Crítica | O Grande Golpe

estrelas 4

Stanley Kubrick é um dos cineastas mais admirados, respeitados e populares do cinema moderno, tanto pelos colegas de profissão quanto pelo público em geral. No entanto, para as novas gerações, Kubrick é sinônimo de 2001, Laranja Mecânica e O Iluminado, basicamente, filmes que consagraram a ousadia e uma forma de filmar bastante particular do diretor, que procurou sempre se reinventar e dar um sopro de novidade em cada filme que realizava, com seu temido e renomado perfeccionismo, que dedicava anos a cada nova produção.

Kubrick dirigiu O Grande Golpe quando tinha apenas 27 anos, mas já demonstrava o talento inovador que viria a desabrochar totalmente a partir do filme Dr. Fantástico, de 1964. Embora os elementos clássicos de um típico filme noir da década de 40 estejam lá – a figura de um narrador, criminosos e fracassados como protagonistas, a ação centrada em torno de um crime, a mulher fatal, o uso do preto e branco – o diretor acrescentou algumas mágicas narrativas e técnicas que tirou de sua cartola.

A mais notável diz respeito à estrutura do roteiro, não-linear, com idas e vidas, mostrando uma mesma cena pelo ponto de vista de diferentes personagens. Hoje, esta técnica já foi explorada por outros diretores – Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, por exemplo – mas em 1956 esta inovação não foi vista com bons olhos pelo estúdio, que achava que o público não iria entender a história. Kubrick se recusou a remontar o filme, conforme instruções do estúdio, e conseguiu convencê-los a lançá-lo conforme o havia concebido. Não necessariamente por este elemento, o filme não foi bem nas bilheterias, mas mesmo assim os críticos apreciaram o resultado final e a fita chamou a atenção de um grande estúdio, a Metro, que ofereceu a Kubrick a oportunidade de escolher dentre vários projetos o que mais lhe agradasse realizar, o que resultou em seu próximo filme, o impactante e anti-bélico Glória Feita de Sangue.

Neste O Grande Golpe, acompanhamos a história de Johnny Clay (Sterling Hayden) , que depois de passar cinco anos na prisão, resolve aplicar um último golpe para garantir seu futuro e abandonar a vida de pequenas contravenções. O plano é assaltar o jóquei no dia de um grande prêmio. Para concretizar sua ideia, ele reúne comparsas e ajudantes, que se beneficiarão ou não do fruto do roubo, incluindo dois empregados do jóquei e até mesmo um policial – um pequeno detalhe de cinismo bem típico do filme noir.

Apesar das dificuldades e contratempos que surgem, o golpe é bem sucedido no que diz respeito ao roubo e ao fato do grupo principal envolvido conseguir escapar de serem pegos pela polícia. Os problemas internos é que determinarão o fracasso da empreitada, traduzidos na figura da esposa infiel de um deles (George – Elisha Cook Jr.), que conta a seu amante (Val – Vince Edwards) sobre o envolvimento do marido e o induz a tomar para eles o fruto do roubo. Val reúne alguns amigos e vai ao local do encontro marcado pelo grupo para fazer a divisão do dinheiro. Embora Johnny consiga escapar com o dinheiro, evitando envolver-se no confronto entre seus comparsas e o grupo de Val, sua atitude precipitada ao fugir acaba pondo tudo a perder.

Muitos críticos apontam influências nos primeiros filmes de Kubrick. Max Ophuls e Orson Welles são frequentemente citados pela elegância dos movimentos de câmera e profundidade de campo que Kubrick utilizou, como em O Grande Golpe. Mas são bastante peculiares as ideias que saíram de sua própria cabeça, como nas cenas internas, nos apartamentos de Johnny e George, quando a câmera faz travellings laterais, passeando pelos cômodos, como se entre eles não houvessem paredes, ou colocando a câmera em ângulos bastante atípicos – outra influência que mais modernamente é visível em filmes dos irmãos Cohen, por exemplo. Não é desabonador, e bastante natural para um jovem diretor, incorporar ao seu estilo influências daqueles que são para ele, no seu tempo, os grandes mestres. Além de Ophuls e Welles, é notável a influência, especificamente neste O Grande Golpe, de ícones do filme noir, como John Huston. Não por acaso, a cena final de O Grande Golpe lembra muito a cena final de O Tesouro de Sierra Madre, de Huston.

Apesar do fracasso comercial, as revisões críticas de O Grande Golpe serviram para fazer justiça a este belo trabalho de Kubrick. Muitos críticos o consideram um dos melhores filmes noir de todos os tempos e inclusive alguns, um de seus melhores trabalhos. Em janeiro de 2012, o renomado crítico americano Roger Ebert o incluiu em sua lista de Grandes Filmes de todos os tempos, enfatizando que é interessante identificar em O Grande Golpe alguns temas e um estilo próprio que o diretor retomaria mais tarde ao realizar suas conhecidas obras-primas.

O Grande Golpe (The Killing, EUA, 1956)
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro:  Stanley Kubrick, Jim Thompson
Elenco: Sterling Hayden,  Coleen Gray, Vince Edwards, Elisha Cook Jr., Marie Windsor
Duração: 83 min.

SIDNEI CASSAL. . . . Formado em Letras (Português/Francês) . Estudante de Direito. Trabalhei com redação e criação publicitária. Participei de Oficina de Cinema, em convênio com a TVE-Porto Alegre, onde os curta-metragens produzidos foram montados e exibidos. Cinéfilo de carteirinha.