Crítica | O Gigante de Ferro

estrelas 5,0

Eu não sou uma arma.

A estreia de Brad Bird na direção de longas não poderia ser mais perfeita. O Gigante de Ferro é uma obra nostálgica, cheia de referências adoráveis, com uma técnica de animação que mescla de maneira deslumbrante a computação gráfica com traços old school, personagens inesquecíveis e repleta daquilo que falta a muitas animações hoje em dia: mágica. A pura mágica que só o Cinema é capaz de proporcionar.

Baseado no livro infantil sessentista The Iron Man: A Children’s Story in Five Nights, de Ted Hughes, O Gigante de Ferro conta a história de um enorme robô espacial que cai na costa do Maine, Estados Unidos, como se fosse um meteoro. Ele se alimenta de qualquer coisa de ferro, não tem memória do que veio fazer em nosso planeta e acaba criando improváveis laços de amizade com um curioso e valente menino de nove anos chamado Hogarth Hughes (o sobrenome Hughes, igual ao do autor do livro, não é coincidência, claro).

Sem fazer concessões modernosas, Bird, que escreveu a história para o cinema, mais tarde convertida em roteiro por Tim McCanlies, situa o filme em 1957, logo depois que o satélite soviético Sputnik foi lançado ao espaço, intensificando as paranoias armamentistas da Guerra Fria. Assim, o enorme robô serve como uma alegoria representativa dessa época em que tudo nos EUA era uma ameaça da URSS (e vice-versa, claro). Algo desconhecido só poderia ser tratado com medo, truculência e armas cada vez maiores. E esse choque entre um governo ensandecido, representado pelo agente Kent Mansley (Christopher McDonald) e a inocência do menino Hogarth (Eli Marienthal), que vê no Gigante de Ferro simplesmente como um amigo que ele deve proteger e cultivar, é absolutamente cativante.

As referências à obras e personagens da cultura popular emprestam camadas e mais camadas ao filme. Vale especial destaque a mais evidente e tocante delas: a vontade do Gigante de Ferro de ser o Superman, ou seja, um herói, não um vilão, com direito até ao símbolo “S” no peito. É, talvez, a representação cinematográfica mais fiel e pura do personagem kryptoniano, uma sincera homenagem à criação máxima de Jerry Siegel e Joe Shuster e talvez o maior ícone da cultura americana. A visão antibelicista da fita é encapsulada pelo desejo dessa “ameaça” extraterrestre em salvar humanos que ele acabou de conhecer, custe o que custar, algo literalmente esquecido nas encarnações mais recentes do personagem em nosso mundo muito mais cínico dos dias de hoje.

Mas o trabalho de Bird e de McCanlies não para em Superman. Há elementos de King Kong (Hogarth sendo levado na mão pelo Gigante de Ferro), E.T. (o momento final, em que o Gigante pede para ele ficar, apontando com o dedo), Indiana Jones (encapsulado pelo artista Dean, que ajuda Hogarth e dirige uma moto – voz de Harry Connick Jr.), Guerra dos Mundos (não só o conceito em si de invasão como o design da versão bélica do Gigante, que lembra fortemente os tripods marcianos), Frankenstein (a eletricidade afetando o Gigante e sua reconstrução), Bambi (menção quase direta quando a dupla se depara, maravilhada, com um veado na floresta), Planeta Proibido e Robô Gigante (a relação, no primeiro caso de inimizade e, no segundo, de amizade, entre homem/garoto e robô) e mais um sem-número de outras, de Aliens a Nausicaa, de Rocketeer a Homem de Ferro (vale notar que, no último caso, a primeira edição americana do livro – britânico, no original – foi rebatizada de The Iron Giant, justamente para evitar confusão com o herói da Marvel).

É importante notar, porém, que essas referências todas nunca soam forçadas ou fora de contexto. O roteiro as costura em um texto fluido, objetivo, perfeitamente apropriado para tomar de assalto as mentes e corações de crianças e adultos de todas as idades. Nem todos pegarão todas as menções, mas é provável que a integralidade do público de O Gigante de Ferro aprecie a naturalidade e simplicidade com que os eventos são encadeados.

E Brad Bird, em dupla com Steven Wilzbach, o diretor de fotografia, ainda se utiliza de ângulos radicais, além de plongées e contra-plongées para intensificar a sensação de gigantismo do robô e para nos permitir olhar com a mesma admiração, surpresa e sensação de embasbacamento que Hogarth olha para seu enorme amigo. Tudo é milimetricamente estabelecido, inclusive a montagem dinâmica e extremamente econômica, para passar à plateia o sentimento de estupefação que somente uma criança costuma ter de maneira absolutamente genuína, com aqueles olhinhos brilhando de felicidade. Bird, ao emular essa sensação mesmo para marmanjos – que sim, ficarão com lágrimas nos olhos, não adianta esconder! – demonstra absoluto controle de sua arte, algo que ele repetiria em Os Incríveis e Ratatouille.

O Gigante de Ferro é animação obrigatória. É encantamento cinematográfico puro. Um verdadeiro clássico moderno. Imperdível.

O Gigante de Ferro (The Iron Giant, EUA – 1999)
Direção: Brad Bird
Roteiro: Tim McCanlies, Brad Bird (baseado em romance de Ted Hughes)
Elenco: Eli Marienthal, Jennifer Aniston, Harry Connick Jr., Vin Diesel, James Gammon, Cloris Leachman, Christopher McDonald, John Mahoney, M. Emmet Walsh
Duração: 86 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.