Crítica | O Garoto, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro

estrelas 4

Tive a oportunidade de assistir à projeção de O Garoto, primeiro longa-metragem (ou média-metragem, dependendo de como você contar) de Charles Chaplin, de 1921, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no dia 13 de setembro de 2014. A música, toda composta pelo próprio Chaplin, com arranjo para execução ao vivo por Carl Davis, grande compositor e especialista sobre as obras desse sensacional ator/produtor/roteirista/diretor/compositor, teve a regência da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do RJ por Tobias Volkmann.

Os comentários, aqui, portanto, se resumem à experiência de assistir O Garoto no Municipal, com a música da obra sendo executada ao vivo, por uma orquestra completa. Quem quiser ler a crítica substantiva do filme, por favor clique aqui.

A iniciativa de se projetar filme com música ao vivo pelo Theatro Municipal, trazendo de volta – com muito mais pompa e circunstância – a experiência cinematográfica dos primórdios da Sétima Arte, se chama “Série Música & Imagem”, que já trabalhou clássicos como Metropolis, de Fritz Lang, Nosferatu, de F.W. Murnau (esse também regido por Volkmann) e Luzes da Ribalta, do próprio Chaplin, é mais do que bem-vinda, uma verdadeira dádiva que todos deveriam ter acesso pelo menos uma vez na vida.

Tive a sorte de já ter tido a oportunidade de ver O Senhor dos Anéis (os dois primeiros filmes) dessa maneira em Nova Iorque, mas confesso que, tendo visto Metropolis no Municipal e, agora, O Garoto, ficou claro para mim que os filmes mudos oferecem maior latitude para o aproveitamento da música e do ambiente. Não poderia ser  diferente, pois são filmes pensados e estruturados para uma plateia que, fundamentalmente, terá na música um dos indicadores do que sentir, do que extrair da película. E a escolha de O Garoto é perfeita, pois é uma fita que combina, de maneira próxima à perfeição, doses iguais de drama e comédia, como só Chaplin é capaz de fazer. Não é à toa que o primeiro inter título da fita é: “Um filme com um sorriso e, talvez, uma lágrima.” Pois bem: marmanjos, preparem-se para lágrimas!

A regência de Tobias Volkmann e a acústica do Municipal garantem o envolvimento completo da plateia, que reage a cada segundo de projeção. É prazeroso experimentar esse grau de imersão gerado especialmente pela música irretocável inundando nossos ouvidos, com forte uso de cordas – violoncelos, violinos e uma magnífica harpa – madeiras e metais, além de um característico e muito bem executado xilofone.

Mas realmente a maior prova do poder penetrante da música em um ambiente como esse é a reação geral da plateia. Minha “sessão” era no meio da tarde, horário propício para uma grande quantidade de crianças, muitas delas pequenas, correndo pelas fileiras antes do show começar. Barulhentas, elas não paravam de falar, exatamente como crianças normalmente fazem em situações como essa. No entanto, no momento em que ouvimos os primeiros e poderosos acordes, antes mesmo de qualquer semblante de “comédia” na fita (afinal, ela começa de maneira sóbria e até pesada, com a mãe abandonando o bebê no banco traseiro de um automóvel), o silêncio completo estabeleceu-se. E assim continuou até o final. Simplesmente sensacional.

Mas, como nem tudo pode ser sempre perfeito, não posso dar nota máxima para a experiência por dois fatores, um de menor outro de maior (bem maior!) importância. O aspecto menos grave, mas que considero algo inaceitável em situações semelhantes, foi o atraso de 15 minutos para o espetáculo começar. Afinal de contas, o ingresso não é barato, o local normalmente exige que se chegue com antecedência (o ingresso deixa claro que as portas do Municipal abririam às 15h, uma hora antes do horário) e não havia razão para a demora. Mas, com o saguão cheio, a casa somente permitiu o ingresso do público aos assentos basicamente no último minuto, gerando o dito atraso que, por sorte, não foi maior.

O atraso, porém, como disse, não seria realmente um problema sério se, faltando literalmente três minutos para o filme acabar, o projetor não tivesse dado defeito. A projeção parou (logo ao final da sequência da “Terra dos Sonhos”) e toda aquela magnífica imersão acabou abruptamente, como se estivéssemos sendo chacoalhados para fora de um sonho que não queremos largar. Foram mais 15 ou 20 minutos para finalmente podermos assistir e ouvir os minutos finais de O Garoto, já com aquele desconforto e vontade de ir embora pelo incômodo. Azar? Pode ser. Mas, novamente, não dá para relevar esse aspecto como algo corriqueiro, comum ou aceitável.

De toda maneira, apesar dos pesares, a experiência sensorial é inesquecível.

Regência: Tobias Volkmann
Local: Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Orquestra: Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Data do show: 13 de setembro de 2014
Duração: 50 min. (com atraso e com o problema técnico, 85 min.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.