Crítica | O Gabinete do Dr. Caligari

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Entre as palavras que podem ser usadas para definir O Gabinete Do Dr. Caligari (1920), “pioneiro” talvez seja a mais acertada. Dirigido por Robert Wiene, o filme se tornou o principal marco do Expressionismo Alemão, com seu visual único influenciando outras grandes obras que o sucederam neste período, como Nosferatu (1922) e Metrópolis (1927). O projeto também trouxe recursos narrativos inéditos para o cinema, que continuam a ser utilizados atualmente, como a reviravolta final, o narrador não confiável e a história-moldura. É impossível para o espectador de hoje imaginar o impacto que as inovações narrativas e principalmente estéticas do filme tiveram na época, mas O Gabinete do Dr. Caligari envelheceu muito bem, e ainda guarda muito de sua magia.

Na trama, Francis (Friedrich Feher) conta para um velho a história de como o pequeno vilarejo onde vivia foi abalado pela chegada do misterioso Dr. Caligari (Werner Krauss) e de seu show envolvendo o sonâmbulo Cesare (Conrad Veidt), adormecido há 23 anos e reanimado por Caligari através de hipnose, tornado-se seu servo. Quando uma série de assassinatos acomete o vilarejo, Francis passa a desconfiar que Cesare, controlado pelo Dr. Caligari, possa estar por trás das mortes.

Escrito por Hans Janowitz e Carl Meyer, o roteiro de O Gabinete do Dr. Caligari pode parecer mundano á primeira vista, mas guarda muito mais significados do que aparenta. Tendo sido escrito no rescaldo da 1ª Guerra Mundial, a história apresentada por Janowitz e Meyer reflete o clima de pessimismo e desesperança instaurado na Alemanha após o conflito e a assinatura do Tratado de Versalhes. O filme aparenta carregar um forte subtexto político ao lançar um olhar desconfiado para figuras de autoridade, sendo o Dr. Caligari, grande vilão, dono de uma posição de poder em uma instituição mental que usa para atingir seus próprios fins, controlando sonâmbulos incapazes de pensarem por si mesmos para realizar o seu trabalho destrutivo, traçando um paralelo entre Caligari e as autoridades alemãs que levaram o país à Guerra. Anos depois, o teórico alemão Sigfried Kracauer chegaria a apontar o filme como profético em relação ao Holocausto, ao escrever o livro De Caligari a Hitler: Uma História Psicológica do Cinema Alemão (1947) por trazer figuras de autoridades insanas que levam aqueles submetidos a tal autoridade a cometer monstruosidades.

SPOILERS!

A reviravolta final, entretanto, pode transmitir uma mensagem diferente. Nos minutos finais, descobrimos que Francis está internado num sanatório, onde outros personagens, como Cesare e o interesse romântico do protagonista, Jane (Lil Dagover) também são internos. O homem que Francis aponta como o louco e maquiavélico Dr. Caligari é o diretor do sanatório, mas não é o hipnotizador assassino que conhecemos ao longo da projeção, e sim um atencioso médico que parece se preocupar apenas com a cura e o bem-estar dos pacientes. Ou seja, toda a história contada por Francis sobre os crimes de Caligari e Cesare não passavam de um delírio de uma mente doente.

Embora possa parecer uma reviravolta até previsível para os dias de hoje, o pot twist causou espanto na época de seu lançamento, inclusive para os roteiristas. O final surpresa foi incluído pelo diretor e pelo produtor Erich Pommer, para grande desagrado de Janowitz e Meyer, que alegaram que o novo desfecho quebrava o discurso do filme, já que no fim das contas, a figura de autoridade passa de uma figura perversa para uma figura benevolente, que traz a cura para a loucura. Embora os dois roteiristas tenham um argumento válido, o desfecho idealizado por Wiene e Pommer é mais intrigante, possuindo maior força dramática por ser construído de forma narrativa e esteticamente coerente e nos fazer repensar toda a obra que acabamos de assistir.

Se a narrativa, embora inovadora para a época, pode soar um pouco clichê nos dias de hoje, o visual do filme continua a impressionar. O design de produção, com paisagens criadas completamente em estúdio, evoca o clima de pesadelo e loucura que permeia toda a trama. O visual do mundo em O Gabinete do Dr. Caligari é distorcido, com estradas e ruas assimétricas, árvores com folhas pontiagudas, escadas que parecem não levar a lugar nenhum, portas desproporcionais que abrem em ângulos esquisitos e casas e edifícios que parecem dobrar-se uns sobre os outros. Mesmo alguns intertítulos surgem fortemente estilizados, como na cena que traz a primeira menção ao nome de Caligari. Os cenários e sombras desenhados à mão brincam com a noção de perspectiva do público, mérito que também deve ser creditado á fotografia de Willy Hameister, que cria enquadramentos que reforçam tal sensação na interação dos cenários com os personagens.

O mais impressionante é como a atuação de Conrad Veidt e Werner Krauss, sob a direção segura de Robert Wiene, combina perfeitamente com a estética do filme. Veidt, ator símbolo do Expressionismo Alemão, que atuaria posteriormente em filmes como As Mãos de Orlac (1924) e O Homem que Ri (1928) concede ao sonâmbulo Cesare movimentos esguios, que parecem quase reproduzir os ambientes estilizados que o cercam, o que se nota principalmente na sequência em que Cesare foge pela estrada carregando Jane nos braços. O figurino do personagem, criado por Walter Reimann também colabora com a fusão do indivíduo com o cenário, já que seus trajes e cabelos negros o fazem parecer uma verdadeira sombra viva. A maquiagem é outro acerto que só potencializa a atuação de Veidt, posto que a palidez e olheiras absurdamente profundas de Cesare e o olhar sofrido e desorientado do ator provocam tanto incômodo quanto pena no público. Já Werner Krauss torna o Dr. Caligari a personificação da autoridade insana. Se o olhar de Cesare transmite tristeza e apatia, o olhar de Caligari brilha de malícia e crueldade. O vilão raramente encara os seus interlocutores diretamente, preferindo espioná-los pelo canto do olho, transmitindo a impressão de sempre estar planejando algo horrível, e mesmo os movimentos espásticos de Krauss parecem demonstrar intenções dúbias, fazendo dele uma figura ainda mais estranha do que o próprio Cesare dentro daquele mundo, sensação aumentada pelo figurino do vilão e pelos enquadramentos, que parecem colocá-lo como uma figura tridimensional em cenários essencialmente bidimensionais.

O Gabinete do Dr. Caligari é um filme cheio de significados, onde estética e narrativa formam um casamento perfeito. Se muitas películas do cinema mudo, especialmente aquelas pertencentes ao Expressionismo Alemão, podem incomodar o público moderno devido ao seu forte aspecto teatral, esta teatralidade é simplesmente perfeita para a história que o filme se propõe a contar. A película de Robert Wiene continua a ser uma experiência cinematográfica única, que segue ecoando até os dias de hoje. Trata-se de uma grande obra-prima da filmografia alemã, um fascinante pesadelo Expressionista que ajudou a forjar o cinema como o conhecemos hoje.

O Gabinete Do Dr. Caligari (Das Cabinet Des Dr. Caligari)- Alemanha, 1920
Direção: Robert Wiene
Roteiro: Hans Janowitz, Carl Meyer
Elenco: Conrad Veidt, Werner Krauss, Friedrich Feher, Lil Dagover, Hans Heinrich Von Twardowski, Rudolf Lettinger
Duração: 71 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.