sociedade da Justiça da América), até que a DC Comics cancelou o título na Flash Comics Vol.1 #104, com data de capa de fevereiro de 1949. Estes fatos editoriais são maravilhosamente utilizados pelo roteirista Gardner Fox para mergulhar na metalinguagem e quebrar a quarta parede, explicando a situação de Jay na Terra-2, sua aposentadoria em 49 e o desejo de voltar à ativa para resolver misteriosos crimes, justamente quando Barry Allen aparece em sua casa.

A face da metalinguagem poderia facilmente servir como isca de um único mundo, mas Fox coloca ainda mais um detalhe nerd na narrativa. Ele SE estabelece como personagem da terra de Barry, o “escritor Gardner Fox que sonhava com Jay Garrick e escrevia quadrinhos sobre ele“, tratando com muito carinho o trabalho da Era de Ouro e de quebra, fazendo Barry assumir que tanto o nome quanto o uniforme que utiliza foram inspirações vindas dos quadrinhos que leu durante a infância. Os quadros da excelente arte de Carmine Infantino e Joe Giella que mostram a cara de Garrick ao ouvir essas informações são impagáveis.

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Jay e Barry, os dois Flash, se encontram pela primeira vez.

Com capa inspirada na revista Our Fighting Forces Vol.1 #48 (agosto de 1959) e um forte senso de camaradagem, a história avança de maneira rápida. A ligação entre a nossa Terra e a Terra-2 é orgânica e não é necessário nenhum artifício absurdo para explicar o por quê Barry foi parar lá. A ideia de vibrar em uma frequência diferente não era nova nos quadrinhos do herói, ela apenas não tinha sido utilizada com tamanha intensidade, a ponto de fazê-lo quebrar uma dobra espacial e aparecer em uma cópia quase idêntica do nosso planeta.

Todo o primeiro capítulo serve para as apresentações, recontagem objetiva de histórias de origem de ambos os heróis e estabelecimento de uma ameaça, fazendo com que os dois partissem investigar os misteriosos roubos juntos. Aqui é preciso lembrar que a revista Liga da Justiça Vol.1 estava em alta de vendas e o modelo de contar histórias ali (trazido das aventuras da Sociedade da Justiça) foi mais ou menos replicado aqui, com uma boa introdução do problema, da chegada dos vilões e envolvimento dos mocinhos com o caso, de alguns eventuais impasses adicionais e do término harmonioso. E sim, este padrão funciona perfeitamente para uma história com dois heróis de mesmo poder.

De negativo, este encontro tem apenas algumas poucas explicações vindas do trio de vilões, composto por Violinista (Isaac Bowin), Sombra (Richard Swift) e Pensador (Clifford DeVoe). Os planos de roubo parecem um pouco bobos, assim como a vingança planejada, mas a execução, especialmente do Sombra, merece destaque — principalmente na arte e nas cores — exatamente por ser visualmente belo e conceitualmente bem diferente do que estamos acostumados em relação aos vilões da Era de Prata. Com uma ótima diagramação, ritmo bem modulado e um rápido, mas eficiente fechamento da trama, O Flash de Dois Mundos merece todo o louvor que recebe dos fãs. Não se trata apenas de uma revista histórica e de grande importância editorial para a DC. Trata-se do encontro de heróis muito queridos de diferentes gerações, em um argumento, acima de tudo, muito divertido.

O Flash de Dois Mundos (The Flash of Two Worlds) — EUA, setembro de 1961
DC Comics
No Brasil: 
Coleção DC 70 Anos n°4 (Panini, 2008); Coleção DC 75 Anos n°2 (Panini, 2010) e DC Comics – Coleção de Graphic Novels n°13: Terra 2 (Eaglemoss, 2016).
Roteiro: Gardner Fox
Arte: Carmine Infantino
Arte-final: Joe Giella
Cores: Carl Gafford
Letras: Gaspar Saladino
Capas: Carmine Infantino, Murphy Anderson
Editoria: Julius Schwartz
26 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.