Crítica | O Grande Mestre (Yip Man / Ip Man – 2008)

estrelas 3,5

Esclarecimento: O filme a ser abordado na presente crítica é a primeira cinebiografia de Yip Man, o mestre de kung-fu mais conhecido por ter treinado Bruce Lee. Ele teve duas continuações também com Donnie Yen, em 2010 e 2015. Não confundir com outras obras sobre o mesmo personagem lançadas na esteira do sucesso desta primeira e nem com o sensacional O Grande Mestre, de 2013, dirigido por Wong Kar Wai que, apesar de ter sido anunciado antes ainda do filme de Wilson Yip, ficou em desenvolvimento por muito tempo, sendo lançado muitos anos depois. Infelizmente, somente para confundir o espectador, as versões em português dos títulos de ambas as obras são idênticas.

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Praticamente desconhecido do público em geral até o extremamente bem-sucedido lançamento de O Grande Mestre em Pequim, ao final de 2008, Yip Man foi um fenomenal mestre de Wing Chun, arte marcial chinesa que data do século XVII, apesar da origem exata ser imprecisa em vista da tradição oral e não escrita de transmissão desse conhecimento. Bruce Lee estudou com Yip Man a partir de 1957, o que torna a biografia do antes desconhecido mestre particularmente importante.

O roteiro de O Grande Mestre, porém, não foca neste período da vida de Yip Man, começando nos anos 30, antes da eclosão da Segunda Guerra Sino-Japonesa em 1937, com a invasão japonesa em território chinês e que só acabaria com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Quando o filme começa, Yip Man já nos é apresentado como um mestre absoluto em sua arte marcial, mas um mestre recluso, na cidade de Foshan, que se recusa a abrir uma academia para ensinar alunos. Muito ao contrário, ele vive em uma mansão apenas com sua mulher e filho, mas sempre treinando sua arte e sempre atento ao que acontece na cidade, então conhecida como uma espécie de centro de artes marciais no sul da China.

Se a postura sempre superior, mas bondosa de Donnie Yen não é suficiente para deixar claro que Yip Man “é o cara”, o roteiro logo tira qualquer sombra de dúvida ao colocar o mestre diante de dois desafiantes. O primeiro é um mestre local que o desafia a uma luta reservada, cujo resultado não seria revelado a ninguém. É a primeira vez que o espectador pode testemunhar o belo trabalho de wire-fu da produção e a habilidade técnica de Yen em realmente nos convencer de sua luta e esforço físico mesmo com a ajuda de efeitos práticos. Seu rosto sempre impassível, mas marcante e sua postura sempre elegante evocam um tipo de artista marcial que ao mesmo tempo reverencia Bruce Lee, mas infunde as características sérias de Chow Yun-Fat e as acrobacias de Jackie Chan em um “pacote” harmônico e crível dentro do espetáculo proposto. Entre esta luta e a seguinte, cortesia de lutadores do norte que chegam para desafiar todos os mestres de Foshan, a pouca história se desenvolve como pode, com foco exclusivo em Yip Man e sua relação de negócios com Zhong Han Hao (Hanhao Zhong), que usa seu dinheiro para desenvolver sua fábrica, além de introduzir Li Ze (Li Chak), um policial e com o jovem Lin (Xing Yu), todos, claro, com sua importância depois do começo da guerra.

Mas a história e seus personagens são apenas desculpas para uma sucessão de impressionantes lutas. Não há um desenvolvimento maior de cada um que não seja o clichê padrão de filmes setentistas do gênero. E não há mal algum nisso, na verdade, pois o trabalho coreográfico de Shammo Hung e Tony Leung Siu-hung realmente merece destaque aqui. As lutas ganham escopo cada vez maior, saindo da seriedade íntima da primeira para a lição de moral jocosa da segunda, passando por um desafio impossível contra 10 lutadores até o clímax que coloca Yip Man, defendendo a honra dos chineses contra o malvado (mas de certa forma honrado) general japonês Miura (Hiroyuki Ikeuchi), que tem admiração por kung-fu e vive de colocar seus discípulos lutando contra os mestres de Foshan. Beneficiando as lutas, vale perceber que a montagem, diferente de grande parte do padrão ocidental de blockbusters, a montagem coloca o espectador na posição efetiva de observador externo, sem que cortes bruscos e incessantes impeçam a compreensão do que está acontecendo. E isso só destaca com mais veemência o convincente trabalho de Donnie Yen no papel título.  

A simplicidade da narrativa e da motivação dos personagens servem para que o foco fique, objetivamente, nos momentos de luta. No entanto, por mais chamativas que as lutas sejam, seria injusto não abordar o cuidadoso trabalho da direção de arte do filme, que é responsável por cenários convincentes, mas com um leve ar de artificialidade, como se o diretor realmente quisesse passar ao espectador que o que estamos vendo, apesar de ser baseada na biografia de um homem real, é fortemente ficcionalizada (Yip Man nunca lutou contra Miura e também nunca passou penúria durante a Guerra) para dar aura lendária ao personagem. Essa artificialidade se faz presente não só pelos figurinos e cuidados reconstrução de época, como também pela direção de fotografia que faz questão de trabalhar cores fortes, filtros claros (antes da guerra) e escuros (durante a guerra), emprestando uma aura de fábula à narrativa. Com isso, é mais fácil aceitar a invencibilidade de Yip Man mesmo quando precisa lutar com fome, depois de um dia intenso de trabalho e passados meses sem qualquer treinamento. É a Sétima Arte fazendo seu papel de transformar lendas humanas em lendas sobre-humanas, quase super-heroísticas.

O trabalho de Wilson Yip na direção, assim como o de Edmong Wong e Tai-Li Chan no roteiro é homenagear os filmes de kung-fu que vieram antes ao mesmo tempo que construir em cima deles, reabrindo o espaço que havia sido perdido para esse tipo de enfoque. O sucesso financeiro e crítico de Yip Man e as várias cópias que se seguiram (não estou falando aqui do filme de Wong Kar Wai, completamente diferente em espírito e execução!) deixa claro o quão bem sucedidos eles foram.

O Grande Mestre (Yip Man, Hong Kong/China – 2008)
Direção: Wilson Yip
Roteiro: Edmond Wong, Tai-Li Chan
Elenco: Donnie Yen, Simon Yam, Lynn Hung, Hiroyuki Ikeuchi, Ka Tung Lam, Siu-Wong Fan, Xing Yu, You-Nam Wong, Yu-Hang To, Calvin Ka-Sing Cheng, Zhi-Hui Chen, Tenma Shibuya, Li Chak, Hanhao Zhong, Li Chak)
Duração: 106 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.