Crítica | O Guarda-Costas (1992)

O Guarda-Costas é um filme “inesquecível”, isto é, uma daquelas histórias de amor que conhecemos não exatamente por suas qualidades narrativas, mas por conta da forma como foi exaustivamente repetida em nosso imaginário. Os cinéfilos e espectadores comuns podem até não ter assistido ao filme até hoje, no entanto, provavelmente já devem ter ouvido falar na melodramática trajetória de uma cantora pop e do homem que é pago para protegê-la dos inevitáveis fãs histéricos, provenientes de uma sociedade do espetáculo doente. Whitney Houston fez história com seu primeiro papel no cinema e Kevin Costner cristalizou a sua presença no panorama de personagens heroicos do cinema hollywoodiano dos anos 1990.

Mick Jackson dirigiu o roteiro de Lawrence Kasdan, texto que já circulava pelos meandros da indústria desde os anos 1970, tendo Diana Ross e Steven McQueen como prováveis protagonistas, numa negociação que não avançou e ficou engavetada por mais de uma década. No filme, Rachel Marron (Whitney Houston) é uma famosa estrela da música que foi indicado ao Oscar, o maior prêmio da indústria cinematográfica estadunidense. A sua sensação de sucesso está abalada por conta das constantes ameaças de morte que recebe de um provável fã alienado e psicopata. Quando uma bomba inserida numa boneca explode em seu camarim, a sua equipe de produção, em especial, o seu empresário Bill Devaney (Bill Cobbs) vai precisar contar com os serviços de Jack (Kevin Costner), um guarda-costas habilidoso que já serviu pessoas renomadas, isto é, ninguém menos que os presidentes Jimmy Carter e Ronald Reagan, alguns nomes de peso na sua lista de trabalhos.

O óbvio vai acontecer: eles dois vão se apaixonar e viver uma tórrida relação. O problema é que ele é paranoico e dono de técnicas de proteção consideradas intrusivas, processos metodológicos que tornam a relação algo muito tenso. Ela precisa ser iluminada pelos holofotes da cultura da mídia e do espetáculo e ele precisa ser o “olhar” habilidoso responsável por captar o perigo diante de imensas plateias. Ela o acha muito “durão” e ele a considera uma estrela mimada. Os opostos, como em todo bom filme romântico, se atraem, trazendo para tela uma efusão de amor numa trama que a mulher “precisa ser salva”, tal como uma heroína do romantismo literário, entretanto, tem consciência da relação fadada ao fracasso e também deseja manter-se alimentada pelo sucesso proporcionado pela sociedade de consumo em que está mergulhada, ambiente capaz de lhe proporcionar êxito numa indústria cultural dominada por homens.

Com diálogos melodramáticos e cenas ágeis, típicas da cultura do videoclipe, graças ao trabalho de montagem da dupla formada por Donn Cambern e Richard A. Harris, o filme é embalado pela condução musical de Alan Silvestri, apresentado ao público por meio da direção de fotografia comum de Andrew Dunn, profissional responsável por captar o melhor do design de produção assinado por Jeffrey Beecroft, membro da equipe técnica que contou com os eficientes Susan Nininger e seus eficientes figurinos que emulam bem a cultura pop na qual a protagonista encontra-se inserida.

Dentre os destaques temáticos e contextuais, O Guarda-Costas nos permite discutir o amor e os relacionamentos no bojo de existências que são representações cabais do que se convencionou chamar de sociedade do espetáculo, termo cunhado por Guy Debord e que já foi muito reinterpretado ao longo da segunda metade do século XX. A produção mergulha nos problemas oriundos da cultura da imagem, situada na era prévia ao processo de democratização da internet, tendo em vista radiografar uma representação bem cuidada das relações sociais mediadas pela imagem. No contexto político, religioso e interpessoal, nos encontramos constantemente envolvidos na seara da mercantilização da imagem.

Dentro desse segmento de vida, o modelo econômico vigente está vinculado ao modo de vida individualista/consumista que destruiu a esfera privada e tornou tudo extremamente público, para atender às demandas de uma plateia de fetichistas interessados na vida alheia. O que é belo e desejável é sempre a novidade, o último modelo, as “coisas” ao invés das “pessoas”. Ele quer o amor e a discrição. Ela quer unificar o sucesso profissional e os seus sentimentos. Ambos não conseguem encontrar uma solução. Como amar desta maneira?

O Guarda-Costas — (The BoyGuard – EUA, 1992).
Direção: Mick Jackson
Roteiro: Lawrence Kasdan
Elenco: Whitney Houston, Kevin Costner, Ralph Waite, Bill Cobbs, Gary Kemp, Ralph Waite, Tomas Arana, Mike Starr, Joe Urla

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.