Crítica | O Golem – Como Veio ao Mundo (1920)

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Embora o movimento do Expressionismo Alemão seja lembrado principalmente pela herança estética (especialmente para o cinema de terror), a forma como os filmes expressionistas não apenas retratavam o ambiente de desesperança que assolava a Alemanha, mas davam indícios do futuro de violência e intolerância que aguardava o país em um futuro próximo também se tornou uma das grandes características do movimento.

O ator e diretor Paul Wegener já havia levado a lenda judia do Golem ao cinema duas vezes: em 1915 e 1918 (ambas as versões estão perdidas hoje), mas não satisfeito, resolveu tentar uma terceira vez. Dirigido a quatro mãos por Wegener (de O Estudante de Praga, 1913) e Karl Boese, a trama de O Golem – Como Veio ao Mundo, ou simplesmente O Golem, se situa na cidade de Praga do Século XVI, e acompanha a luta do Rabino Loew (Albert Steinrück) para proteger o seu povo depois que o sacro imperador romano (Otto Gebühr) assina um decreto dizendo que os guetos judeus devem ser desocupados. Desesperado, o Rabino, com a ajuda de seu assistente (Ernst Deutsch), cria um Golem (Paul Wegener), uma gigantesca figura de barro de força sobre humana, que é animada através de magia e alquimia. Inicialmente, o Golem deveria proteger os Judeus e mostrar a sua força diante do imperador. Mas logo, devido a um fenômeno astrológico, o Golem é influenciado pelo demônio Astaroth, voltando-se contra os seus criadores.

A exemplo do marco do Expressionismo Alemão, O Gabinete Do Dr. Caligari, do mesmo ano, o roteiro de O Golem, escrito por Henrik Galeen e Paul Wegener (que além de escrever e dirigir, interpreta o personagem título), cria um universo de personagens exaustos e pessimistas, onde qualquer boa ação ou sentimento nobre acaba corrompido. O antissemitismo que tomaria conta da Alemanha parece ser sinalizado de forma extremamente clara aqui, já que o Golem só é criado devido ao preconceito existente contra os judeus, que começava a crescer na Alemanha.

A fotografia de Karl Freund é um grande acerto do filme. O diretor de fotografia, que ficou famoso pela foto de filmes como Metropolis (1927), Drácula (1931), entre outros, tem uma grande colaboração na criação da atmosfera do filme, com destaque para as cenas passadas no laboratório do Rabino. Por sinal, não há como falar do filme sem falar da grande influência que ele teve sobre Frankenstein (1931) de James Whale, e suas sequências. A cena da criação do monstro, os movimentos que Paul Wegener dá ao monstro de barro, e mesmo o encontro do Golem com uma criança no clímax do filme parecem ter inspirado diretamente a franquia protagonizada pelo monstro de Mary Shelley na Universal Studios durante os anos de 1930 e 1940.

Os cenários criados por Hans Poelzig dão tom de fábula macabra que o filme pede, especialmente nos planos panorâmicos que retratam o gueto judeu, onde vemos prédios tortos que se dobram uns sobre os outros, mas onde o observatório astronômico do Rabino se sobressai. A profundidade de campo também é muito bem utilizada pelo trabalho conjunto da cenografia e da filmografia, seja para destacar a solidão do Rabino em seu laboratório, ou a sensação de alta população nas cenas passadas na escadaria central do gueto.

Apesar de bem contextualizado em relação à época em que estava inserido, o roteiro de Wegener e Galeen tem seus problemas. Tirando o personagem do Rabino Loew e do próprio Golem, nenhum dos outros conseguem despertar muito interesse no público. Há um triangulo amoroso formado pela filha do Rabino Miriam (Lyda Salmonova), o assistente e o guarda imperial Florian (Lothar Müthel) que toma muito tempo da narrativa, mas que soa terrivelmente superficial e artificial. Como diretor, Wegener falha em empregar ritmo á história que está contando, pois a divisão da trama em capítulos decididamente não fez bem ao projeto. E embora o 3º ato traga os seus bons momentos de suspense, como a sequência em que o Golem persegue uma vítima até o alto de uma torre, não muda o fato de o filme terminar em um terrível anticlímax, em uma ideia até interessante, mas mal concebida.

No quesito das atuações, Paul Wegener se sai bem como o personagem título. Não dá pra dizer que o traje e a maquiagem usada por Wegener para encarnar o monstro do mito judaico envelheceram bem, por que não é o caso. Mas o ator e diretor consegue conceder a imponência que o Golem precisa, ao mesmo tempo em que com sua expressão vazia, movimentos robóticos, e olhos brilhantes que nunca piscam, nos convencem da natureza inumana do personagem quando ele age de forma inofensiva, e seu arreganhar de dentes e expressão de raiva realmente assustam, e conseguem transmitir ameaça quando necessário. Albert Steinrück por sua vez, traz uma carga dramática interessante para o Rabino Loew ao retrata-lo como um homem que realmente se preocupa com o seu povo, é inebriado pelo poder da criação, mas logo percebe ter ido longe demais, em um arco simples, mas funcional.

O Golem não foi um filme que envelheceu tão bem quanto alguns dos seus pares do movimento expressionista. Mas ele ainda vale a visita pelo belo trabalho de fotografia de Karl Freund e de cenografia de Hans Poelzig, pelo seu valor histórico, e pelo próprio Golem de Paul Wegener, um verdadeiro predecessor do monstro de Boris Karloff e outras criaturas que aterrorizaram o cinema de Hollywood na década de 1930 e 1940.

O Golem – Como Veio ao Mundo (Der Golem – Wie Er In Welt Kam), Alemanha, 1920.
Direção: Paul Wegener, Karl Boese.
Roteiro: Paul Wegener, Henrik Galeen
Elenco: Albert Steinrück, Paul Wegener, Lyda Salmonova, Ernst Deustch, Lothar Müthel, Otto Gebühr, Hans Stürm, Max Kronert, Loni Nest.
Duração: 91 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.