Crítica | O Grande Ditador

o-grande-ditadorplano critico

A preocupação histórica e social do cinema de Charles Chaplin, bastante sintonizada com seu tempo, já havia se manifestado durante a fase de ouro do personagem Carlitos, especialmente em filmes como O Imigrante e O Garoto. Em 1936, o grande ícone da comédia norte-americana em seu tempo realizara a sua grande crítica ao modelo fabril alienado, que convertia homens em engrenagens, com o clássico Tempos Modernos. Contudo, a grande incursão de Chaplin na sátira política e histórica só viria mesmo no ano de 1940, quando teve a ideia de escarnecer o autoritarismo que havia conduzido a Europa a uma nova guerra. O Grande Ditador, lançado em meio à Segunda Grande Guerra, talvez não tivesse acontecido se Chaplin tivesse aguardado um pouco mais para realizá-lo. Seu desconforto cada vez maior para interpretar o ditador da Tomânia – Adenoid Hynkel – o teria impedido de dar cabo ao projeto, segundo as próprias palavras do diretor, que não teria conseguido gracejar sobre o horror genocida do nazismo, que só seria revelado, de fato, cinco anos depois, com o conhecimento dos campos de concentração.

Chaplin se valeu do frescor dos acontecimentos iniciais da guerra para satirizar as figuras de Adolf Hitler e Benito Mussolini (no caso, Adenoid Hynkel e Benzino Napaloni, respectivamente, sendo o último o ditador do país Bactéria). A galhofa sobra para toda a alta cúpula do nazismo, incluindo os ministros Hermann Goering e Joseph Goebbels, que no filme assumem as identidades de Herring e Garbitsch. Enquanto Hynkel é mostrado sem nenhuma pompa, brincando com um globo terrestre como uma criança mimada faria com seu brinquedo, Herring mais parece um lacaio bufão. Sua idiotia garante cenas insólitas, em que ele apresenta ao ditador da Tomânia os inventores de um novo uniforme à prova de balas e de um para-quedas em forma de chapéu. Os resultados são o mais óbvios possíveis. Já Garbitsch é apresentado com seus trejeitos robóticos, sua mímica impassível e uma palidez quase vampiresca. Sua astúcia não encontra par na trapalhada sem fim de Hynkel (até mesmo para vestir sua capa).

O arco dramático do barbeiro judeu que servira na Primeira Guerra Mundial e que começa a ser perseguido pelos nazistas se desenvolve paralelamente e é o contraposto à busca de poder que aparece no primeiro. Todos os personagens são homens e mulheres simples e humildes, dando voz àqueles que mais sofreram naqueles anos de penúria financeira, intolerância e violência de toda sorte. Chaplin faz de seu barbeiro um alter-ego de Carlitos tanto nos gracejos quanto na personalidade bondosa e pura. Tal como o vagabundo desajustado e que sofre para viver em um mundo cheio de maldade e miséria, o personagem de O Grande Ditador já se mostra inábil para a guerra na sequência inicial. A lavadora Hannah é para ele o que a florista cega, de Luzes da Cidade, é para Carlitos – a própria personificação da esperança. Não à toa, é a ela que ele dirige o célebre discurso final. Faz parte desse arco também um dos momentos mais interessantes do filme, quando o barbeiro faz a barba de um cliente seguindo o ritmo da Quinta Dança Húngara, de Johannes Brahms. Chaplin conduz brilhantemente a cena como um número à parte.

Mas o ponto alto do longa-metragem é mesmo a patética disputa de poder entre Hynkel e Napaloni. Os dois aliados ideológicos e grandes artífices do maior conflito bélico do século XX surgem na tela duelando por quem se sentava na cadeira mais alta de uma barbearia. A zombaria chapliniana chega à iminência de uma guerra de comida. Todas as cenas que retratam o encontro dos dois ditadores garantem muitas risadas do público e parte disso deve ser creditada também à excelente atuação de ator Jack Oackie, que dá vida a Napaloni. Charlie Chaplin consegue trazer para o tema da guerra todo o humor slapstick que o consagrou em sua fase no cinema mudo (vale lembrar que O Grande Ditador é seu primeiro filme falado). Ainda que retratando a barbárie de uma guerra em curso, o cineasta consegue dosar o humor sem se tornar desrespeitoso com as vítimas do conflito. Ao contrário, o espectador consegue encontrar em seu longa-metragem uma brecha para transformar a tragédia em riso e os ditadores fascistas, que tanto fanatismo despertaram, em homens obtusos, desinteressantes e banais.

O próprio Partido Nazista, ao tomar conhecimento do conteúdo do filme, tentou desmerecê-lo ao acusá-lo de tratar o Terceiro Reich como “um circo de personagens bobos e excêntricos”. O que os nazistas não entenderam na época é que era precisamente essa grande qualidade do espetáculo zombeteiro de Chaplin. Seu longa-metragem é muito mais do que o lindo discurso pacifista final do barbeiro judeu. O Grande Ditador vai muito além do pacifismo. Sua maior força está em devolver ao homem a capacidade de duvidar dos mitos, que esbravejam suas promessas de salvação e glória eterna. Ao expor os ditadores ao escrutínio da piada e do riso, o filme de Chaplin manifesta sua resistência a eles. O longa-metragem oferece um antídoto contra as paixões políticas cegas e o culto à personalidade, ingredientes fundamentais da barbárie do século XX, que permanece latente entre nós como uma peste adormecida.

O Grande Ditador (The Great Dictator – EUA, 1940)
Direção:
 Charles Chaplin
Roteiro: Charles Chaplin
Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Jack Oakie, Reginald Gardiner, Henry Daniell, Billy Gilbert, Grace Hayle, Carter DeHaven
Duração: 125 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.