Crítica | O Galante Aventureiro

estrelas 3,5

O lendário juiz Roy Bean, ‘a única lei a Oeste de Pecos‘ é o personagem principal de O Galante Aventureiro, condição que já no início dos preparos do filme assustou Gary Cooper, que via aí dois impasses. Primeiro, o roteiro deixava claro a grande importância de Roy Bean e o lugar menor que Cole Harden, personagem que o ator deveria interpretar (o “galante aventureiro” do título brasileiro), teria. O segundo é que Bean seria interpretado por Walter Brennan, ator que estava em alta na época, havendo recebido dois Oscars, um por Meu Filho é Meu Rival (1937) e outro por Romance do Sul (1938), e que ainda receberia outro, por seu papel em O Galante Aventureiro. Sem querer competir com o prestígio pessoal e a importância do personagem de Brennan, Cooper rejeitou seu papel. Duas vezes.

Acontece que a grande insistência do produtor Samuel Goldwyn e algumas profundas mudanças no roteiro – todas executadas no sentido de dar maior importância ao personagem de Cooper – acabaram por convencer o ator, que embarcou nessa aventura ambientada no Texas e que coloca frente a frente os agricultores e os vaqueiros em uma ferrenha luta por terra e por justiça, uma interessante visão de uma ranch story.

O franco-alemão William Wyler já tinha um importante, sólido e reconhecido trabalho no cinema quando dirigiu O Galante, mas o western não era o seu gênero cativo e ele também não tinha intenção em trabalhar com a ação acima de tudo, elemento característico do gênero nesse início de reformulação interna em sua 2ª idade do ouro. O resultado desse encontro de estilo dramático com a ação típica dos westerns (ao menos nesse momento de sua história) é bem mais interessante do que aquele apresentado pelo alemão Fritz Lang em A Volta de Frank James, mas ainda assim parece estranho ao público, especialmente porque o roteiro traz uma estrutura episódica e o diretor, talvez por querer convidar à reflexão em detrimento da ação quase pura (um contraste proposital com o marcante No Tempo das Diligências, feito no ano anterior?), tenha filmado justamente esse modelo.

O primeiro bloco do filme é marcado pela apresentação quase jocosa dos personagens – a comédia se destaca, a despeito do início impactante – e o segundo bloco é marcado pelo drama dos colonos e a discussão sobre justiça, nesse ponto, muito mais séria do que aquela sugerida no enforcamento inicial. O elenco se destaca em alto estilo e Gary Cooper faz uma inesquecível dupla com Walter Brennan, principalmente quando atentamos para a obsessão do ‘juiz’ e dos homens da cidade pela persona de Lily Langtry. Todavia, o contraste entre os dois pontos é tal que há um desconcerto do público e, mesmo que possamos assumir que ambas as partes são bem dirigidas e se fecham satisfatoriamente, essa dualidade dramática não é totalmente benéfica para a obra.

O foco episódio, porém, tem seu lado positivo. Se isolarmos a sufocante sequência do incêndio no rancho ou a ótima dinâmica que Wyler usa para filmar o embate quase amigável entre Cole e Bean no teatro, onde o fetiche feminino do ‘juiz’ iria se apresentar, teremos aí momentos não só de técnica exemplar (principalmente na cena do incêndio), como também de boa exploração do drama no contexto do filme e na vida do personagem em questão. O encontro entre Roy Bean e Lily Langtry é, por si só, emotivo e lamentável, uma forma interessantíssima de o diretor colocar numa pequena sequência toda a carga moral e psicológica construída pouco a pouco no decorrer da fita.

O Galante Aventureiro transita entre o charme xavequeiro de Gary Cooper, cuja personagem leva todos na lábia e o olhar dualista de homens simples, marcados pela guerra e com uma noção bastante primitiva de sociedade e justiça, mesmo para seu contexto histórico e concepção diegética. O agrupamento entre esses dois extremos gera um filme deveras interessante mas com uma cadência rítmica – falha do roteiro e da montagem – que acaba por diminuir o seu valor final.

O Galante Aventureiro (The Westerner) – EUA, 1940
Direção: William Wyler
Roteiro: Jo Swerling, Niven Busch (baseado na obra de Stuart N. Lake).
Roteiristas não creditados: W.R. Burnett, Lillian Hellman, Oliver La Farge
Elenco: Gary Cooper, Walter Brennan, Doris Davenport, Fred Stone, Forrest Tucker, Paul Hurst, Chill Wills, Lilian Bond, Dana Andrews, Charles Halton, Trevor Bardette, Tom Tyler
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.