Crítica | O Grande Ditador

estrelas 5,0I should like to help everyone – if possible – Jew, Gentile – black man – white. We all want to help one another. Human beings are like that. 

Talvez o que mais nos chame a atenção em O Grande Ditador, seja o ano no qual foi produzido, 1940. Com a recente ocupação da Polônia e o início da Segunda Guerra, Chaplin nos leva de volta a 1938, nos trazendo uma retratação satírica da Alemanha nazista. Posteriormente o diretor afirmou que jamais filmaria esta obra se soubesse das desumanas proporções dos atos nazistas. Felizmente, Charles ainda estava dotado de uma relativa inocência à época e nos entregou um verdadeiro manifesto pacifista.

Começamos a projeção ainda na Primeira Guerra, onde um barbeiro judeu luta do lado alemão. Chaplin, desde já, trabalha em cima de uma situação dramática, construindo seu humor a partir de seu já habitual personagem, interpretado por ele próprio. Evidentemente desastrado, acompanhamos o homem até um acidente em um avião, que o faz perder sua memória. Alguns anos se passam e já estamos nas vésperas da invasão da Polônia, cujo nome passa a ser Osterlich, no longa-metragem. Aqui, somos apresentados a outra figura interpretada por Charlie, o ditador Adenoid Hynkel.

O diretor, então, utiliza esses dois personagens para desconstruir o Estado nazista. De um lado acompanhamos a perspectiva dos judeus, já sofrendo com toda a segregação imposta pelo ditador. Enquanto do outro assistimos de perto as inconstâncias e indecisões de Hynkel. Mantendo uma orgânica fluidez através de tal narrativa intercalada, Chaplin consegue nos prender em ambos os núcleos, ao mesmo tempo que critica de forma veemente o regime em questão. Os discursos de Adenoid são o ponto alto da projeção, sendo impossível não rirmos ao menos uma vez das palavras em falso alemão pronunciadas por Charlie. Sua personificação de Hitler é zombeteira e, ao mesmo tempo, completamente humana, atuando como um grande desmistificador daquela personalidade, ainda em alta na Alemanha.

Por mais que estejamos assistindo Chaplin em diferentes papéis, com apenas diferenças no figurino, não temos como não enxerga-los como personalidades completamente diferentes, enaltecendo ainda mais a façanha do realizador, tanto como diretor quanto ator. E tal escolha, em ocupar ambos os “cargos”, é por si só um grande argumento dentro da proposta da obra, além da óbvia função realizada em seu desfecho. Charles como o barbeiro e ditador é um grande apelo para todos verem que somos todos humanos – judeus, arianos, negros, homossexuais – o que mudam são nossas escolhas.

Essa postura do diretor se faz ainda mais claramente presente no discurso final da obra, onde ele se desfaz de suas caracterizações, deixa de ser o barbeiro ou Hynkel e se coloca perante a câmera como Charles Chaplin. Em tom sério vemos suas palavras ecoando pelas multidões, atuando como um apelo para o próprio mundo de 1940, implorando pelo fim de toda a barbárie vista na época.

Não esqueçamos, porém, que esta continua sendo uma obra de comédia, por mais que contenha uma grande carga dramática. Além das mais óbvias gags construídas pelas sátiras ao líder nazista, o longa-metragem trabalha muito em cima de elementos do cinema mudo. Sim, estamos diante de um filme falado, o primeiro do diretor, mas, como se declarasse mais uma vez seu amor pelo cinema mudo, Charlie compõe diversas situações que não pedem diálogos. Os próprios discursos do ditador também funcionam como uma clara referência, ao passo que requerem um cômico narrador para traduzir suas falas, como as velhas cartelas. Vemos, portanto, piadas focadas em situações menos que nos diálogos, que funcionam de maneira complementar à trama.

O Grande Ditador é, ao mesmo tempo, uma das melhores comédias de Chaplin e um manifesto pacifista, que atua em diversas camadas para construir seu argumento humanitário. Seja pelas cômicas retratações de Hitler e Mussolini ou pelas inesperadas situações pelas quais os personagens passam, é um filme que irá cativar até a mais exigente audiência. É um verdadeiro marco do cinema.

O Grande Ditador (The Great Dictator – EUA, 1940)
Direção:
Charles Chaplin
Roteiro: Charles Chaplin
Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Jack Oakie, Reginald Gardiner, Henry Daniell, Billy Gilbert, Grace Hayle, Carter DeHaven
Duração: 125 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.