Crítica | O Grinch (2000)

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estrelas 4

Com uma mistura de Nosferatu (1922) e O Mágico de Oz (1939), esta adaptação de Ron Howard para o famoso livro infantil de Dr. Seuss, lançado em 1957, divide bastante a opinião dos críticos, mas existe quase uma concordância geral sobre a excelente linha cômica dada pelo diretor e por Jim Carrey, que interpreta O Grinch, a este universo minúsculo e seus habitantes estranhos que têm o Natal roubado pela vilanesca (mas não tão vilanesca assim) criatura verde e mesquinha que odeia o espírito natalino.

Por ser baseado em um livro com menos de 40 páginas, com muitas figuras e narrativa em rimas, é evidente que diversas passagens precisaram ser acrescentadas e/ou alteradas no roteiro para compor o tempo do longa. Embora esta não tenha sido a primeira adaptação do livro (dois curtas de animação já haviam sido feitos antes, o mais famoso em 1966, e outro em 1992), certamente se tornou a mais conhecida, tanto pelo sucesso de bilheteria, quanto pela caracterização de Jim Carrey para o Grinch. O ator passou por inúmeros desconfortos durante as filmagens, como o uso da “pele” de seu personagem, a pesada aplicação de prótese + maquiagem que levava horas para ser completada, e as terríveis lentes de contato amarelas, que ele não conseguia usar por muito tempo, de modo que uma parte das cenas onde seus olhos são focados, a coloração foi feita digitalmente. Nos closes, porém, ele fez questão de utilizar as lentes, para dar maior realismo ao frame.

Para a linha de filmes que Ron Howard vinha dirigindo antes de O Grinch, obras como Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo (1995), O Preço de Um Resgate (1996) e Ed TV (1999), é admirável a forma como ele conseguiu abordar o tema com enorme facilidade, fazendo um balanço entre comédia e terror, não se esquecendo de atingir o público infantil e ao mesmo tempo não retirando a essência da obra original. Aliás, o diretor e os roteiristas Jeffrey Price e Peter S. Seaman mantiveram o máximo possível de referências ao livro, no aspecto visual e no aspecto narrativo. O espectador mais exigente sentirá falta de uma maior presença de rimas, principalmente na narração de Anthony Hopkins, e certamente irá estranhar as nuances românticas da obra, que são sim a sua fraqueza.

Por outro lado, o enredo salta de “apenas um conto um pouco assustador de Natal” para uma reflexão a respeito do significado e certas “filosofias” da data, linha que as obras natalinas dos anos 2000 em diante sempre destacaram, mas com significado crítico, ligado ao consumismo como “única alternativa” à data, algo que, no filme, está entre os motivos pelo qual o Grinch não gosta do Natal. No livro, o vilão se incomoda com o barulho e a glutonaria, mas na adaptação esses elementos ganham outros companheiros, uma colocação aceitável do roteiro para uma obra às portas do século XXI.

A direção de arte merece todos os méritos possíveis por sua excelente construção da Who-Ville, com um caos ordenado, colorido, muitíssimo bem iluminado e pelo qual Ron Howard soube muito bem transitar com a câmera; e pela caverna do Grinch, que tem um desenho de produção mais sombrio, cheio de sucatas e lixo, tudo colocado de forma criativa, ganhando uma bonita decoração de Natal ao final, sem perder totalmente a atmosfera pesada e fotograficamente mais escura e medonha em relação à vila. O diretor de fotografia Donald Peterman (nomeado ao Oscar na categoria por Flashdance: Em Ritmo de EmbaloJornada nas Estrelas IV – A Volta para Casa) soube criar contrastes belíssimos, sem deixar a caverna e a vila monocromáticos, tendo identidades próprias, com alterações dentro do enredo e que de alguma forma valorizam o projeto arquitetônico misto de simples construções medievais, marroquinas e genericamente islâmicas, exatamente as raízes contidas no livro.

Vencedor merecido do Oscar de Melhor Maquiagem e indicado nas categorias também notáveis de Figurino e Direção de Arte, O Grinch está entre os filmes “incomuns” de Natal, que não deixam de abordar um lado mais obscuro que vive ao redor de qualquer grande agrupamento humano, em qualquer vila e cidade, mas não foca apenas nesse detalhe, abrindo a possibilidade de redenção e mudança de qualquer um que queira mudar. Para mim, trata-se uma das obras mais deliciosas de “conversão de alguém que não gosta do Natal” em alguém que saiba ao menos apreciar o espírito que paira pelo mundo nessa época do ano. Sim. Com direito a clichês bobinhos, fofuchismos e tudo o mais.

O Grinch (How the Grinch Stole Christmas) — EUA, Alemanha, 2000
Direção: Ron Howard
Roteiro: Jeffrey Price, Peter S. Seaman (baseado na obra de Dr. Seuss)
Elenco: Jim Carrey, Taylor Momsen, Kelley, Jeffrey Tambor, Christine Baranski, Bill Irwin, Molly Shannon, Clint Howard, Josh Ryan Evans, Mindy Sterling, Rachel Winfree, Rance Howard, Jeremy Howard, T.J. Thyne, Lacey Kohl, Anthony Hopkins
Duração: 104 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.