Crítica | O Grito (1957)

Adepto do chamado neo-realismo italiano, de onde começou a lapidar sua carreira com o curta-metragem documentário A Gente do Pó, não por acaso um dos títulos precursores do movimento, é notável como o título original de O Grito, antes de convocar a ideia da abordagem em si, denuncia o findar da jornada do protagonista Aldo (Steve Cochran), mas não sob seus olhos. Um grito que ecoa da tela marca um dos planos finais deste trabalho singular de Michelangelo Antonioni, e junto dele, o acompanhar aterrorizado de um olhar feminino.

Olhar este que se estende não como uma análise do estado de Aldo em si, mas como o rodear de seu cotidiano, marcado pela passagem de diversas mulheres em seu caminho, e com elas, desilusões amorosas e um sentimento vazio que levam Aldo a uma viagem solitária pelo interior da Itália, num esquema de road movie que leva Aldo e, consequentemente, nós que o assistimos, a uma experiência de perspectivas em meio a uma época de crises.

E nisto, O Grito representa a transição de Antonioni do neo-realismo para o existencialismo, transição esta que mais tarde se estenderia para a sua chamada Trilogia da Incomunicabilidade, marcadas pelos títulos A Aventura, A Noite e O Eclipse. Incomunicabilidade esta já marcada não somente pelo personagem Aldo, cujo relacionamento extraconjugal com Irma (Alida Valli) é desfeito quando a mulher recebe a notícia da morte do marido e confessa estar apaixonada por outro homem. Acompanhado pela filha, Aldo parte em sua jornada sem vislumbres de um fim definitivo, relacionando-se com outras mulheres e, no retornar ao seu povoado, descobre que sua existência se encontra estagnada, Irma já possui um filho com outro homem, e seus colegas da fábrica de açúcar onde trabalhava, agora envolvidos em manifestos contra a expropriação de terrenos locais, lhe dizem “depois falarei contigo, agora tenho outras coisas para fazer.” No mergulho em seu individualismo, Aldo alimenta o seu cansaço e se torna um estranho em meio ao seu convívio social.

O caminho da autodestruição é não somente comovente, mas denota uma clareza narrativa de Antonioni que, ao lado de trabalhos como Blow-Up: Depois Daquele Beijo e Zabriskie Point, complexos em sua desfragmentação, parece ter encontrado pouco lugar ao sol na memória dos próprios admiradores do cineasta. Mas há uma riqueza ímpar para O Grito em meio a sua filmografia, seja pela dualidade de sentimentos mesmo diante do vazio existencial de Aldo, seja pelos elementos tão elementares que compõem os quadros da obra de Antonioni, e que vão desde a fotografia em preto-e-branco evocativa de Gianni Di Venanzo até a música de Giovanni Fusco. Em suma, O Grito é um filme de sentimentos raros, algo tão típico de um cineasta como Michelangelo Antonioni.

O Grito (Il Grido) — Itália/ EUA, 1957
Direção:
 Michelangelo Antonioni
Roteiro: Michelangelo Antonioni, Elio Bartolini, Ennio De Concini
Elenco: Steve Cochran, Alida Valli, Dorian Gray,  Lynn Shaw, Gabriella Pallotta, Pina Boldrini, Guerrino Campanilli, Mirna Girardi
Duração: 116 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.